A infância traumática de Marilyn Monroe: origem de seus problemas?

Marylin Monroe criou todo um personagem para chegar ao sucesso e sobreviver em um ambiente tão hostil quanto Hollywood. No entanto, Norma Jean sempre esteve latente dentro dela, lembrando-a de suas feridas de infância e dos monstros que a prejudicaram.
A infância traumática de Marilyn Monroe: origem de seus problemas?

Última atualização: 14 junho, 2022

A infância traumática de Marilyn Monroe é um assunto vago, sombrio e dramático que nunca conheceremos totalmente. Talvez seus monstros de infância tenham se aliado aos monstros de sua maturidade para conduzi-la ao seu fim trágico, ainda não totalmente esclarecido. Seja como for, este ano marcará o 60º aniversário de sua morte e a sua figura, eternamente jovem, ainda continua a esconder tanto mistério quanto fascínio.

Exemplo disso é o último documentário da Netflix sobre a sua vida: O mistério de Marilyn Monroe: gravações inéditas. Neste novo trabalho investigativo, o escritor e jornalista irlandês Anthony Summers traz o testemunho de todas aquelas pessoas que fizeram parte da vida da atriz em algum momento.

O quebra-cabeça que ele consegue montar traz à tona vários aspectos que, na verdade, não são inteiramente novos. O primeiro é o possível envolvimento das altas esferas políticas da época em sua morte. O segundo é o abuso sexual que ela sofreu ao longo de sua carreira, um caminho pedregoso e truculento pelo qual muitas atrizes talvez precisaram passar para conseguir um papel em um filme.

No entanto, um aspecto marcante que este documentário aborda é o que se refere à sua infância. O depoimento da família do psiquiatra que a tratou revela aspectos dessas marcas traumáticas que certamente condicionaram a sua vida. Vamos analisá-los.

Acordei a noite toda ontem de novo. Às vezes, eu penso para que serve a noite. Ela quase não existe para mim – tudo parece um longo, longo e horrível dia.”

-Marilyn Monroe-

imagem para simbolizar a infância traumática de Marilyn Monroe
Marilyn Monroe passou a infância em vários orfanatos e em casas de amigos da sua mãe.

Vazios, quartos escuros e necessidade de carinho

Marilyn Monroe colocava dezenas de livros na mala toda vez que viajava. Embora também deixasse um grande espaço na bagagem para as garrafas de álcool, barbitúricos e tranquilizantes que tomava. Além disso, também se diz que, se havia algo que a definia, era a falta de pontualidade. Filmagens, jantares, festas, compromissos… Ela não conseguia chegar na hora, pois, dessa forma, fazia-se de difícil e causava uma maior expectativa, de acordo com a opinião de muitas pessoas.

Entretanto, a verdade é que Marilyn mergulhava em sua própria mente e perdia o controle da realidade. Ela podia tomar banhos que duravam horas, nos quais tentava limpar a pele daquela sujeira que Hollywood havia impregnado nela. Tentava remover aquela crosta para chegar até Norma Jean, mas isso significava se reconectar com a sua infância, com aqueles traumas que nunca havia superado.

Ralph Greenson foi seu psiquiatra durante os últimos três anos de sua vida. Michel Schneider, autor de Marilyn – Últimas Sessões, e Lisa Appignanesi, autora de Mad, Bad and Sad: A History of Women and the Mind Doctors, fornecem dados interessantes sobre essa relação médico-paciente.

“Agora você não pode mais sair”: a menina que vivia em quartos escuros

Gladys Monroe Baker, mãe de Marilyn, sofria de esquizofrenia paranoide. Ela passou a vida inteira indo e voltando de hospitais psiquiátricos. Charles Stanley Gifford, seu pai, abandonou a sua mãe rapidamente assim que descobriu que ela estava grávida. Assim, essas duas figuras primárias mal estiveram presentes na vida da pequena Norma, nem foram substituídas por outras pessoas.

Sua infância foi uma triste jornada atribulada entre orfanatos e amigos da família. Ela nunca encontrou estabilidade ou um refúgio afetivo válido.

Sua infância e adolescência foram marcadas pela ausência de todas as formas de apego, amor e proteção. De fato, quando tinha 8 anos, um velho entrou em seu quarto e, depois de trancar a porta, disse as palavras que ela jamais esqueceria: “Agora você não pode mais sair”. Essa seria a primeira vez que a abusaram sexualmente.

Mais tarde, seria um primo, amigos da família, etc. Aos 16 anos, arranjaram um casamento para ela com um vizinho, Jim Dougherty, um rapaz de 20 anos. A ideia era que outra pessoa tivesse a responsabilidade de sustentá-la. No entanto, não demorou muito para que ela começasse uma carreira como modelo, quando um executivo de Hollywood a descobriu.

Embora Norma Jean tenha construído a partir de então a personagem de Marilyn Monroe, a fim de escapar daquela infância e alcançar o sucesso, ela, na verdade, nunca deixou de viver em quartos escuros… Tanto fisicamente quanto mentalmente.

“Ainda agora, quando olhei pela janela do hospital, onde a neve cobriu tudo, de repente tudo é como um verde fosco. A grama, arbustos sempre verdes em mau estado, embora as árvores me deem um pouco de esperança, os galhos nus desolados prometem que talvez possa haver primavera.”

-Marylin Monroe-

Ralph Greenson, o brilhante psicanalista que tratou Marilyn de maneira pouco ortodoxa

Ralph Greenson foi um proeminente psiquiatra e psicanalista norte-americano. Em seu divã, Marilyn Monroe contou várias histórias de horror, a maioria delas relacionadas a todos os predadores sexuais que ela tinha conhecido, tais como Joe Schenck, o presidente de 69 anos da 20th Century Fox a quem ela tinha que atender sempre que ele solicitasse.

Ela os chamava de “lobos”, personagens pelos quais ela precisava passar para conseguir papéis relevantes em filmes, conforme escreveu em sua autobiografia Minha história. Entretanto, o que mais preocupava o Dr. Greenson era a infância traumática de Marilyn Monroe. Aquela que a levava a cair em relacionamentos amorosos abusivos e tempestuosos. Aquela que fazia dela uma figura carente de afeto e também autodestrutiva.

Aqueles que conheceram Greenson não hesitaram em dizer que a sua forma de tratar a paciente sempre foi pouco ortodoxo. Ele integrou Marilyn em sua própria família na tentativa de fornecer a ela uma referência de como era um ambiente para se sentir segura. Ela poderia ligar para ele e ir à sua casa quando quisesse. No entanto, a dependência que criou de seu psiquiatra também não a ajudou muito.

Marilyn em um carro
Uma obsessão que Marilyn tinha era a de estar perto de pessoas inteligentes. Ela buscava por figuras masculinas de autoridade para vê-las como a referência paterna que ela nunca teve.

A infância traumática de Marilyn Monroe e seus efeitos

Estresse pós-traumático, depressão crônica, vícios… A infância traumática de Marilyn Monroe definiu a sua personalidade: ela era uma pessoa emocionalmente frágil e instável, mas era também habilidosa o suficiente para criar um personagem e alcançar o sucesso. No entanto, o preço que pagou por isso foi alto demais. Ela não escolheu bem as suas companhias e ninguém conseguiu ajudá-la como ela precisava.

Atualmente, suspeita-se que os problemas mentais que possa ter sofrido estejam relacionados com o transtorno bipolar ou com o transtorno de personalidade limítrofe (TPB). Isso não está claro. Seja como for, as incógnitas sobre a sua vida sempre levarão a novas investigações e documentários para a televisão.

A história de Hollywood está cheia de bonecas quebradas que alcançaram a imortalidade vendendo suas almas, seus corpos e até mesmo suas vidas. Norma Jean foi o melhor exemplo disso.

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  • Appignanesi, Lisa (2009) Mad, Bad and Sad: A History of Women and the Mind Doctors. Little, Brown.