Existem mães com a intenção de que suas filhas sejam eternamente crianças

Existem mães com a intenção de que suas filhas sejam eternamente crianças

abril 4, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Existem mães com a intenção de que suas filhas sejam eternamente crianças

Os processos de separação entre mães e filhas são influenciados de uma forma muito negativa pela cultura machista. É como se a influência desta cultura incentivasse que toda mulher abrigasse um desejo, de que um dia a sua mãe lhe dissesse algo como: “Vá. Abra suas asas e aprenda a ser você mesma”. Mas, apesar de ser um desejo comum, raras vezes se cumpre: especialmente em sociedades machistas como as nossas.

O mais comum é justamente o contrário. Longe de permitir que suas filhas pensem e vivam por conta própria, muitas mães procuram retê-las e manter o controle sobre elas. Costumam se colocar como vítimas e/ou incutir o medo. Diante de alguma ponta de desejo de autonomia, que contradiga a visão que elas têm da vida, costumam dizer: “Crie corvos e eles arrancarão seus olhos”. Ou lhes lançam profecias difusas e terríveis.

“Quando foi que nos separamos? Foi apenas ontem à noite? Ou foi o dia anterior? Seja como for, não importa. Ontem, antes de ontem, anos atrás, sempre foi a mesma história.”
–Ngugi wa Thiong’o–

O fato é que, para uma mulher, o assunto da ruptura com a sua mãe para ser ela mesma pode se transformar em um conflito profundo. Muitas mulheres se sentem entre a cruz e a espada: adoram sua mãe e gostariam de lhe dar apenas motivos de felicidade. Mas, ao mesmo tempo, sabem que precisam estabelecer uma ruptura com esse vínculo para poderem encontrar o seu próprio caminho.

A mãe que deseja a sua filha pequena

Muitas mães constroem um mandamento que passam para suas filhas de uma forma bastante inconsciente: “Permaneça pequena se você não quer me ver sofrer”. Mas esse mandamento guarda, ao mesmo tempo, uma ameaça terrível: “Continue pequena para que eu possa continuar amando você”.

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Querer que a sua filha continue sendo uma menina é o grande desejo das mães educadas nas culturas machistas. A sua filha é uma continuação delas, não um indivíduo livre que possa reclamar e alcançar a autonomia. Se a filha continua sendo criança, mesmo que seja velha, a mãe não tem por que questionar os alcances da sua própria vida, nem o fato de que talvez leve feridas que ela e só ela pode curar.

O desejo de independência de uma filha pode ser vivenciado pela mãe como uma forte ameaça ou uma grande afronta. Por isso, neste ponto, são capazes de rejeitar e até de abandonar a filha que resiste a continuar sendo criança. A filha, por sua vez, terá que atravessar uma tempestade interior antes de chegar à outra margem.

O luto que nasce da ruptura com as mães

A tentação de continuar sendo a filhinha da mamãe é muito forte. Muitas mulheres precisam escolher em um determinado momento entre serem plenamente amadas e protegidas por suas mães, renunciando à autonomia, ou quebrarem a linhagem materna para procurarem o seu próprio caminho, gerando grande dor ou fúria nas mães e um sentimento de culpa e abandono em si mesmas.

Não se trata de um conflito menor. De fato, é um dos momentos mais difíceis da vida. Paradoxalmente, se tudo der certo, o que continua existindo é um luto profundo. Perde-se para sempre aquele símbolo da mãe incondicional, com um amor a toda prova. Contrariam-se para sempre os desejos dessa mãe que vê a sua independência como uma ferida no seu coração.

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Toda mulher que decide estabelecer uma ruptura com os desejos de sua mãe terá que chorar essa mãe que já não estará mais disponível, que já não será. Contudo, no final desse processo, alcança uma das maiores conquistas da vida: o empoderamento pessoal. Porque, é preciso dizer, quando uma mulher vive à sombra da sua mãe ela tem, em maior ou menor medida, algum grau de insignificância.

Romper com o modelo feminino imposto pelas mães

Muitas mulheres foram educadas para se responsabilizarem pelo bem-estar emocional de todos os que a rodeiam. Inclusive, até inventam teorias para justificar esse papel imposto pelo machismo. Defende-se, por exemplo, que a mulher é maternal por instinto e que, justamente por isso, de forma natural, tende a proteger, cuidar e se encarregar dos outros.

Por isso existe um exército que mulheres que se sentem responsáveis pelas carências ou os sofrimentos dos outros. Começando, é claro, pelos vazios da sua própria mãe. Romper com esse papel imposto pelo machismo implica um processo cheio de dúvidas e de mal-estar. Você se sentirá culpada toda vez que não deixar de lado seus próprios desejos para atender às necessidades de outros. As mães que não alcançaram a sua própria autonomia querem que suas filhas sejam “boas meninas” e se sentirão muito decepcionadas quando agirem colocando seus próprios desejos como prioridade.

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Para que uma mulher possa saber quem realmente é, para que possa tomar o controle da sua vida, precisa quebrar esses estereótipos que, em muitos casos, viu refletidos e defendidos pela sua própria mãe. E embora isso implique um distanciamento inicial, vale a pena completar esse processo.

No fim das contas, é provável que a sua mãe consiga assimilar os fatos e adotar uma atitude sadia diante da autonomia da sua menina adorada. Senão, pode ser que acabe simplesmente aceitando os fatos. Em ambos casos, o vínculo mudará para se tornar melhor: cheio de gratidão, com mais respeito e sem amarras neuróticas.

Imagens cortesia de Brian Kershisnik.

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