Pensamento mágico: conceito e características

· setembro 11, 2018

Roald Dahl disse que “aquele que não acredita na magia nunca vai encontrá-la”. Curiosamente, o ser humano sempre teve uma tendência a acreditar na magia, desde o início dos tempos. Derivado dessa fé no inexplicável, encontramos hoje o que foi denominado pensamento mágico.

Nós nos movemos no mundo aplicando a “lógica de causa e efeito”. Assim, frente a um acontecimento ou fenômeno que não tem uma explicação científica, é fácil surgirem ao redor do tema muitas outras “explicações mágicas”. De fato, talvez esse seja um dos principais motivos pelos quais as religiões sobreviveram ao longo dos séculos e do desenvolvimento incansável da ciência.

O que é o pensamento mágico?

Tanto a psicologia quanto a antropologia consideram o pensamento mágico como a descrição de atribuições ilógicas a certas causas sem nenhuma prova empírica.

Esse fenômeno recebe especial relevância quando a pessoa considera que seu pensamento pode ter consequências no mundo externo. Tais consequências podem vir de sua própria ação ou da crença da intermediação de forças sobrenaturais.

Como funciona o pensamento mágico?

Ao observar as sociedades ao redor do mundo, descobrimos que praticamente em todas as culturas existe o pensamento mágico. É um processo natural que tem uma base biológica. Nós, humanos, estabelecemos relações causais com base em associações circunstanciais e dificilmente demonstráveis sistematicamente.

Encontramos exemplos de pensamento mágico com facilidade. Uma criança que acredita que, caso se comporte mal, será sequestrada pelo “homem do saco”. Danças e rituais com objetivo de fazer chover ou, ainda, atribuir a causa de um fenômeno atmosférico à ação de uma divindade superior.

 “Esta é a primeira lei da magia: desorientar. Nunca se esqueça disso”.
-Donna Tartt-

Causas do pensamento mágico

Duas causas principais nos ajudam a explicar esse fenômeno. Uma se refere à proximidade entre acontecimentos. A segunda é explicada por meio do pensamento associativo:

  • Proximidade entre acontecimentos. Refere-se à geração de determinadas associações, como acreditar que um amigo reprovou em uma prova porque você desejou com todas as suas forças que ele não passasse.
  • Pensamento associativo. Consiste no estabelecimento de relações em função de certas similaridades. Por exemplo, acreditar que o espírito de um animal vai passar para você se você comer seu coração.

Entretanto, apesar das causas associadas ao pensamento mágico, também há funções importantes nesse fenômeno. Ou seja, pode ser muito útil em certas situações bastante específicas:

  • Reduz a ansiedade. Às vezes, em certas situações estressantes de difícil resolução, associar o acontecimento a elementos arbitrários aumenta a sensação de controle e reduz a ansiedade. Por exemplo, usar amuletos para lutar contra certos medos.
  • Efeito placebo. Como acabamos de ver, também pode ser muito útil como efeito placebo. Ou seja, pensar que determinado ritual pode curar uma doença pode vir a causar uma melhora na sintomatologia.

Características do pensamento mágico

Na atualidade, podemos encontrar dezenas de exemplos que são uma evidente amostra do pensamento mágico. De fato, ele está presente em situações cotidianas, sem que chegue ao ponto de ser considerado patológico.

Em muitos casos, o pensamento mágico, longe de causar desconforto, traz alívio. O problema aparece quando não é isso que acontece ou quando esse alívio a curto prazo se transforma em um prejuízo a longo prazo.

Egocentrismo em crianças

Entre os 2 e os 7 anos (fase pré-operacional), as crianças podem chegar a pensar que possuem o poder de mudar o mundo apenas com a mente, tanto de forma voluntária quanto involuntária. Elas têm dificuldade para compreender conceitos abstratos e seu olhar dificilmente se volta a outras instâncias que não seja o “eu”. Assim, por exemplo, podem chegar a pensar que pode acontecer alguma coisa com seus pais por terem desejado um castigo a alguém.

Dessa forma, em certas circunstâncias, as crianças podem apresentar uma tendência a se culpar por determinados fatos sem terem tido nenhuma participação no acontecimento. No entanto, esse egocentrismo costuma se reduzir com o passar do tempo.

Pensamento mágico

Superstição

A superstição e o pensamento sobrenatural, tão presentes em nossa sociedade, não deixam de girar ao redor do pensamento mágico. O número 13 na nossa cultura, ou o 4 na cultura japonesa, são números associados ao azar no inconsciente coletivo. Assim, são números que muitos atletas não querem usar em suas camisas, ou um andar de um edifício que muitas pessoas evitam escolher para morar.

Delírios

Também pode aparecer em circunstâncias de delírio, em contextos de psicose e esquizofrenia. As crenças excessivamente irracionais são bastante marcadas pelo pensamento mágico.

Na verdade, também podemos observar esse pensamento mágico como uma forma de defesa. Uma defesa perante o que não somos capazes de explicar. Assim, nosso cérebro busca uma associação que, verdadeira ou não, serve como tranquilizante para a ansiedade que a incerteza pode provocar.

 “A magia é a capacidade de pensar; não é uma questão de força, nem de linguagem”.
-Christopher Paolini-