Raiva oculta, a emoção que muda a nossa personalidade

agosto 6, 2019
A raiva oculta muitas vezes surge por decepções, traumas não processados ​​e revezes do destino. Tudo isso, caso não seja administrado, deixa em nós a marca do mau humor constante e de um desânimo que acaba se somatizando.

A raiva oculta, essa raiva tão silenciada e engolida à força, pode mudar a nossa personalidade. As decepções, os fracassos, os danos sofridos e não administrados, as ilusões e cada tropeço em nosso caminho nos deixam uma marca e, muitas vezes, se transformam em raiva.

Se não lidarmos com essas realidades internas, arrastaremos conosco um desconforto constante.

A raiva é uma das emoções mais desconhecidas por grande parte da população. Muitas vezes a associamos com aquelas explosões nas quais emerge o lado mais sombrio do ser humano, nas quais acabamos dizendo ou fazendo coisas das quais nos arrependemos mais tarde.

No entanto, algo notável é que, em muitos casos, a raiva não emerge, não se manifesta. Nós a ocultamos e ela é velada de forma subjacente.

Essa emoção também tem um problema quantitativo: quanto mais se acumula, mais desconforto psicológico ela gera. Um excesso de raiva nem sempre se traduz em um rosto eternamente zangado, em alguém que anda pelo mundo empurrando, gritando ou respondendo de maneira inapropriada.

Essa emoção gera angústia, cansaço, se traduz em mau humor, ansiedade e, em muitos casos, pode até ser o gatilho para desenvolver um transtorno depressivo.

Vejamos mais informações a seguir.

“A raiva é o guarda-costas da tristeza”.
-Liza Palmer-

Os efeitos da raiva no nosso corpo

A raiva oculta, uma emoção camuflada que esquecemos de controlar

É impressionante, mas o ser humano pode viver com uma raiva oculta durante praticamente toda a sua existência. Algo como sofrer maus-tratos ou o abandono de um dos pais, por exemplo, pode ser, em muitos casos, a raiz desse problema que acaba moldando a nossa personalidade.

A raiva, afinal, nada mais é do que a conjunção de várias emoções esculpindo uma pedra pesada que podemos carregar por muito tempo.

Nela se integram a tristeza, o sentimento de injustiça, a angústia e, muitas vezes, também o medo. Medo de que determinadas coisas voltem a surgir, e um medo absoluto de se sentir vulnerável novamente.

Tudo isso é catalisado na raiva, em um mal-estar sem forma e duradouro que ocupa e confunde ao mesmo tempo. Ódio, fúria, ira, irritabilidade, agressividade, tensão, perda de controle… todos esses termos são os primeiros que vêm à mente quando pensamos em raiva.

Relacioná-la desta forma não é um erro, mas a verdade é que as pessoas nem sempre reagem desta maneira ao experimentar essa emoção.

O Dr. Thomas Denson, da Universidade de Michigan (Estados Unidos) explicou em um estudo que existem diferentes maneiras de sentir raiva. Há aqueles que a expressam e também aqueles que a silenciam e a levam consigo de maneira camuflada.

Estes últimos, os caracterizados pela raiva oculta, tendem a alimentá-la ainda mais através do pensamento ruminante. Algo assim acaba prejudicando o seu comportamento e a sua personalidade.

Quais são as características da raiva oculta em uma pessoa?

Ter vivido vários fracassos emocionais. Ter experimentado o fato de que um parente próximo ou alguém significativo nos traiu. Não ter alcançado um objetivo importante. Todas essas realidades são alguns exemplos da origem dessa raiva oculta que muitas pessoas sentem.

Vejamos quais sinais costumam ficar evidentes:

  • Desconfiança, dificuldade clara em confiar nas pessoas ao redor.
  • Comportamentos e reações sarcásticas, cínicas e às vezes frívolas.
  • Variação de humor constante.
  • Tendência a procrastinar. Dificuldade em se comprometer e cumprir tarefas.
  • Irritabilidade.
  • Dificuldade de aproveitar os momentos de lazer.
  • Insônia, pesadelos, despertares contínuos.
  • Esgotamento físico e mental.
Como podemos controlar a raiva?

Como podemos controlar a raiva?

Muitas vezes, quando lemos livros ou artigos sobre como controlar a raiva, percebemos que a maioria deles aplica uma abordagem incompleta, ainda mais quando falamos da raiva oculta.

Para trabalhar essa emoção, não é suficiente fazer exercícios de relaxamento, nem procurar um catalisador ou um meio de expressão. Essas técnicas ajudam, mas não resolvem o problema em sua origem.

O mais adequado é considerarmos as seguintes ideias.

Vulnerabilidade

Para controlar a raiva oculta, é preciso ir à raiz do problema, que na maioria dos casos é o sentimento de vulnerabilidade.

Quando nos sentimos arrasados, traídos, quando vemos injustiças, quando nos sentimos frustrados ou aborrecidos com algo ou alguém, surge a raiva. Devemos, portanto, esclarecer a origem da mesma.

Autoestima

O segundo passo é trabalhar a autoestima, a autovalorização. Às vezes, não será possível resolvermos esses problemas que originaram a raiva oculta em nós.

Portanto, precisamos trabalhar em nós mesmos, reparando dignidades, valores, potencial humano, apreço por nós mesmos.

Pensamentos úteis

A raiva oculta tem um grande poder ruminante. Nossa mente sempre está focada naquela fonte de dor, naquela decepção, naquele fato do passado.

Esse enfoque, muitas vezes, obscurece nosso julgamento e nos leva a um desgaste psicológico imenso. É necessário mantermos um diálogo interno cuidadoso, útil e saudável.

Mulher rodeada de nuvens

Foco em reparar a raiva oculta, não em alimentá-la

A raiva é um fogo que alimenta nossos pensamentos dia após dia. Nós a intensificamos com a imobilidade, com a procrastinação, com um enfoque mental rígido completamente ancorado aos eventos do passado.

Se realmente quisermos reparar e curar a raiva oculta, devemos levantar a âncora do passado e nos permitir avançar para reparar nossos danos.

Vamos conseguir fazer isso estabelecendo novos objetivos no horizonte, favorecendo mudanças, colocando-nos em novas situações nas quais possamos nos sentir competentes e conectar com novas pessoas que nos trazem positividade.

Às vezes, é necessário recomeçar em todos os sentidos para deixar para trás aqueles pesos que não nos permitiam nem respirar. 

  • Lerner, J. S., & Keltner, D. (2001). Fear, anger, and risk. Journal of Personality and Social Psychology81(1), 146–159. https://doi.org/10.1037/0022-3514.81.1.146