A criatividade e o transtorno bipolar, como se relacionam? 

· julho 26, 2018

Pintores, escritores, músicos… muitos dos artistas da nossa história declaravam que suas experiências de mania e depressão lhes permitiam se conectar de forma mais intensa com o mundo através de suas emoções. Esta consciência interna, esta viagem arcaica, cercada de sentimentos contraditórios, fez com que surgisse uma especulação sobre a relação entre a criatividade e o transtorno bipolar na atualidade.

Antes de qualquer coisa, convém esclarecer um pequeno aspecto. A maioria das pessoas criativas não sofre de nenhum transtorno de humor. Entretanto, se há algo que se encontra no meio do caminho entre a tradição e o romantismo, é pensar que uma boa parte dos artistas mais renomados evidenciavam este vínculo que muitos chamaram (e chamam) de “a loucura do gênio”.

“O lunático, o amante e o poeta são de imaginação prodigiosa”.
– Shakespeare-

Entretanto, o transtorno bipolar, e é importante destacar isso, não é fácil de diagnosticar. Por essa razão, não podemos nos atrever a dizer com total segurança que era esse transtorno que personalidades como Van Gogh, Virginia Woolf ou Ernest Hemingway tinham. No entanto, os tristes resultados de suas vidas estão aí, assim como a inspiração que deixaram em suas inesquecíveis obras.

Frequentemente, caímos na rotulação fácil e relacionamos a genialidade com a loucura, e o transtorno bipolar como um dom para ser especialmente criativo. Nenhum destes pontos de vista estão corretos. O transtorno bipolar não é um dom, é uma doença séria.

Dessa forma, também não podemos nos esquecer de que os consultórios psicológicos e psiquiátricos não estão cheios de loucos. Estes locais são frequentados por pessoas que sentem muito, que se conectam com suas emoções de uma forma disfuncional, intensa, às vezes descontrolada.

Van Gogh

Existe uma relação direta entre a criatividade e o transtorno bipolar? O que a ciência diz

Para aqueles que desejam se aprofundar na relação entre a criatividade e o transtorno bipolar, podem ler Kay Redfield Jamison. Esta psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard oferece um testemunho direto, cru e revelador sobre essa doença e o que ela implica. Ela mesma sofre desta condição, e os testemunhos dados em livros como “Uma Mente Inquieta” são muito enriquecedores a partir de um ponto de vista pessoal, humano e clínico.

Desde que a doença surgiu, em sua adolescência, a vida de Kay Redfield mudou por completo. Viveu temporadas de completa exaltação maníaca, semanas tomadas pela ira, euforia, sintomas psicóticos e uma grande criatividade artística. Mais tarde, passou pelo limiar da depressão e, com ela, várias tentativas de suicídio.

Assim, e ainda que muitos cheguem a pensar que o único lado positivo do transtorno bipolar é a genialidade e a criatividade prodigiosa, não podemos deixar de lado um aspecto: uma porcentagem de pacientes acabam tirando a própria vida. 

Nenhum dom vale um preço tão alto. A médica Kay Redfield sabia bem disso e, por este motivo, dedicou sua vida profissional a essa doença e a entender a relação entre a criatividade e o transtorno bipolar. Vejamos o que a ciência diz sobre o tema.

O cérebro criativo

O primeiro estudo sobre a criatividade e os transtornos mentais

Foi na década de 70 que foi realizado o primeiro estudo empírico sobre a criatividade e sua relação com os transtornos mentais. A universidade de Iowa mantinha a hipótese de que era a esquizofrenia que se relacionava com a criatividade. Por isso, analisaram um amplo grupo de conhecidos artistas, escritores e músicos.

Os resultados não poderiam ter sido mais reveladores. A esquizofrenia não tinha nenhum vínculo com esta capacidade. Foram os transtornos de humor, como a depressão maior e a mania, os que tiveram um resultado significativo. Quase metade das pessoas que participaram da pesquisa sofriam dessa condição.

A euforia da mania e um cérebro mais conectado

Redfield começou seus estudos e pesquisas sobre o transtorno bipolar nos anos 90. Assim, e em colaboração com vários hospitais, pôde, até o momento, descobrir o seguinte:

  • Os estados de humor muito intensos estimulam o processo criativo. 
  • Nas fases de mania, o entusiasmo se eleva muito, assim como a energia e a autoconfiança. Dessa forma, o cérebro também experimenta uma mudança: há uma maior velocidade de pensamento, maior capacidade para fazer associações e para gerar novas ideias. 
  • As pessoas se sentem mais livres do que nunca para ir além do estabelecido, para deixar de lado um mundo cinza e sem fronteiras, para dar abertura a um mundo com mais possibilidades.
  • As pessoas com mania ou hipomania dificilmente sentem necessidade de dormir, são dominadas pela euforia, bem-estar e emoções ao mesmo tempo intensas e desafiadoras.
  • Durante a fase maníaca e criativa, as pessoas conseguem sufocar a angústia depressiva. A tentativa de calar ou dissuadir a depressão impulsiona ainda mais o processo de criação.
A criatividade na pintura

Cuidado, nem todas as pessoas com transtorno bipolar são altamente criativas

Algo muito enfatizado nos estudos sobre a criatividade e o transtorno bipolar é que nem todas as pessoas com essa condição são criativas. Além disso, a maioria das pessoas com um elevado potencial criativo não sofre, como já dissemos, de transtornos mentais. 

No entanto, é sempre chamativo ver como, às vezes, as obras pictóricas ou composições musicais mais chamativas vêm de pessoas com essa doença. Porém, a médica Kay Redfield Jamison destaca o seguinte: As pessoas com este diagnóstico declaram que sua criatividade é muito melhor durante os períodos de remissão ou quando os sintomas são leves ou ausentes. 

A razão? Quando estão deprimidas, não podem trabalhar, e durante os episódios maníacos ou psicóticos, a mente trabalha muito rápido, fica caótica e pouco coerente. A criatividade, para alcançar a excelência, precisa antes de tudo de uma mente desperta, mas principalmente lúcida, concentrada, relaxada. O caos, como base, não é um bom lugar para viver nem para criar.