Por que nós gostamos de músicas tristes?

· outubro 31, 2018

Por que gostamos tanto de músicas tristes? Há algo magnético e atraente em canções como Tears in Heaven de Eric Clapton ou em Hallelujah de Leonard Cohen.

Trata-se de uma emoção musical que, longe de nos deprimir ou causar mal-estar, desperta nossos sentimentos mais profundos fazendo com que o mundo pare, que naveguemos em uma introspecção do nosso próprio ser.

Não estamos errados ao dizer que nas listas de músicas que fazem mais sucesso sempre existe uma com tons melancólicos.

Um exemplo é o da cantora britânica Adele. Sua carreira musical se baseia nessa quintessência, em uma tristeza, em um perfume permanente no qual a aceitação, as separações, a angústia e a solidão impregnam letras como as contidas na conhecida Hello.

Nós somos masoquistas? Por que sentimos tanto prazer ao ouvir Everybody Hurts, do REM, e todos aqueles outros títulos que ouvimos em um loop infinito mesmo que estejamos passando por um momento ruim?

O próprio Aristóteles já havia dito que a música tem o dom de “purificar”. Nessa primeira ideia já crescia o que hoje conhecemos como “catarse emocional”, um mecanismo através do qual permitimos a nós mesmos liberar sentimentos, sensações e emoções complexas.

Ninguém é imune ao efeito da música. A música é fascinante para o cérebro, e estudos como o realizado na Universidade McGill, em Quebec, e dirigido pela neuropsicóloga Valorie Sampoor, explicam que a atividade neuronal em áreas como o núcleo accumbens (relacionada com as recompensas) demonstraria que a música é tão importante para o ser humano quanto o alimento ou as relações sociais.

Sinéad O’Connor

Nós gostamos de músicas tristes porque o nosso cérebro precisa delas

Os especialistas em músicas tristes dizem que uma das canções que teve maior impacto na história foi Nothing Compares 2 U, interpretada por Sinead O’Connor e escrita por Prince em 1985.

A música, a letra e um rosto feminino chorando em primeiro plano impactam quase imediatamente o mais profundo do nosso cérebro emocional.

É quase impossível não ficar impactado por inúmeras sensações, sentimentos que arrastam consigo lembranças do passado, sequências com as quais nos sentimos identificados.

É quase contraditório o fato de que podemos “desfrutar” sentindo emoções tristes. Esta premissa ou essa dúvida foi o que levou uma equipe de psicólogos, músicos, filósofos e neurologistas da Universidade de Tóquio a realizar uma série de estudos. Os dados foram publicados na revista Frontiers in Psychology e não poderiam ser mais interessantes. Vejamos a seguir.

As músicas tristes produzem “emoções positivas” em nós

A maioria das pessoas gosta de músicas tristes, sabemos disso. No entanto, há algo que todos nós podemos comprovar: depois de ouvi-las não nos sentimos mal, muito pelo contrário.

Ou seja, não nos contagiamos pelo mal-estar, pelas perdas, pela dor de um término ou por uma decepção. Curiosamente, o que sentimos depois de ouvir músicas assim é bem-estar, alívio, tranquilidade.

Assim, uma das pesquisadoras deste trabalho, a doutora Ai Kawakami, especialista em música e emoções, diz que é necessário diferenciar a emoção sentida da emoção percebida ou indireta.

A música tem a qualidade de nos fazer perceber emoções indiretas: nos conectamos a ela, mas não “a sofremos”. Em outras palavras, não sentimos a música com a mesma intensidade de quando a vida nos pega de surpresa, com algo inesperado e desolador.

As músicas tristes têm a curiosa qualidade de nos conectar com as emoções mais profundas para depois sairmos delas sem danos. E não somente isso, nós emergimos com uma sensação de bem-estar.

As músicas tristes são “vacinas” para a vida

Leonard Cohen dizia que sempre que interpretava a música Hallelujah, de Jeff Buckley, sentia algo especial. Era como encontrar o equilíbrio em um mundo de caos, como buscar a reconciliação em todo conflito.

Assim, uma das razões pelas quais nós gostamos de músicas tristes é porque elas nos proporciona um pouco de paz, de introspecção e também de catarse emocional.

Leonard Cohen

Esse tipo de música é uma vacina para as dificuldades da vida. De fato, recorremos a elas como fazemos com os livros que contam histórias dramáticas, ou quando escolhemos assistir a filmes tristes porque sempre nos transmitem algum ensinamento.

A magia destas emoções indiretas geradas por esse tipo de coisa tem dimensões genuínas e incrivelmente úteis.

Esses tipos de experiências artísticas nos libertam das emoções reais, mais cruas e dolorosas, que frequentemente nos paralisam em estados desagradáveis. Nós gostamos de músicas tristes porque elas nos permitem ter contato com o nosso “eu” emocional de uma forma mais segura e, é claro, bonita.

Nós podemos viajar através das letras para momentos do nosso próprio passado; podemos chorar, desabafar e voltar intactos.

Nós podemos, inclusive, nos deixar levar pela beleza da música e pela letra para ter empatia com o artista, apreciar um instante de intimidade no qual podemos caminhar por este universo alheio cheio de profundas tristezas.

Seja como for, sempre saímos reconfortados, prontos para encarar nossas jornadas com mais temperança.