Quem nada espera nada perde

maio 2, 2019
A pessoa que nada espera está aberta a um mundo de possibilidades que a liberta do sofrimento das expectativas. É possível viver sem expectativas? Como podemos parar de sofrer quando o que esperamos não acontece? 

A nível geral, costumamos esperar que os acontecimentos ocorram da maneira como gostaríamos. Criamos expectativas sobre como as coisas deveriam ser e como os demais deveriam ser conosco.

Assim, esperamos que alguém reaja de uma maneira determinada perante algo que nos incomoda. Também esperamos que não chova no dia em que planejamos um passeio no campo. No entanto, quantas vezes já não nos decepcionamos com alguém?

Então, qual é o segredo para não sofrer? Não esperar nada porque quem nada espera nada perde.

Apesar de soar um pouco desanimador, não esperar nada, ou em outras palavras, não criar expectativas, envolve um grande poder. É fácil cometer o erro de pensar que se trata apenas de se deitar no sofá e ver a vida passar. De forma alguma. É algo um pouco mais ativo e dinâmico do que tudo isso.

Trata-se de trabalhar a mente para não criar falsas esperanças, nem ideias incorretas. Mas por que isso é tão importante? Porque quem nada espera está livre de encontrar a decepção. Vamos nos aprofundar nesse assunto!

Mão na janela embaçada por chuva

Quem nada espera tem tudo

Como podemos não esperar algo? É possível viver sem expectativas?

O segredo está no conceito de apego. Quando nos apegamos a uma ideia, é muito mais provável que venhamos a sofrer se essa ideia não se materializar. Então, o que fazer?

A questão está em se desapegar de um resultado específico. Por exemplo, se esperamos que alguém faça algo por nós, e a pessoa não faz, nós sofremos. Dessa forma, se estivermos abertos à possibilidade de que pode acontecer o que esperamos ou não, levaremos em consideração as duas opções.

O budismo afirma que todos nós buscamos ser felizes, mas muitos erramos em nosso caminho para chegar a esse estado. Enquanto buscamos nossa felicidade, podemos ferir outras pessoas, com maior ou menor intenção.

O budismo nos prepara para aceitar que alguém vai falhar conosco, para aceitar que nossos planos não vão sair como queremos e para aceitar que nossas expectativas podem acabar indo por água abaixo. Seus ensinamentos são tão profundos que a aceitação de “não acontecer” algo que esperamos não é um drama, mas uma libertação.

Essa libertação significa segurar as rédeas da nossa felicidade e não deixá-la nas mãos dos acontecimentos externos. Quem nada espera de um acontecimento ou de outra pessoa tem tudo; ou seja, considera todas as opções possíveis.

Se nosso amigo cumprir com as nossas expectativas, será uma alegria. Se não, era algo que estava em nossos planos, por isso não será um acontecimento tão dramático. Além disso, nós também já falhamos alguma vez na vida…

Liberte-se

Liberte-se do sofrimento causado pela rigidez mental. A vida, o destino, a existência – ou como queiramos chamar – nem sempre vai passar como desejamos.

Muitas pessoas dizem coisas como “as coisas sempre dão errado pra mim” ou “eu sempre me decepciono em qualquer lugar”. No entanto, quantas vezes já esperamos de alguém algo que nunca chegou? Inclusive no nosso dia a dia escutamos frases de lamentação sobre tudo o que não funciona como deveria.

A questão é aprender a aceitar que “tudo aquilo que não funciona como deveria” funciona, mas não como gostaríamos. Quando ocorre o desajuste entre o que deveria ser e o que é, surge o sofrimento.

 “O calor, o frio, a chuva, o vento, as doenças, o ser aprisionado, machucado… não devem me irritar. Pois isso só agravaria a condição”.
-Shatideva-

Mulher soprando dente-de-leão

Podemos nos decepcionar com os outros, mas, sem dúvida, não serão decepções tão dolorosas. E mais, podemos tirar proveito dessas desilusões. Por um lado, podemos aprender a aceitar os demais sem projetar neles a forma como queremos que sejam. E por outro, se realmente virmos que sua atitude nos machuca, talvez seja melhor deixar ir.

Tudo é possível

Lama Rinchen, mestre budista, afirma que “existem mais possibilidades de que as coisas saiam como não queremos do que como esperamos”. Dessa forma, ele nos convida a refletir sobre se realmente temos tanto poder para acharmos que podemos controlar tudo o que acontece ao nosso redor.

Rinchen aborda a visão de que tudo é possível, mas, mais do que isso, nos convida a adotar essa visão como nossa. Se tudo é possível, estaremos mais dispostos a aceitar que o inesperado pode ocorrer.

 “Somos vítimas de nossas próprias aflições mentais, os inimigos da paz e da serenidade. Essas aflições – o apego, o ódio, o orgulho, a avareza, etc. – são estados mentais que provocam em nós condutas que causam toda a nossa infelicidade e nosso sofrimento. […] A maior parte dos problemas com os quais sofremos, que em suma nós criamos, provêm em última instância dessas emoções negativas”.
-Dalai Lama-

Para quem nada espera, todas as opções são possíveis. Dessa forma, estamos abertos ao que pode ocorrer. Projetar uma ideia ou uma esperança no futuro pode ser bom para nos dar energia, desde que estejamos conscientes de que nem sempre as coisas sairão como desejamos.

Um aspecto fundamental para deixar de sofrer por nossas próprias expectativas é permitir que a mente descanse. Como afirma o mestre budista zen Thich Nhat Hanh: “devemos aprender a arte de descansar, deixando que o corpo e a mente relaxem. Se temos feridas no corpo ou na mente, devemos descansar para que elas possam se curar”.