Ativando os nossos filtros: a percepção seletiva

março 3, 2019

A percepção seletiva é uma distorção cognitiva bastante comum. Ela afeta o processo de percepção e nos faz ver, escutar ou focar a nossa atenção em um determinado estímulo em função das nossas expectativas, sem ter em conta as informações restantes. Um exemplo disso é quando decidimos adquirir um determinado bem, como um carro, e começamos a reparar mais em determinados modelos. Outro exemplo é quando estamos esperando alguém e sabemos de qual direção essa pessoa virá.

Ela está relacionada com as ideias preconcebidas, com os nossos interesses e com o desejo ou medo de que algo aconteça. É uma interpretação tendenciosa e parcial da realidade. A função da percepção seletiva é otimizar a aplicação dos nossos recursos cognitivos, aglutinando-os, por exemplo, onde esperamos que algo aconteça.

Além disso, as nossas emoções estão bastante interligadas com este processo. Criamos um cenário paralelo no qual nos concentramos, que pode ser relativamente parecido com o que acontece na realidade. Desse modo, a percepção seletiva tem um papel importante na configuração dessa nossa realidade.

“A percepção está parcial ou totalmente determinada pela rotina em que se fixam estímulos com necessidades”.
-Joseph Thomas Klapper-

Como se criam os filtros da percepção seletiva?

Existem dois modelos que tentam explicar este processo:

  • O modelo Posner, que diferencia a percepção da mensagem em três etapas: alterações atencionais, engajamento e desengajamento atencional. Ou seja, a mensagem capta a nossa atenção; começamos a processar a nova informação; e a percepção cessa para direcionar a atenção para outros estímulos.
  • O modelo La Bergue, complementar ao modelo de Posner, que também é dividido em três etapas: seleção, preparação e manutenção, em que esta última é o tempo que nos dedicamos a interpretar a mensagem.

Em ambos os modelos é identificado um processo por meio do qual ocorre a percepção seletiva, e não apenas uma ação isolada.

Percepção seletiva

Como a percepção seletiva nos influencia?

Principalmente dois tipos de fenômenos: a natureza do estímulo e os aspectos internos de cada um. A natureza dos estímulos refere-se a aspectos sensoriais que nos fazem perceber alguns estímulos de forma mais intensa do que outros. Podem ser características do estímulo, como o tamanho, a cor, a forma, o movimento, a localização ou o efeito surpresa.

Entre os aspectos internos do indivíduo, como mais importantes, temos as expectativas e a motivação. Tendemos a interpretar mais intensamente o que esperamos ver ou aquilo que nos interessa. Isso pode ativar a atenção involuntária, que prende a nossa atenção de forma instintiva, como o choro de um bebê. Ela é bem conhecida das pessoas que trabalham com marketing, pois a usam para captar a nossa atenção para as características mais importante daquilo que querem vender.

Este fenômeno origina distorções perceptivas como:

  • A exposição seletiva: só vemos e escutamos o que nos agrada.
  • A atenção seletiva: nos faz focar naquilo que nos interessa, descartando o resto da informação.
  • A defesa perceptual: apagamos do nosso campo seletivo aqueles elementos que nos ameaçam.

A percepção seletiva: uma faca de dois gumes

Apesar de ser um mecanismo que permite ao indivíduo filtrar as informações relevantes e, assim, evitar uma sobrecarga de estímulos, a percepção seletiva nos faz perder informações muito valiosas em várias situações. A quantidade de estímulos que somos capazes de perceber é enorme, e apenas como receptores de mensagens publicitárias, somos alvo de centenas de mensagens que terão uma grande influência no nosso comportamento.

Isso também acontece nos relacionamentos amorosos, onde a priori podemos ignorar informações importantes porque tendemos a perceber o que é interessante ou cumpre com as nossas expectativas. Inclusive, isso ocorre no momento de criar a autoimagem, pois dificulta a objetividade.

Mente avoada

Dearborn e Simon estudaram o efeito da percepção seletiva nos executivos de grandes empresas e concluíram que a compreensão de estímulos complexos é mais profunda quando estes não são inovadores.

Eles estudaram também o relacionamento dentro das empresas entre chefes e funcionários, e descobriram que a imagem positiva ou negativa que os chefes têm de seus empregados condiciona a maneira como avaliam o rendimento dos trabalhadores.

Esse é outro exemplo de que percebemos aquilo que estamos preparados para perceber. Diante daquilo que foi referido neste artigo, podemos deduzir que a nossa percepção está relacionada com a configuração do mundo com a qual trabalhamos. 

  • Dearborn, D. C., & Simon, H. A. (1958). Selective perception: A note on the departmental identifications of executives. Sociometry21(2), 140-144.