Psicopatologia no cinema: realidade ou ficção?

· abril 29, 2018

A psicopatologia no cinema é algo muito frequente atualmente. Um número infindável de filmes tem nos contado histórias relacionadas a psicólogos, psiquiatras e, sobretudo, a pessoas que sofrem de transtornos mentais. Mesmo quando o enredo não é a psicopatologia em si, a ciência da psicologia está presente por trás de cada personagem.

A verdade é que as descrições sobre os transtornos psicológicos, os sintomas dos mesmos ou a relação estabelecida entre o paciente e o profissional nem sempre são corretas. Às vezes a busca pelo elemento surpresa, o que produz uma sensação de intriga e mistério, leva os roteiristas, diretores e atores a se afastarem das bases e da ciência, mostrando uma imagem distorcida do que querem representar.

“Se a psiquiatria não existisse, os filmes teriam que inventá-la. E de certa forma, eles fizeram isso”.
-Irving Schneider-

Discrepâncias para alcançar o fator surpresa

Entendemos que às vezes é necessário “enrolar cachos encaracolados” para que a natureza espetacular dos eventos tenha impacto sobre o público, que, por sua vez, procura o cinema em busca de sensações mais do que de conhecimento, na maioria dos casos. No entanto, existem discrepâncias em três aspectos principais:

  • Violência e agressão são relacionadas, muitas vezes a doenças mentais para atingir um grau de emoção e espetacularidade. Vários personagens de filmes que apresentam um problema psicológico são mostrados como agressivos, sádicos e com um lado obscuro que nada tem a ver com o que realmente acontece com eles. Assim, isso favorece o surgimento do estigma social em relação à periculosidade desse tipo de pessoas, embora estatisticamente esteja longe da realidade.
  • Existem diferentes doenças reconhecidas nos manuais de psicopatologia cujos limites similares se misturam e as bordas diagnósticas se sobrepõem. Por exemplo, transtorno de personalidade limítrofe é confundido com transtorno bipolar ou, no segundo, episódios depressivos e maníacos não são adequadamente refletidos. Em alguns filmes, o amor é mostrado como uma cura para o transtorno.
  • A imagem do terapeuta é representada de maneira distorcida. A psiquiatra Pilar de Miguel explica que no cinema, é atribuído um tratamento muito bom ou muito ruim ao profissional. Por outro lado, eles tendem a ser incapazes de estabelecer limites com seus pacientes.
Os quebra-cabeças do cérebro

Mesmo assim, existem filmes com os quais é possível aprender e apreciar o bom trabalho e a documentação precisa. No entanto, em alguns casos, entende-se a necessidade de buscar o drama e a potencialização de histórias e sentimentos. Talvez o que o espectador deva ter em mente é que um filme não deixa de ser uma representação, e não a realidade em si.

A psicopatologia no cinema

Melhor É Impossível

Melhor É Impossível é o filme que todos associamos ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), que peca ao relacionar a sintomatologia do TOC com a personalidade do protagonista.

O caráter irascível de Melvin pode gerar a ideia equivocada de que os que sofrem desse distúrbio têm as mesmas características de personalidade, mas devemos separar essas características desagradáveis ​​dos sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo, como os rituais severos de limpeza, simetria e repetição que o filme mostra.

“Dr. Green, como você pode diagnosticar um transtorno obsessivo-compulsivo e depois se surpreender se eu aparecer aqui de repente?”
-Melvin-

Após a sua estreia, grande parte dos espectadores associaram o transtorno obsessivo-compulsivo com pessoas desagradáveis ​​e mal-humoradas, e entenderam que com um pouco de amor e amizade, os sintomas podem diminuir ou mesmo desaparecer. Entendemos que isso se enquadra nas licenças de roteiro mencionadas acima, mas estas crenças não são verdadeiras.

Cena do filme 'Melhor É Impossível'

O Aviador

O filme O Aviador, de Martin Scorsese, conta parte da vida do milionário, produtor e empresário Howard Hughes, personagem interpretado por Leonardo DiCaprio.

Do ponto de vista da psicopatologia, esse filme nos mostra de maneira muito precisa o desenvolvimento e a evolução do transtorno obsessivo-compulsivo. Tudo começa com uma infância marcada pelo medo de uma mãe de que seu filho adoeça, passando por uma juventude cheia de excentricidades e manias até a idade adulta marcada por obsessões e compulsões.

No filme, podemos observar o terror dos germes de Howard Hughes. Ele levava seu sabonete para todos os lados e lavava compulsivamente as mãos até sangrar para evitar ser infectado.

Naquela época não havia a definição de transtorno como tal, por isso nunca foi tratado. No entanto, todos os sintomas que o acompanham e o sofrimento que isso gerava (refletido com perfeição no filme) indicam que ele sofria de TOC.

Leonardo DiCaprio

Amnésia

Antes de falar do filme de Christopher Nolan e de seus acertos, devemos explicar em que consiste a amnésia anterógrada.  Diferentemente da amnésia retrógrada, mais conhecida, que significa esquecer coisas do passado, essa transtorno é caracterizado principalmente pela incapacidade de aprender e memorizar coisas novas. A pessoa que apresenta amnésia anterógrada esquece tudo o que se passa no mesmo tempo em que acontece, porque não é capaz de armazenar a informação na memória a longo prazo. Para ela, nada permanece porque vive em uma grande desorientação espaço-temporal. Cada momento é o mesmo ponto, de novo e de novo.

Sem revelar muito do filme e de sua estrutura narrativa, Amnésia reflete de forma bem fiel a angústia e as características da pessoa que sofre essa manifestação da memória.

Através dele conhecemos o sistema criado com notas, fotos e tatuagens por parte do protagonista para tentar decifrar o enigma do qual parte o enredo do filme. Sua estratégia não é para lembrar, mas para confirmar que conhece aquilo que o é apresentado. O objetivo do diretor é fazer com que o espectador tenha empatia com o protagonista, com seu estado de perplexidade consciente, e parece que ele consegue.

Talvez Amnésia não reflita perfeitamente a amnésia anterógrada, mas é capaz de nos manter na situação de incerteza e confusão própria do protagonista.

“Que pobre memória é aquela que só funciona para trás!”
-Lewis Carroll-

Cena do filme 'Amnésia'
Como vemos, o cinema, além do mero entretenimento, é uma porta aberta para o conhecimento, para a reflexão e para a empatia, graças às suas histórias e personagens.  Aproveitar as experiências de outras pessoas, mesmo que seja através da ficção, é algo que está ao nosso alcance. Agora, se o que desejamos é conhecer em maior profundidade o mundo da psicopatologia, o ideal é se informar por meio de manuais, estudos e especialistas.

Bibliografia

  • Imágenes de la loucura. La psicopatología en el cine de Beatriz Vera Poseck. Calamar Ediciones. Madri, 2006