Rebecca, a Mulher Inesquecível

Hitchcock era um daqueles cineastas incomparáveis, capazes de manipular o público. Acreditamos no que ele quer que acreditemos e, no momento-chave, ele mudará drasticamente as nossas crenças e descobriremos o engano. Rebecca foi o primeiro filme do diretor do outro lado do Atlântico; em que exatamente ele queria que acreditássemos?
Rebecca, a Mulher Inesquecível

Última atualização: 12 Maio, 2021

Rebecca, a Mulher Inesquecível é um suspense psicológico e romance gótico de 1940, dirigido por Alfred Hitchcock em seu primeiro projeto norte-americano.

Hitchcock deixou o Reino Unido para trás e cruzou o Atlântico para aproveitar o auge que Hollywood oferecia. Assim, a sua aventura norte-americana começou com um nome de mulher: Rebecca (1940).

Porém, embora o sucesso do filme seja indiscutível, a verdade é que a filmagem de Rebecca não foi tão fascinante quanto se poderia esperar. Os Estados Unidos tinham o avanço tecnológico, os meios financeiros e as oportunidades com as quais todo cineasta sonhava, mas tinham um lado sombrio do qual, aparentemente, Hitchcock não gostou.

No Reino Unido, Alfred Hitchcock gozava de grande liberdade criativa; os produtores mal se intrometiam em seus filmes e permitiam que ‘o mestre do suspense’ contasse as histórias à sua maneira. No entanto, a produção de Rebecca estava nas mãos de David O. Selznick, o famoso produtor de filmes de sucesso como E o Vento Levou.

Embora a maioria dos cineastas que trabalharam com Selznick afirmem que desfrutaram de bastante liberdade e digam que ele foi especialmente benevolente com Hitchcock, parece que o britânico não gostou das suas ordens.

As filmagens

Ao longo da filmagem e produção do filme, ocorreram várias divergências. Hitchcock não estava acostumado com o frenesi dos Estados Unidos e os seus tempos eram mais lentos; ele não dava o braço a torcer, sabia o que queria e como queria fazer.

Selznick, por sua vez, queria supervisionar algumas cenas, era muito meticuloso com o roteiro e não queria que ele se afastasse muito do romance original, Rebecca, de Daphne du Maurier. Apesar disso, o cineasta teve grande liberdade e até voltou a trabalhar com Selznick mais tarde, embora a relação nunca tenha sido inteiramente boa.

No final das contas, Rebecca alcançou um grande sucesso e, até hoje, continua sendo uma das obras mais aplaudidas do cineasta britânico. O início do filme é magistral, com aquela voz e a imensa mansão, agora em ruínas, que parece ser o reflexo do que um dia brilhou, de um passado que ainda não se foi completamente. Tudo evoca uma sensação de sonho e mistério.

O que veremos a seguir é um sonho onde o passado e o presente se misturam, no qual convergem o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

Rebecca, a Mulher Inesquecível

Os bastidores de Rebecca

Além dos problemas que mencionamos sobre a produção, a verdade é que a magnitude de Rebecca vai além do que vemos na tela. Quando assistimos a um filme, não podemos esquecer que vemos o que o cineasta quer que vejamos. Ele direciona o nosso olhar, a nossa atenção, e não deixa nada ao acaso.

Se adicionarmos a isso um professor como Hitchcock, não é surpreendente que muitos dos elementos que aparecem projetados sejam absolutamente reveladores. Os movimentos da câmera e os figurinos e cenários dizem muito sobre o filme.

Hitchcock afirmava que via o público como as teclas de um piano que ele pressionava. Sem dúvida, quando vemos um filme seu, embora saibamos de antemão que ele buscará a nossa surpresa, a apreensão e a intriga tomam conta de nós.

O mestre do suspense sabia apertar o botão certo na hora certa, sabia exatamente quando revelar a informação, como dirigir o olhar e nos fazer acreditar em algo. Muitas vezes, sucumbimos ao seu engano e, em algum momento da trama, percebemos que estávamos acreditando em uma pista falsa.

Hitchcock era um mestre da encenação, sabia contar uma história, como mover os personagens e como a câmera deveria acompanhá-los. Se observarmos os personagens, como se movem na cena e a coreografia que executam, podemos obter informações muito relevantes.

Por exemplo, um personagem pode estar fazendo um discurso e, graças aos seus gestos, podemos saber se ele está mentindo ou não. Da mesma forma, no caso de Hitchcock, é muito interessante ver como os personagens – e a própria câmera – interpretam uma coreografia que nos dá pistas sobre o que vai acontecer. Podemos saber qual personagem é dominante em um determinado momento, quem vamos seguir depois, etc.

Filme Rebecca, a mulher inesquecível

A protagonista feminina

No caso de Rebecca, Hitchcock queria que a protagonista feminina, interpretada por Joan Fontaine, parecesse ingênua, insegura e, em última análise, tímida e inofensiva. Como fazer isso? Diminuindo a protagonista.

Nesse sentido, o mestre do suspense decidiu que era uma boa ideia Joan Fontaine se sentir insegura durante toda a filmagem, mesmo atrás das câmeras. Fez chegar aos ouvidos da atriz um boato de que todos os seus colegas a odiavam. O seu colega de elenco, Lawrence Olivier, recebeu instruções do próprio diretor para tratá-la com frieza.

Dessa forma, Joan Fontaine se sentiu incomodada e se fundiu com a sua personagem. Além disso, essa impressão de ingenuidade e insegurança foi reforçada pelos planos e movimentos da câmera.

Ao longo do filme, Hitchcock isola Fontaine, mas afasta a sua câmera e a movimenta estrategicamente para que, visualmente, vejamos uma jovem muito pequena em comparação com as imponentes paredes da mansão. Esse contraste de tamanho produz no espectador uma certa sensação de opressão, de angústia pela situação em que a protagonista está inserida. A casa sinistra em ruínas desde o início acabou oprimindo a protagonista.

Porém, à medida que o filme avança e a protagonista consegue destruir os monstros do passado, a câmera se aproxima dela, nos oferecendo closes cheios de luz que contrastam com a escuridão que antes a atormentava.

A protagonista agora está forte e pode enfrentar a soberba Sra. Danvers. Agora a segunda Sra. De Winter encontrou o seu lugar e se vê como a verdadeira dona da casa.

A presença do passado

A própria mansão atua como um personagem a mais. O seu passado parece ligado às suas paredes, engana e sufoca a protagonista, convidando-a a competir com a falecida esposa de seu marido.

A princípio, tudo parece um conto de fadas, uma história de amor impossível em que não há diferenças de classe ou barreiras que possam com a paixão dos amantes, mas quando eles voltam da lua de mel, os fantasmas do passado se encarregarão de apagar as chamas do amor.

Nesse sentido, Hitchcock realiza um excelente trabalho: a partir dos momentos românticos do início, ele nos conduz diretamente à terrível mansão.

A lua de mel só aparece como uma projeção; de alguma forma, parece nos dizer que aquele momento feliz não está mais no presente, foi passageiro e é tão frágil quanto a fita em que foi gravado. O passado tem a sua projeção no presente, a imagem de Rebecca parece nunca ter saído da mansão que foi a sua casa e, constantemente, lembra a protagonista de que este não é o seu lugar.

A presença de Rebecca

A presença de Rebecca é tão intensa que quase conseguimos vê-la no palco, ouvimos os seus passos, a sua risada… Parece que podemos ver a Sra. Danvers penteando os seus cabelos. A cena que se passa em seu quarto é uma das mais interessantes, na qual Hitchcock consegue captar a essência de Rebecca congelando o ambiente.

Como nos dizem, nada foi tocado desde o seu falecimento; a presença de Rebecca está mais forte do que nunca. No quarto, parece que o mundo dos vivos e dos mortos se misturam e as enormes cortinas contribuem para criar uma imagem fantasmagórica.

No entanto, não há imagem mais fantasmagórica do que a da Sra. Denvers se escondendo entre as cortinas do quarto de Rebecca como se viesse do além, como se estivesse fazendo contato com a falecida dona da casa. Não vemos Rebecca em momento algum, mas é como se a conhecêssemos; os personagens a descrevem, entramos no seu quarto e a câmera se move com a sua sombra.

Hitchcock direciona o nosso olhar através dos espaços que Rebecca percorreu, a câmera segue o fantasma enquanto o Sr. de Winter conta a sua história sobre a morte de Rebecca.

Filme de Hitchcock

Conclusão

Tudo aquilo em que havíamos acreditado sobre o relacionamento de Rebecca com o Sr. de Winter não passava de uma farsa, uma ilusão. O Sr. de Winter confessa o seu segredo e, naquele momento, a sua nova esposa perde a inocência: “aquele olhar estranho, jovem e perdido que eu amei se foi para sempre… Nunca mais voltará, eu o matei quando lhe contei sobre Rebecca”. Não, aquele olhar inocente não voltará, mas nós, como espectadores, também o perdemos. O que realmente aconteceu com Rebecca?

Como de costume, o mestre do suspense se antecipou a nós, entrou em nossas mentes e nos fez acreditar em uma história que, como o fantasma de Rebecca, não é mais do que uma sombra distorcida do que realmente foi.

A história dará um giro fundamental e a personagem de Joan Fontaine colocará a insegurança e a inocência de lado. Embora o cinema em cores já existisse, Hitchcock quis que Rebecca fosse filmado em preto e branco, e o resultado é um filme assustador e fantasmagórico em que nada é o que parece.

“Às vezes, acho que a ouço atrás de mim com os seus passos furtivos, é inconfundível. Em todos os cômodos da casa, quase posso ouvi-la. Você acha que os mortos visitam os vivos?”
Rebecca

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