Perder tempo é tão importante quanto aproveitá-lo

agosto 19, 2019
Às vezes, perder tempo é ganhar vida. Porque diferentemente do que fomos levados a acreditar, o tempo não é ouro. Ter momentos para não fazer nada e se limitar a ser, sentir e apreciar o agora é sinônimo de bem-estar e felicidade.

Perder tempo é um conceito muito relativo. Na verdade, seria conveniente mudar essa ideia e aplicá-la a partir de outra perspectiva: como uma chave valiosa para o nosso bem-estar.

Vamos pensar um pouco sobre isso. Nós vivemos em uma sociedade que nos ensinou que o tempo é “ouro” e que cada segundo da nossa vida deve ser bem aproveitado.

Assumir essa abordagem ao pé da letra, sem dúvida, nos levará ao já familiar e recorrente transtorno de estresse e ansiedade. São essas condições que, como um termômetro, refletem uma doença latente em nosso mundo: o fato de negligenciarmos a nós mesmos.

Portanto, o tempo não é ouro, nem prata nem estanho: o tempo é vida. Saber geri-lo e se permitir não fazer nada de vez em quando, se limitando a ser, sentir e estar, é ganhar em saúde.

No entanto, temos dificuldade em colocar essa ideia em prática. Quando passamos tantas horas da nossa vida em modo “produtividade”, a mente começa a interpretar que se jogar no sofá e descansar é perder tempo.

Por outro lado, o Dr. Alex Soojung-Kim Pan, especialista em gerenciamento de tempo também conhecido pelo seu trabalho como consultor no Vale do Silício, explica em seu livro ‘Descansar’ como ser mais produtivo trabalhando menos.

Agora, é hora de fazermos uma profunda reformulação sobre o nosso estilo de vida e trabalho. Devemos ser conscientes de que, às vezes, perder tempo é ganhar tempo. Isso nos permitirá recarregar as energias e encontrar a calma em meio à desordem.

“Trabalhar melhor não significa trabalhar mais, mas trabalhar menos de forma mais produtiva e descansar melhor”.
– Alex Soojung-Kim Pan –

Pessoa sem fazer nada

Perder tempo é ganhar vida

Max Weber, conhecido filósofo, economista e sociólogo do início do século XX, nos deixou uma reflexão valiosa que parece ter sido diluída pelo tempo.

Segundo Weber, com a chegada da revolução industrial, as pessoas começaram a pensar na vida profissional quase como um princípio moral. Trabalhar não era apenas uma maneira de ganhar dinheiro para sobreviver, era (e é) muito mais do que isso.

O trabalho, para muitos, é uma maneira de dignificar o ser humano. Atividade é produtividade, é criação e uma forma de contribuir com a sociedade. Tudo isso é verdade, mas às vezes levamos este ponto ao extremo.

Há muitas pessoas incapazes de relaxar; homens e mulheres que sentem uma verdadeira frustração e até mesmo culpa quando não fazem nada.

Essa abordagem, na qual se entende que a inatividade é sinônimo de desperdício de tempo, nos leva a estados de muito desgaste psicológico.

Um exemplo: há um curioso estudo realizado na Universidade de Mainz, na Alemanha, pelo Dr. Leonard Reinecke, que aponta algo interessante. Uma boa parte de nós chega a se desvalorizar quando passa algum tempo assistindo televisão.

Nós gostamos de assistir a filmes e séries, mas alguns costumam julgar a si mesmos ao fazer isso. Qual a razão? Recriminamos a inatividade e a perda de tempo.

Alice no País das Maravilhas

Não seja como o coelho branco de Alice no País das Maravilhas

“Estou com pressa, muita pressa!” dizia o coelho branco de ‘Alice no País das Maravilhas’. Esse simpático e icônico personagem simboliza como ninguém a imagem daquela doença que define muitas pessoas: a da hiperocupação.

Admitamos: sempre temos algo para fazer, estamos sempre ocupados olhando o relógio e com a indefinível angústia de não conseguirmos cumprir as nossas obrigações.

Este tipo de comportamento alimenta a “hiper-responsabilidade” e a autoexigência. É necessário fazer tudo rapidamente e com perfeição. São duas dimensões que, sem dúvida, nos levam ao abismo da ansiedade e a estados psicológicos extremamente exaustivos.

A cultura da produtividade e da perfeição tem feito com que nos sintamos culpados pelo simples fato de dedicar um tempo a “não fazer nada”.

Às vezes, mesmo tentando aproveitar um período de férias merecidas, a nossa mente nos tortura com pensamentos sobre todas as coisas que, supostamente, deveríamos estar fazendo.

Dê-se um tempo e aproveite a vida

Às vezes, perder tempo não tira nada de você; muito pelo contrário: lhe dá vida. Vamos pensar um pouco sobre isso: é hora de eliminar da nossa mente os “eu deveria” ou “tenho que”.

É o momento ideal para sermos crianças novamente, tirando proveito do tédio. Passeie por essa dimensão em que a voz do seu ser interior finalmente se sente livre, relaxada e até divertida.

Aprecie a arte de não fazer nada, pois praticá-la algumas horas por dia não deixará sequelas, mas abrirá muitas portas. A mente se higieniza, a criatividade, a reflexão e a intuição florescem.

Como já mencionamos anteriormente, devemos entender que trabalhar melhor não significa necessariamente trabalhar mais. Já foi demonstrado que trabalhar menos horas é mais produtivo e melhora a nossa qualidade de vida.

Aprendamos, portanto, a nos entregar a esse presente excepcional que, por mais que o desejemos, é limitado: o tempo. Dê a si mesmo qualidade de vida e a oportunidade de simplesmente existir, ser, estar e se divertir com os cinco sentidos.

  •  Soojung-Kim Pan, Alex (2017) Descansa, produce más trabajando menos. Madrid: LID