As três principais contradições da educação

· abril 21, 2018

Segundo Niels Bohr, “O oposto de uma pequena verdade é sempre uma afirmação falsa; no entanto, o oposto das grandes verdades também pode ser visto como verdadeiro”. Esta frase ilustra como, em muitas ocasiões, a sociedade mantém uma série de “grandes verdades” que se contradizem. Esse fenômeno é chamado de “antinomias”, que são duas verdades que, embora pareçam afirmações corretas, se contradizem mutuamente. Neste artigo falaremos sobre 3 antinomias ou contradições da educação.

A análise dessas contradições da educação nos ajuda a entender em grande parte os princípios que regem o sistema e as suas incoerências. Isto nos permite ver o conflito entre o que pensamos ser, o que gostaríamos que fosse e o que é. A dissonância entre esses três estados se traduz em uma série de afirmações contraditórias para conciliar essas discrepâncias.

Contradições da educação

As três principais contradições na educação são: (a) Educação para o desenvolvimento versus educação para a cultura, (b) Aprendizagem intrapsíquica versus aprendizagem situacional e (c) Conhecimento local versus conhecimento social. Abaixo, desenvolveremos cada uma dessas antinomias detalhadamente.

Menino debruçado sobre livros

A educação para o desenvolvimento e a educação para a cultura

A primeira das contradições da educação gira em torno dos seus próprios objetivos. Se perguntarmos sobre os seus objetivos encontraremos muitas respostas que indicarão que é o desenvolvimento pessoal do indivíduo; isto é, atingir o seu potencial máximo e com isto obter um desenvolvimento global da sociedade. Além disso, outro objetivo que atende ao sistema educacional é mergulhar/incorporar o indivíduo à sua própria cultura; já que a escola não é apenas baseada na instrução, ela também ensina um modo de ser e de se comportar.

Embora possa parecer que o desenvolvimento pessoal e a transmissão da cultura não são objetivos contraditórios, na realidade eles têm aspectos irreconciliáveis. E o problema acontece quando uma cultura não é apenas é transmitida, mas também são transmitidos diferentes propósitos associados, como os políticos ou econômicos.

Por exemplo, uma sociedade capitalista e industrializada se baseia em uma força de trabalho muito poderosa e em uma classe média populosa. Assim, é normal que o sistema educativo se concentre na qualificação de trabalhadores não qualificados e semiqualificados. Ao transmitir a cultura, a sociedade se mantém estável e uma educação baseada no desenvolvimento pessoal tornaria a cultura instável, pois poderia causar uma mudança social.

Essa contradição existe porque a maioria da população quer desenvolver e aumentar o seu potencial intelectual. Por outro lado, a cultura estabelecida não deixa de ser uma espécie de “porto seguro”, pois nos dá segurança e senso de controle. Tanto a cultura quanto o desenvolvimento nos trazem prazer e satisfação, a antinomia é uma tentativa de ter ambos. Por outro lado, perseguir os dois objetivos torna o sistema educacional ineficaz e com muitos erros. Isso nos leva a considerar qual é o objetivo que realmente queremos para a educação.

O aprendizado do aluno versus aprendizagem situacional

Outra das grandes contradições da educação tem a ver com o modo como as crianças aprendem e são avaliadas. Há uma forte tendência dentro do sistema educacional de classificar as crianças de acordo com o seu desempenho (notas, menções em aula, comparações…). Isso projeta a ideia de que é a criança com suas habilidades quem aproveita os recursos da escola. Em contraste, também acreditamos que a aprendizagem é situacional, acreditamos que será mais fácil para a criança utilizar os recursos da escola se o ambiente a ajudar.

Aqui a contradição é mais complexa. Apontar como responsável pelo aprendizado tanto a criança quanto o contexto é um erro. Obviamente, os dois fatores irão influenciar a educação das crianças, mas responsabilizar um ou outro de maneira radical mudaria totalmente a política educacional.

Crianças estudando

Se nos basearmos na aprendizagem das crianças, o mais lógico é fornecer recursos de acordo com as suas exigências. Essas demandas dependerão da sua capacidade, mas também da sua motivação. De alguma forma, eles serão os diretores do seu próprio aprendizado. Por outro lado, se atendermos à aprendizagem situacional, a perspectiva mudará e será o contexto educacional que direcionará a aprendizagem.

Nosso sistema educacional toma medidas a partir dos dois pontos de vista, o que deriva, como na antinomia anterior, em ineficiência e inconsistência. Optar por uma posição ou por outra pode ser em grande parte perigoso por causa do contexto político e econômico em torno da educação; daí nasce esta contradição. A pesquisa e o estudo científico devem ser o nosso “guia” quando tentamos encontrar um ponto de equilíbrio.

Conhecimento local versus conhecimento social

A última das contradições da educação talvez seja também a menos explícita no debate educacional. Essa antinomia gira em torno de como se deve julgar as formas de pensar, de dar/assumir significados e de experimentar o mundo. Se tomarmos um ponto de vista construtivista, encontraremos o relativismo, uma vez que a realidade é construída por um intérprete.

Criança pensando em suas ideias

Por um lado, temos a “grande verdade” de que o conhecimento local é legítimo por si só. E, por outro lado, defendemos uma confluência global sobre a interpretação da realidade. Essas duas afirmações se transformam em opostos, pois se buscarmos um conhecimento global, não manteríamos restrito o conhecimento local de pequenas sociedades e grupos.

Aqui surge um debate complicado, uma vez que cada população ou sociedade desenvolveu o seu conhecimento local devido ao tempo e contexto em que vive, e isso lhe traz segurança e controle. Por outro lado, um conhecimento global nos dá um quadro de ação universal que pode ser muito útil para progredirmos na cooperação; embora isso traga sérios perigos. É essencial, assim como para as outras antinomias, uma análise e estudo aprofundados que nos diga qual é a melhor solução para essa contradição.