O papel dos pais na prevenção dos transtornos alimentares dos seus filhos

maio 30, 2020
Os transtornos alimentares são um dos males de uma sociedade que mistifica a magreza, punindo os adolescentes com padrões de beleza impossíveis de alcançar. Sob esse foco de influências perversas, os pais desempenham um papel essencial.

A origem de determinados transtornos é desconhecida. Em relação a alguns, há indícios dos fatores que os precipitam. No caso dos transtornos alimentares, esta parece ser uma realidade clara e difícil: são motivados por um contexto cultural. Isso implica que esses transtornos, tanto casos de anorexia quanto de bulimia e obesidade, respondem a valores e estilos de vida que predominam no entorno. Vale a pena considerar, dessa forma, a influência da sociedade, seu impacto nesse grupo e o papel dos pais na prevenção dos transtornos alimentares de seus filhos.

Em muitos transtornos psicológicos, a idade desempenha um papel fundamental. Em alguns deles, como os transtornos de personalidade, mudanças específicas começam a se manifestar nos estágios iniciais da vida adulta.

Outros podem afetar sistematicamente uma parte da população, como os problemas de ansiedade e depressão nas mulheres (embora, em relação a esse assunto, possamos falar sobre o diagnóstico excessivo e os poucos pedidos de ajuda por parte dos homens).

Os pesquisadores Piñedos, Molano e López de Mesa (2010) descobriram que um dos principais motivos pelos quais o nível socioeconômico não era relevante no aparecimento de um transtorno alimentar é que estereótipos de beleza e magreza já estavam atingindo contextos nos quais eles seriam menos comuns: as áreas rurais.

A idade de risco é entre 13 e 24 anos para as mulheres. Essa faixa etária coincide com a permanência da filha em casa. Por esse motivo, embora saibamos que o papel dos pais na prevenção dos transtornos alimentares é muito relevante, podemos nos perguntar: há algo que eles possam fazer para impedir que apareçam?

Pessoa se pesando

O papel dos pais na prevenção dos transtornos alimentares

Antes de explicar o papel dos pais na prevenção de transtornos alimentares e, portanto, o que pode facilitar ou impedir o seu aparecimento, vale destacar que um transtorno alimentar está relacionado a muitos fatores. O fato de existirem determinadas características na família que podem ter relação com os transtornos alimentares não significa que seu desenvolvimento seja culpa da família.

Martínez e Martínez (2017), estudando a relação entre transtornos alimentares, família e gênero em Bogotá, descobriram padrões nas famílias das pessoas afetadas. Dessa forma, concluíram que a disfunção na estrutura familiar era proporcional ao aparecimento de um transtorno alimentar, com dois elementos principais: a falta de coesão e a baixa tolerância à frustração dessas jovens.

Além disso, ambas as pesquisadoras falaram sobre pais excessivamente controladores com suas filhas adolescentes, superprotetores, autoritários e que não favorecem a independência. Isso pode levá-las a pensar que ela não têm controle sobre seu entorno, em uma idade em que deveriam estar adquirindo responsabilidades e poder sobre as suas vidas.

O estilo parental permissivo é a solução?

O papel dos pais na prevenção dos transtornos alimentares não envolve ser permissivo ou negligente. Esse mesmo estudo observou que a falta de afeto e supervisão estão relacionadas à baixa autoestima, uma das principais características de todos eles.

Além disso, os pesquisadores discorreram sobre a existência de um único tipo de família onde é mais provável que ocorra um transtorno alimentar. Na ausência de consenso, é interessante destacar o que Espina, Pumar, García e Ayerbe (1995) encontraram em sua meta-análise sobre os transtornos alimentares e a interação familiar:

  • A bulimia tende a se desenvolver em famílias mais conflituosas e patológicas. Nelas, há hostilidade, déficits nutricionais, desengajamento, impulsividade e falta de apoio parental. Não costuma aparecer conflito conjugal.
  • Em muitos casos, a anorexia restritiva parece se desenvolver em famílias com pais que, embora positivos, geralmente estão envolvidos em grandes problemas conjugais e de convivência.
  • As famílias de adolescentes com anorexia purgativa também costumam apresentar conflito conjugal. A hostilidade e a falta de apoio dos pais geralmente estão mais mitigados.

O que os pais podem fazer contra um transtorno alimentar?

Conhecendo o enorme impacto que um pai pode ter no aparecimento e desenvolvimento de um transtorno alimentar, devemos abordar o que eles podem fazer.

Martínez, Navarro, Perote e Sánchez (2010) apresentam algumas ferramentas úteis em seu manual Educar y crecer en salud: el papel de padres y educadores en la prevención de los trastornos alimentarios.

Comentários negativos sobre o físico da sua filha

O corpo da adolescente muda e ela não é a única a perceber isso; seu entorno também comenta sobre seu físico. Alguns desses comentários podem favorecer bastante uma boa autoestima.

Muitos adultos que sofreram de um transtorno alimentar lembram-se de comentários como: “não coma tanto senão você vai ficar gorda”, “cara redonda”, “você parece um idiota quando usa o seu cabelo assim”, “veja o corpo que a sua prima tem”.

Ferramentas para uma adolescência incerta

A adolescência é um desafio que algumas adolescentes não estão prontas para enfrentar. Algumas acreditam em reduzir seu desconforto com uma solução falsa, os transtornos alimentares, que lhes concedem controle sobre o corpo (uma fonte constante de desconforto consigo mesmas) e sobre a comida.

É de vital importância educar e fornecer ferramentas para que elas saibam gerenciar as frustrações e não vivam a adolescência como uma etapa confusa devido à falta de informação por parte dos pais.

Recomenda-se falar sobre os transtornos, sobre sinais de alerta, sobre os pensamentos que podem estar relacionados a eles e sobre a existência de diversos tipos de beleza, embora as mensagens recebidas por outros canais sejam totalmente diferentes.

É provável que esse papel não seja desempenhado pelos amigos dela ou por uma sociedade que vive amplamente da existência do problema. É você que terá que dizer à sua filha que magreza não é sinônimo de beleza. Caso contrário, ela estará exposta a uma adolescência repleta de mudanças físicas com a ideia de que a magreza extrema, às vezes inatingível, é o que ela deveria buscar.

Adolescente se olhando no espelho

Os limites são fundamentais para a prevenção dos transtornos alimentares

A permissividade geral das últimas décadas deu origem a pais que, mesmo que queiram estabelecer regras, não sabem como fazê-lo. Portanto, a imposição de limites a partir do afeto e da aceitação, diferenciando entre o que eles gostariam para suas filhas e o que elas querem, é um fator de proteção contra qualquer transtorno alimentar.

Parte do papel dos pais na prevenção envolve a imposição de limites. Este é, talvez, um dos trabalhos mais ingratos a curto prazo, mas com melhores efeitos a médio e longo prazo.

A ideia é que, se as crianças não aprenderem a viver com limites saudáveis quando pequenas, na adolescência elas não vão considerá-los, mesmo que precisem deles, como no caso do transtornos alimentares. Por fim, especialistas asseguram que são necessários apenas dois fatores para evitar esses transtornos: afeto e controle.

  • Martínez, J., Navarro, S., Perote, A. y Sánchez, M. (2010). Educar y crecer en salud. El papel de padres y educadores en la prevención de los trastornos de alimentación. Ed: Instituto Tomás Pascual Sanza para la nutrición y la salud. Madrid, España.
  • Piñeros, S., Molano, J. y López de Mesa, C. (2010). Factores de riesgo de los trastornos de la conducta alimentaria en jóvenes escolarizados en Cundinamarca (Colombia). Revista Colombiana de Psiquiatría, 39(2), 313-328.
  • AEPNYA. Trastornos de la conducta alimentaria (TCA). Procolocos 2.008.
  • Ochoa de Alda, I., Espina, A. y Ortego, M. (2006) Un estudio sobre personalidad, ansiedad y depresión en padres de pacientes con un trastorno alimentario. Clínica y Salud, 17(2), 1-20.
  • Martínez, D. y Martínez, S. (2017). Relación entre tratornos de la conducta alimentaria y género y familia en adolescentes escolarizados, Suba (Bogotá). Carta Comunitaria, 25(143), 29-33.