Pegue todos os seus estilhaços e monte um belo vitral

Pegue todos os seus estilhaços e monte um belo vitral

Ester Chaves 27, setembro 2016 em Emoções 958 Compartilhados
Pegue todos os seus estilhaços e monte um belo vitral

De todos os acolhimentos necessários, de todos os lugares onde você já esteve e se sentiu à vontade, nenhum deve ser mais confortável do que a sua própria companhia.

Agora o silêncio não o assusta mais. Não faz com que deseje outra presença. Não desperta o medo. É o silêncio de quem aprendeu a olhar para dentro e sorrir. A maturidade de quem compreendeu que, para se doar, é preciso primeiro pertencer a si mesmo. Com todas as colagens das experiências passadas, com todos os recortes que um dia sangraram fundo, com tudo aquilo que permitiu que a consciência da descoberta aflorasse e falasse mais alto do que qualquer outra voz.

Quem aprecia a própria companhia não sente necessidade de justificar as escolhas

Isso não é nenhuma ofensa ao amor. Muito pelo contrário, é uma forma de louvá-lo em sua forma mais genuína: o amor próprio. O amor próprio é fruto de uma escavação constante nos labirintos do ser. Se você aceitar o que descobrir de si, vai brotar amor em tudo que é canto.

Todos caem e se estilhaçam. Somos porcelanas frágeis e, de vez em quando, não é pecado recolher-se com algum ferimento grave, ficar dias sem espiar o mundo lá fora, apenas deixar que as emoções circulem e depois se despeçam.

apreda a conviver com sua companhia

Acolher-se nesse estágio de “pausa”, onde nada parece colar e o mundo fica tão desbotado e sem graça, com vista para o nada, é demonstrar que esse amor é legítimo e veio para ficar, pois não permite a visita da autossabotagem. Você não se engana dizendo que “está tudo bem” nem topa frequentar lugares para agradar amigos ou quem quer que seja, quando tudo o que se quer é mergulhar na paz do próprio abraço.

Com tantos estilhaços, você montou um belo vitral

Aprendeu a respeitar o seu tempo interior, não renegando aqueles pedacinhos que demoraram para colar. Não enganando a imagem que, de vez em quando, ainda chora no banheiro depois de mais uma queda feia.

apreda entender sentimentos com sua companhia

De tanto se estilhaçar, você aprendeu a aceitar que cada caco também é você, que a espera também é acessório da vida, que desmontar-se faz parte da experiência ontológica. Agora, você aceita e brinca com a sua própria companhia, ri de si mesmo, se abraça por dentro porque já compreendeu que “felicidade é só questão de ser”, e ser é experimentar os extremos constantemente. Ser é descobrir-se todos os dias; vendaval e calmaria. Um defeito aqui, uma qualidade acolá, e não deixar que isso o impeça de ser feliz. É apenas mais uma faceta desse ser complexo que o habita, é mais uma demonstração de força nesse emaranhado todo que o torna único e especial.

Ester Chaves

Escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais.

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