Por que sou tão sensível?

Existe uma variação genética chamada ADRA2b que explicaria por que existem pessoas mais sensíveis. O dom de se conectar com as emoções dos outros ou com a intensidade com que você processa qualquer estímulo sensorial teria uma origem específica.
Por que sou tão sensível?

Última atualização: 21 junho, 2022

Se emocionar com quase tudo,  se preocupar com coisas grandes e pequenas, sentir o peso das injustiças, ficar chateado rapidamente… por que sou tão sensível? Há muitas pessoas que se fazem essa pergunta durante grande parte de suas vidas, sentindo-se diferentes, percebendo que sua forma de ver, reagir e compreender a realidade difere de muitas outras.

É um estilo de personalidade? É talvez algo orgânico ou genético? Carl Jung definiu esse perfil como alguém que se caracterizava por duas dimensões básicas: alto processamento emocional e sensibilidade inata. Hoje, como bem sabemos, é comum falar em “pessoas altamente sensíveis”, conceito popularizado pela Dra. Elaine Aron na década de 90 e que aparentemente definiria cerca de 20% da população mundial.

Apesar disso, apesar de encontrar essas classificações e definições, a mesma pergunta permanece: por que? Que razão há para alguém ter uma sensibilidade tão alta? E não se engane, essa realidade não é exclusiva do gênero feminino. Há também homens altamente sensíveis que vivenciam o fato de entrar nesse espectro emocional com maior dificuldade.

Menino triste se perguntando por que sou tão sensível?

Por que sou tão sensível? Estas são as causas

Se as pessoas se perguntam por que sou tão sensível é porque se sentem estranhas, diferentes e até deslocadas. Vivemos em uma sociedade que valoriza e prioriza essa atitude estóica: o emocional está associado à fraqueza e até ao falível. O imediatismo também nos define; na verdade, dificilmente há tempo para perceber a realidade alheia, para ler nas entrelinhas ou perceber como o mais insignificante pode ser carregado de grandes significados.

Para a pessoa sensível, basta que alguém olhe para ela com decepção ou responda mal para ficar presa nesse pensamento por dias. Ela sofre constantes contágios, emoções, sente uma dor imensa diante das falsidades e contradições dos outros e não consegue evitar ficar presa em uma espécie de roda gigante emocional. Suas vidas oscilam entre altos e baixos; momentos de felicidade e prazer e momentos de profunda desolação.

Tudo isso explica por que a alta sensibilidade e a depressão quase sempre andam de mãos dadas. Ser sensível faz com que a pessoa se sinta vulnerável, e a vulnerabilidade gera sofrimento, frustração e uma sensação de solidão. É comum se perguntar por que, qual o motivo de sentir e processar o mundo dessa forma?

Razões genéticas: seu cérebro é diferente

Em um estudo de maio de 2015 realizado na Universidade da Colúmbia Britânica, os pesquisadores concluíram: ” há pessoas que têm variações neurogenéticas específicas. Elas têm uma maior disponibilidade de norepinefrina, o que torna mais fácil para elas ter uma maior percepção de alerta e sensibilidade emocional. O que significa isto?

  • Existe uma variação genética chamada ADRA2b que explicaria por que existem pessoas mais sensíveis.
  • Essa peculiaridade genética faz com que haja um nível mais alto de norepinefrina no cérebro.
  • Como há uma taxa maior do referido neurotransmissor no cérebro, ele apresenta variações muito específicas que o tornam “diferente” dos demais.
  • Para pessoas com essa variação genética, diz o autor do estudo Adam Anderson, professor de desenvolvimento humano da Universidade de Cornell, todos os estímulos são processados emocionalmente.

Por que sou tão sensível? É um traço da sua personalidade

À pergunta “por que sou tão sensível” podemos dar outro tipo de resposta: é mais um traço de personalidade. É verdade que não podemos separar essa característica de uma origem genética, mas ela ocorre com um tipo específico de caráter. Pessoas sensíveis são definidas pelo seguinte:

  • Uma pessoa sensível pode ser introvertida e extrovertida.
  • São observadoras e pensativas.
  • Elas têm alta criatividade.
  • Inclinação para a arte, música, escrita, etc.
  • Sensibilidade a sons altos.
  • Alta empatia.
  • Dificuldade em aceitar críticas.
  • Alta emotividade, elas entendem a vida apenas a partir desse prisma.
  • Elas entendem a vida de um ponto de vista colaborativo e não competitivo.
  • Dificuldade em estabelecer limites e dizer não.
mão tocando um cérebro

Trauma e hipersensibilidade

Se uma pessoa se pergunta “por que sou tão sensível?” É possível que por trás dessa manifestação haja um trauma. Ter sofrido maus-tratos na infância, violência, ter sofrido a perda de um dos pais ou sofrer qualquer evento doloroso têm impacto em nosso cérebro. Em muitos casos, essa experiência gera hipersensibilidade.

Essa ferida psicológica muitas vezes se manifesta de uma maneira muito mais sensível de processar a realidade. Qualquer fato, circunstância ou estímulo é vivenciado com maior intensidade. Sentem-se dominadas pelas emoções, têm dificuldade em gerir as relações porque qualquer palavra, gesto ou situação pode ser interpretada de forma negativa e sofrem imensamente com isso.

Não podemos negligenciar a maneira como o trauma pode alterar nossa personalidade e a maneira como processamos nosso entorno. Esses efeitos podem ser permanentes e alterar o funcionamento psicossocial do ser humano. Porém, neste caso, teríamos uma versão mais negativa, mais difícil de alta sensibilidade.

Para concluir, a escritora Amantine Aurore Lucile (sob seu pseudônimo George Sand) disse que, embora o intelecto busque, é sempre a sensibilidade a que encontra. Além do fato de essa dimensão nos causar problemas e outros sofrimentos, bem administrado, funciona como uma vantagem. Devemos saber compreendê-lo e usá-la a nosso favor para poder abrir esse olhar poderoso que tudo vê, que tudo sente e sabe melhorar sua realidade.

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  • Aron, E. N. (2012). Temperament in psychotherapy: Reflections on clinical practice with the trait of sensitivity. In M. Zentner & R. Shiner (Eds.), Handbook of temperament (pp. 645-670). New York: Guilford.
  • Rebecca M. ToddMana R. EhlersDaniel J. MüllerAmanda RobertsonDaniela J. PalomboNatalie FreemanBrian Levine and Adam K. Anderson. Neurogenetic Variations in Norepinephrine Availability Enhance Perceptual Vividness Journal of Neuroscience