Incerteza, essa assassina silenciosa que nos acompanha

A incerteza, essa assassina silenciosa

fevereiro 9, 2017 em Psicologia 351 Compartilhados
Incerteza, essa assassina silenciosa que nos acompanha

A incerteza está relacionada com essa necessidade que temos de saber o que vai acontecer a seguir, de forma que possamos antecipar, controlar e não sermos pegos desprevenidos. A incerteza é entendida como uma motivação humana. Mais especificamente aquela que nos encoraja, por exemplo, a confirmar que o que pensamos ou o que os outros nos ditam é certo.

Embora varie dependendo do grau e do âmbito em que ela apareça, para algumas pessoas a incerteza é insuportável. É aí onde ela adquire seu caráter motivador, já que a pessoa que “sofre” com ela tem que agir para reduzi-la, pelo menos até se encontrar em níveis que ela possa aceitar.

Há pessoas que toleram a incerteza melhor do que outras. As pessoas que se encontram em uma situação de grande incerteza dedicam muitos recursos cognitivos para resolvê-la, principalmente se sua tolerância é baixa. Duas pessoas podem ter ido a uma entrevista de emprego, precisar dele da mesma forma, mas se uma delas tem uma baixa tolerância à incerteza, o mais normal é que tente saber o resultado o quanto antes. Assim, por exemplo, a pessoa não vai esperar que a empresa entre em contato com ela: ela irá entrar em contato com a empresa.

Por outro lado, a incerteza também pode aparecer quando conhecemos uma pessoa: não sabemos como ela é, e isso pode chegar a nos inquietar de alguma forma. Como os nossos recursos cognitivos são limitados, os atalhos cognitivos e heurísticos são boas ferramentas para reduzi-la rapidamente. Essas formas de reduzir a incerteza são eficazes, mas também têm consequências negativas, como a formação de estereótipos acerca das pessoas ou o surgimento inevitável de preconceitos ao nos compararmos com outros indivíduos ou grupos.

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Desencadeadores da incerteza

Iremos contar algumas das causas que geram essa incerteza a seguir. Talvez você se sinta identificado com alguma delas!

  • Uma fonte de incerteza é a contradição entre as expectativas e os sinais que facilitam a nossa realidade. Vamos imaginar que fizemos a entrevista de emprego de que falamos anteriormente e tudo correu muito bem, então saímos de lá pensando que o cargo é nosso. No entanto, os dias se passam e ninguém nos liga, um indicador habitual de que o cargo não será da pessoa que foi entrevistada. Assim, se juntarmos a segurança com a que saímos com o sinal contraditório, o normal é que essa sensação de incerteza vá crescendo.
  • Outra fonte de incerteza surge ao contrastar a conduta com os valores. Quando realizamos condutas com as quais não estamos de acordo, a nossa incerteza aumenta. Retomando o exemplo da entrevista de emprego, se por necessidade vamos a uma entrevista em que o trabalho ofertado não corresponde com as crenças que temos, nossa incerteza também irá aumentar. Um caso desse tipo que é bem refletido no cinema é quando um advogado de defesa do meio ambiente começa a trabalhar para uma empresa que danifica o meio ambiente. Essas condutas podem criar estados de incerteza ansiosa, além de dissonância cognitiva.
  • A injustiça social também aparece como um elemento que produz certo grau de incerteza. As injustiças que vivemos todos os dias e que vemos que outras pessoas sofrem podem nos gerar incerteza se não formos capazes de resolvê-las. A falta de controle sobre essas injustiças faz com que duvidemos da nossa capacidade de prever o futuro. Perante essa situação costuma aparecer certa atração por ideologias extremas e grupos que prometem acabar com essas injustiças.

A incerteza do ponto de vista da psicologia social

A incerteza, do ponto de vista da psicologia social, é entendida de diferentes formas. Uma delas é explicando-a como uma necessidade de fechamento cognitivo. Esta necessidade de fechamento (cognitivo) pode ser definida como o desejo de dar uma resposta rápida a uma pergunta ou questão que tem conteúdo confuso e ambíguo.

A teoria da necessidade de fechamento é baseada em uma análise epistêmica (conjunto de conhecimentos que condicionam as formas de entender e interpretar o mundo), na qual a motivação de fechamento ou incerteza satisfaz a função essencial de deter a busca incessante de informações.

Assim, quando sentimos incerteza, tentamos encontrar informações que consideramos precisas para reduzir essa incerteza. Quando as encontramos, essas informações que reduziram a incerteza são estabelecidas como um conhecimento indispensável para a vida cotidiana.

A necessidade de fechamento cognitivo busca a cristalização e a simplificação do conhecimento próprio. Essa busca de informação que gera conhecimento faz com que apareçam diferenças entre as pessoas, dependendo da informação que cada um seleciona.

Se eu, para reduzir a incerteza gerada pela espera dos resultados da entrevista de emprego, aceito a ideia de que não vão me escolher e outra pessoa aceita a ideia de que a empresa está sendo muito lenta para tomar a decisão sobre quem deve aceitar, teremos ideias muito diferentes e simplistas sobre como essa empresa funciona. As nossas expectativas, à medida que se passam os dias sem conhecer o resultado, vão sendo diferenciadas.

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Esse conhecimento que criamos sobre o funcionamento da empresa também pode variar. Inclusive, as pessoas com elevada necessidade de fechamento podem, em algumas circunstâncias, estar com a mente (temporariamente) aberta enquanto buscam o fechamento cognitivo.

Se posteriormente recorremos a outra empresa para fazer uma entrevista, provavelmente diremos aos responsáveis que temos pressa em saber a decisão. Se volta a ocorrer o mesmo e eles demoram muito para responder, voltaremos a ter incerteza e, de novo, iremos tentar reduzi-la.

Neste caso, a nossa interpretação de que não vão nos contratar não serve para nós, pois já deveriam ter nos comunicado sobre isso. A necessidade de fechamento fará com que entremos em um estado de “urgência” e procuremos outra interpretação plausível o mais rápido possível. Por exemplo, saber que a empresa nos aceitou a que passamos pela fase de entrevista.

Uma vez alcançado o fechamento cognitivo, as pessoas com elevada necessidade de fechamento tendem a considerar sua opinião como “permanente”, e são impermeáveis perante informações novas. A nova ideia sobre o comportamento da empresa é mais resistente do que a primeira e já não iremos mudá-la até que uma nova informação a contrarie, como a confirmação de que a empresa nos aceitou.

O que acontece quando a necessidade de fechamento é elevada?

A necessidade de fechamento cognitivo, uma vez despertada, pode afetar uma grande variedade de fenômenos grupais. A função da necessidade de fechamento é criar uma realidade compartilhada coerente com um grupo. Se o conhecimento que o nosso grupo nos fornece não reduz a nossa necessidade, buscaremos outro grupo que faça isso.

Os que precisam de fechamento cognitivo também se preocupam mais em reduzir a incerteza de forma rápida do que em fazer isso de forma correta. As pessoas com elevada necessidade de fechamento formam opiniões mais rapidamente e com evidências mais limitadas. Elas costumam basear seus julgamentos em estereótipos comuns e apresentam características como erro fundamental de atribuição. Elas também buscam menos alternativas na hora de resolver problemas, são menos empáticas com os que pensam diferente e falham ao adaptar sua linguagem quando têm que explicar seus pensamentos a outras pessoas.

Quem tem elevada necessidade de fechamento supera a incerteza aceitando a primeira informação que obtêm para tirar conclusões e, posteriormente, aceitam essa conclusão de forma inquestionável. Essas pessoas buscam contextos sociais ordenados, previsíveis e familiares.

As crenças e normas sociais compartilhadas pelos membros de um grupo dão certeza sobre como é o mundo, o que se deve fazer em diversas situações, quem são e por que são importantes. Portanto, os grupos fornecem os contextos buscados por essas pessoas, além de serem a melhor fonte de certeza e conhecimento para elas.
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