Vim para lhe dizer algo, mas acabei esquecendo quando você começou a falar

Vim para lhe dizer algo, mas acabei esquecendo quando você começou a falar

Fevereiro 3, 2017 em Psicologia 2107 Compartilhados
Vim para lhe dizer algo, mas acabei esquecendo quando você começou a falar

Vim para lhe dizer algo, mas acabei esquecendo quando você começou a falar. Minhas penumbras, meu mar de preocupações, sumiram imediatamente como a fumaça que desaparece por uma janela aberta. Porque você me dá tranquilidade, porque o seu olhar me equilibra e me enfeitiça, porque você é o meu norte, minha ilha refúgio neste rumor incerto que é a vida.

Parece curioso como grande parte da oferta editorial em matéria de relacionamentos está focada em nos dar mil conselhos e receitas quase mágicas para encontrar o amor das nossas vidas. Pior ainda, também nos ensinam a deixar de lado os relacionamentos que já não valem, essas que se abandonam rapidamente e sem anestesia. Contudo, poucos são os que focam no que é essencial: nas habilidades para preservar esse relacionamento. Nessa viagem para a intimidade lenta e paciente na qual tecer, como artesão, uma trama comum.

Todos já vivemos esta situação alguma vez. Passar um dia complicado, permeado de dúvidas, pelo estresse deste mundo exigente. Contudo, ao voltar para casa ou ao reencontramos nosso próprio companheiro, tudo parece calmo e ganha sentido. Basta ouvi-lo falar para que tudo entre em harmonia, para que esse arpejo perfeito nos ofereça verdadeira satisfação. Plenitude.

Passamos grande parte da nossa existência criando um “falso eu” com o qual sobreviver, encaixar e agradar, até que de repente topamos com essa pessoa. Esse alguém diante do qual tiramos todas as nossas camadas de cebola para mostrar o “nosso eu verdadeiro”. Poucas coisas são tão realizadoras.

Convidamos você a refletir sobre este tema.

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Quando falar com você me ajuda a ser eu mesmo

Existem pessoas que chegam em nossas vidas na hora exata, no instante necessário, e a sua presença não é justamente inócua. Transformam-se em escultores. Vão retirando uma a uma todas as nossas couraças, embalagens, timidez e barreiras para trazer à tona aquilo que somos na nossa mais pura essência. É então quando nos mostramos cara a cara sem medos, sem véus nem reticências.

Na língua japonesa existe um termo que se encaixa muito bem neste contexto. Wabi Sabi. Trata-se de uma apreciação artística com uma interessante conotação filosófica. É aquela que realiza a beleza do imperfeito, do mais puro e essencial diante dos nossos próprios sentidos. É a elegância desses objetos, cenários e inclusive pessoas que, apesar de terem sido feridas, se mostram diante de nós em toda a sua autenticidade.

Há quem fique obcecado em encontrar o par perfeito. Para isso, não duvida em se camuflar também sob uma pele de aparente perfeição. Donald Woods Winnicott, célebre pediatra e psicanalista inglês, costumava dizer que viver com a máscara do falso eu implica uma perda total e absoluta da nossa própria vitalidade, da alegria e da nossa criatividade.

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Se pararmos para pensar, o mundo já é por si só suficientemente imprevisível, mutante e contraditório para que nós também sejamos assim em nossos relacionamentos cotidianos. Se falar com alguém lhe permite se reconectar consigo mesmo em um olhar alheio, não perca isso. Se essa pessoa o ama apesar das suas manias, dos seus dias de mau humor e do relevo das suas cicatrizes, segure-a pela mão com força. Não a deixe partir.

O amor, às vezes, chega como um vendaval, com o bom e ruim

Mostrar o nosso verdadeiro eu, às vezes, é pouco mais que um desafio. É preciso coragem, força e um pouco de ternura. Contudo, recordemos o que dizia Kierkegaard: “a forma mais profunda de desespero é escolher ser outra pessoa que na verdade não somos”.

Por sua vez, uma coisa que todos sabemos é que quando o amor chama à nossa porta, costuma entrar de forma imprevista e com a força de um vendaval. Ao entrar de bico não podemos evitar que traga o bom e também o ruim. Se procuramos um amor perfeito baseado apenas no lado positivo, a única coisa que encontraremos serão decepções.

Precisamos entender que nenhum de nós atravessa esse limiar sem bagagem. Em cada uma dessas “camadas de cebola” que nos envolvem habitam histórias passadas, muitas belezas e virtudes, mas também algumas carências, feridas e certos medos. Somos, portanto, um “eu complexo e muito rebuscados” que não se deve esconder. Porque a complexidade também pode ser reflexo de autenticidade.

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Somos um vasto livro, às vezes desorganizado e caótico, mas sempre belo. Recuperar e celebrar nosso próprio eu com ajuda do outro é um ato essencial e ao mesmo tempo maravilhoso. Proceder a essa leitura mútua na qual descobrimos e aceitamos cada defeito e cada grandiosidade é também algo primordial.

Pouco a pouco virá aquela harmonia perfeita onde tudo preenche e nada falta. Aqueles instantes em que falar reconforta e nos equilibra, como quem fez uma longa viagem e, finalmente, encontrou esse lar cúmplice onde repousar a alma, a vida e os sonhos.

Imagens cortesia de Puuung.

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