Psicoterapia existencial: nada é real até que tenha sido vivido

Psicoterapia existencial: nada é real até ser vivido

Março 31, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Psicoterapia existencial: nada é real até ser vivido

Sören Kirkegaard, pai do existencialismo, disse: “A característica do ser humano é a experiência pessoal”. A abordagem existencialista se interessa pela verdade do ser humano. A psicoterapia existencial é uma corrente muito próxima da filosofia existencialista nascida na Europa antes da Segunda Guerra Mundial.

Um pouco mais tarde ela chegou aos Estados Unidos, onde renomados psicólogos, como Allport, Roger, Fromm e Maslow, se vincularam especificamente a ela.

Por outro lado, a psicologia existencial teve uma poderosa influência sobre a psicologia humanista. Tanto é que ela retomou alguns de seus procedimentos e questões fundamentais.

Os modelos humanista-existencial

A análise existencial é parte dos chamados modelos humanista-existencial. O surgimento desses modelos no contexto norte-americano dos anos 60 foi o resultado de múltiplas influências. Sua evolução deve ser vista à luz de sua repercussão social e cultural primeiro nos Estados Unidos, e depois na Europa. Assim, seu desenvolvimento aconteceu fora da psicologia acadêmica.

Por outro lado, apesar de ser considerada uma terceira força diante do behaviorismo e da psicanálise, carece de uma vocação paradigmática. Atualmente os modelos humanista-existencial devem ser tratados como um conjunto de procedimentos terapêuticos, em sua maioria separados das principais correntes acadêmicas.

“Há sempre a escolha entre voltar atrás para a segurança ou seguir em frente para o crescimento. O crescimento deve ser escolhido uma, duas, três e infinitas vezes; o medo deve ser superado uma, duas, três e infinitas vezes.”
-Abraham Maslow-

Os principais antecessores desses modelos são o existencialismo e a fenomenologia. A corrente fenomenológica encontra suas origens mais imediatas no pensamento de Franz Brentano. Isso aconteceu dessa maneira por causa da ênfase de Brentano na experiência, no caráter ativo da psique e na natureza intencional de todo ato psíquico. Brentano influenciou o principal representante da fenomenologia, Edmund Husserl.

Para Husserl, a experiência imediata do ato de conhecimento é o que pode revelar a natureza das coisas. Para isso, devemos entender o que conhecemos como “epoché” ou atitude fenomenológica. Ou seja, devemos tomar a pura observação do fenômeno, sem preconceitos ou crenças prévios (antes da experiência).

Psicólogos

Psicoterapia existencial

A noção central dessa abordagem é a de um projeto existencial. Segundo JP Sartre, a existência precede a essência. Isso significa que o ser humano não vem com um ser a desenvolver, tem que encontrá-lo por si mesmo. Sartre considera o homem um ser radicalmente livre e indeterminado, embora limitado pela fatalidade. Sem ela não se pode compreender. Assim, o ser humano se autodetermina mediante o projeto existencial.

“O homem está condenado a ser livre porque uma vez jogado no mundo, ele é responsável por tudo o que faz.”
-JP Sartre-

A ideia central da análise existencial poderia ser expressa por uma citação de Ortega e Gasset: “Para viver, você sempre tem que fazer alguma coisa (mesmo que seja apenas respirar).” O objetivo da psicoterapia existencial é analisar a estrutura do que é feito na vida. Biswanger chamou essa estrutura de “Dasein“. Sartre a chamou de projeto existencial.

M. Villegas definiu a psicoterapia existencial como “um método de relacionamento interpessoal e análise psicológica”Sua finalidade seria provocar o autoconhecimento e a autonomia suficientes para assumir e desenvolver livremente a própria existência. (Villegas, 1998, página 55).

A psicoterapia existencial esclarece e compreende os valores, significados e crenças que o paciente implementou (como estratégias) para entender o mundo. Evidencia suposições sobre a nossa maneira de viver a vida, pois começamos a duvidar da apropriação de nossa existência.

Homem sentado no topo de montanha

A psicoterapia nos modelos humanista-existencial

Do ponto de vista psicoterapêutico, a característica mais relevante dos modelos humanista-existencial é a importância dada à experiência imediata como fenômeno primário. Isto implica que tanto as explicações teóricas quanto o comportamento manifesto estão subordinados à própria experiência e ao significado que a pessoa lhe dá.

Outra característica desses modelos é a ênfase que eles colocam nos aspectos volitivos, criativos e avaliativos do comportamento humano. Além dessas características gerais, é difícil falar sobre conceitos básicos.

“Nem a Bíblia, nem os profetas, nem as revelações de Deus ou dos homens. Nada tem prioridade sobre a experiência direta.”
-C. Rogers-

Para este propósito, deve-se fazer referência às teorias específicas nas quais elas fazem sentido. Essas teorias são a análise existencial, a abordagem centrada na pessoa, a abordagem da Gestalt, a análise transacional, o psicodrama e a bioenergética.

Pássaros e homem em pintura

Vazios existenciais como distúrbios psicopatológicos

Como já dissemos, a noção central da psicoterapia existencial é a de um projeto existencial. O objetivo da psicoterapia é analisar esse projeto e modificá-lo. A psicoterapia não pretende mudar a realidade externa, física ou social, mas a pessoa e sua percepção das coisas. Supõe-se radicalmente que é a única coisa que depende de si mesma, onde há, em última análise, uma maior capacidade de controle.

Seu objetivo é recuperar o ser humano, recuperar seu autocontrole e autodeterminação. Isso implica, de certa forma, confrontá-lo consigo mesmo.

A psicoterapia existencial, mais do que um método, é uma atitude filosófica que, baseada na arte de formular perguntas e não respostas, atende e cuida do que surge como fenômeno no espaço terapêutico.
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Muitas vezes o indivíduo está perdido ou alienado tentando resolver os problemas colocados por sua transcendência radical. Assim, o propósito de analisar as estruturas do seu mundo envolve descobrir as formas e os pontos de alienação. Só assim a liberdade básica pode ser restaurada. Só assim é possível permitir uma reconstrução alternativa de sua experiência. Segundo a psicoterapia existencial, nada é real até que tenha sido vivido.

Portanto, a partir da psicoterapia existencial considera-se que os vários transtornos psicopatológicos são formas de existência não autênticas. Eles são vazios existenciais. São defesas ou negações do “ser-no-mundo”, renúncias ou perdas de liberdade (Villegas, 1981).

Não é fácil definir claramente a psicoterapia existencial, mas podemos ficar com a ideia de que ela tenta promover uma análise pessoal que motive a possibilidade de escolher e construir esquemas individuais para viver. Também visa diversificar e enriquecer o cotidiano da pessoa através de uma provocação filosófica.

Referências bibliográficas

(1946b), La escuela de pensamiento del análisis existencial (originalmente en Schweizer Archiv für Neurologie und Psychiatrie, vol. 1, Berne, Frankce, 1947), en May, R./Otros, ed. (1958), pp. 235-261.
Efrén Martínez Ortiz (2011). Las psicoterapias existenciales. Manual Moderno.
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