Quando, de repente, nos transformamos no 'lobo' na história de alguém

Quando, de repente, nos transformamos no “lobo” na história de alguém

19, julho 2017 em Psicologia 2489 Compartilhados
Quando nos transformamos no lobo

Às vezes, quase sem perceber, nos transformamos em vilões, no lobo da história da Chapeuzinho Vermelho. Somos alguém que, por negar algum pedido, por dizer a verdade em voz alta ou agir de acordo com os seus valores, se transforma instantaneamente no personagem maldoso da história, no responsável por essa fábula não ser “cor-de-rosa” e não ter a narrativa que alguém queria ditar.

Se há algo realmente perigoso e impróprio é usar esta dicotomia tão radical que costuma classificar as pessoas entre boas e más. Fazemos isso tantas vezes que quase não notamos. Por exemplo, se um menino é obediente, calmo e tranquilo instantaneamente dizemos que ele é “bom”. Pelo contrário, se ele é genioso, contestador, inquieto e muito propenso a acessos de raiva, não hesitamos em dizer-lhe em voz alta que “é um menino mau”.

“A história sempre assume as cores que o narrador lhe dá, o ambiente onde é contado e a pessoa que ouve”.
-Jostein Gaarder-

É como se muitos de nós tivéssemos um esquema construído sobre o que esperar dos outros, o que consideramos conveniente e respeitável, o que entendemos como nobreza ou bondade. Assim, quando algum desses conceitos falha, quando um elemento dessa receita interna não for cumprido ou não aparecer, não hesitamos em chamar essa pessoa de imprudente, tóxica, ou até mesmo “malvada”.

Ser o lobo na história de alguém é algo bastante comum. No entanto, em muitos desses casos, é necessário analisar com cuidado a pessoa que está sob a capa vermelha.

Menina que enfrentou o lobo mau

Quando criar as nossas próprias “histórias” nos dá segurança

Chapeuzinho é uma criança obediente. Em seu trajeto através do bosque sabe que não deve sair do caminho marcado, é preciso seguir as regras, agir conforme o determinado. No entanto, quando o lobo aparece as suas perspectivas mudam … se deixa cativar pela beleza da floresta, pelo canto dos pássaros, o perfume das flores, a fragrância desse novo mundo cheio de sensações. O lobo, na história, representa a intuição e o lado selvagem da natureza humana.

Essa metáfora nos ajuda a entender um pouco mais sobre essas dinâmicas com os quais nos deparamos diariamente. Há pessoas que, como Chapeuzinho Vermelho, no início da história mostram um comportamento rígido e padronizado. Elas internalizaram como devem ser os relacionamentos, como deve ser um bom amigo, um bom colega de trabalho, um bom filho e um excelente parceiro… Os seus cérebros estão programados para procurar essas dinâmicas porque dessa forma conseguem o que mais precisam: segurança.

No entanto, quando as coisas não acontecem da forma esperada, quando alguém reage, age ou responde de maneira diferente do previsto, entram em pânico. Uma opinião contrária é vista como um ataque. Elas se sentem ameaçadas e estressadas. Diante de uma opinião diferente, uma negativa inofensiva ou uma decisão inesperada, elas se sentem decepcionadas e insultadas.

Assim, quase sem procurar, sem prever e sem querer, nos transformamos no “lobo” da história, nessa pessoa que por seguir a sua intuição feriu o ser frágil, que vive dentro de uma capa.

Chapeuzinho vermelho e o lobo mau

Por outro lado, há algo que não podemos negar: muitas vezes nós mesmos somos a Chapeuzinho que comete o erro de criar a sua própria história. Nós traçamos e elaboramos planos sobre como deve ser a nossa vida, como é a família ideal, o melhor amigo e o amor perfeito que nunca falha e que se encaixa com todas as nossas peças soltas. Imaginar a história perfeita nos anima, nos oferece segurança, e lutar para mantê-la dessa maneira nos define como pessoa.

No entanto, quando a história deixa de ser história e se transforma em realidade, tudo entra em colapso e aparece instantaneamente uma matilha de lobos devorando a nossa fantasia quase impossível.

Ser o lobo, uma questão de coragem

Ser o lobo na história de alguém não é agradável. Pode ser que hajam razões concretas para que o sejamos ou talvez não. De qualquer forma, são experiências desagradáveis ​​para todos os envolvidos. Agora, há um aspecto muito básico que não podemos ignorar. Às vezes, ser “mau” na história de alguém nos permite ser “bom” na nossa história. Nós poderíamos ser, por exemplo, aquele herói que foi capaz de deixar um relacionamento infeliz e fútil, ou aquele personagem que se atreveu a colocar “um fim” em uma história que não teria um final feliz.

O lobo será sempre mau se só ouvirmos a Chapeuzinho.
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Antes de nos transformarmos em lobos domesticados habitando histórias impossíveis, é conveniente unir forças e coragem, ouvir os seus instintos e agir com inteligência, respeito e astúcia. Porque agir de acordo com os próprios princípios, necessidades e valores não é agir com maldade. É viver de acordo com os seus instintos, sabendo que na floresta da vida, nem sempre os bons são tão bons e nem os maus tão maus. O importante é saber conviver com a autenticidade, sem peles e capas vermelhas de proteção.

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