A relação existente entre a brincadeira e o desenvolvimento infantil

Você sabe qual é a relação existente entre a brincadeira e o desenvolvimento infantil?

Fevereiro 8, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
A brincadeira e o desenvolvimento infantil

A brincadeira é uma atividade que desenvolvemos de maneira natural desde quando somos crianças. A capacidade de brincar, à primeira vista, pode parecer que não desempenha nenhuma função além de divertir e entreter. No entanto, há algumas décadas os psicólogos começaram a se perguntar se realmente essa posição era correta. É por isso que foram vários os psicólogos educacionais que estudaram em detalhes a relação que existe entre a brincadeira e o desenvolvimento infantil.

Um aspecto essencial a ser entendido, e que pode nos deixar chocados, é que em uma perspectiva evolutiva sempre podemos encontrar mais razões do que o puro prazer de realizar ações que apreciamos. Ou seja, a partir dessa perspectiva e ignorando patologias, se alguma coisa gera prazer é porque é evolutivamente útil. Portanto, segundo esse raciocínio, a brincadeira deve ter alguma função ou utilidade. Além disso, os estudos mostram que uma limitação muito restritiva das horas de brincadeira na infância está associada a adultos pouco adaptados.

Para responder à pergunta de como se relacionam a brincadeira e o desenvolvimento infantil precisamos abrir nossas mentes a diferentes teorias; díspares se as compararmos em relação à evidência que as apoia. No entanto, se queremos entender o complexo papel que a brincadeira tem no nosso desenvolvimento, devemos adotar uma perspectiva ampla e observar todos os dados disponíveis.

Crianças brincando ao ar livre

Perspectivas teóricas sobre a brincadeira e o desenvolvimento infantil

Um dos primeiros autores que estudou esse tema foi Karl Grooss. Ele via a brincadeira como um pré-exercício. Este seria necessário para alcançar a maturidade psico-fisiológica como um fenômeno ligado ao crescimento. A brincadeira consistiria em um exercício preparatório para o desenvolvimento de certas funções. As brincadeiras motoras facilitariam o desenvolvimento físico, ao passo que as brincadeiras psicológicas preparariam a criança para a vida social. Além disso, como a brincadeira se desenvolve em um ambiente seguro, a criança pode treinar várias habilidades sem correr nenhum tipo de risco.

Um ponto de vista totalmente diferente é o de Freud. Para a psicanálise, a brincadeira estaria intimamente vinculada com a expressão das pulsões inconscientes. Isso permitiria ao ser humano satisfazer seus desejos insatisfeitos na realidade. Essa perspectiva teórica, embora possa parecer atraente, conta com pouca evidência científica que a apoie e, além disso, viola o princípio de parcimônia pelo qual a ciência é regida.

Criança brincando

Para Vygotsky, a brincadeira é uma atividade social na qual o aspecto principal é a cooperação entre os participantes. Graças a essa cooperação, cada um dos participantes aprende a assumir um papel (adoção de papéis); aspecto essencial na vida adulta. Vygotsky se concentrou exclusivamente na brincadeira simbólica e salientou como os objetos recebem significado dentro da própria brincadeira (um bastão entre as pernas pode se transformar num cavalo, por exemplo). Vemos nele uma perspectiva sócio-construtivista, baseada no fato de que a função primordial da brincadeira para ele é aprender a partilhar funções e significados.

Outro autor que teorizou acerca da brincadeira foi Jerome Bruner. Segundo seu ponto de vista, a brincadeira estaria vinculada à imaturidade com a qual os seres humanos nascem. Isso faz com que as pessoas possam provocar uma série de condutas muito variadas que nos proporcionam uma adaptação muito flexível. A brincadeira seria útil para experimentar todas essas condutas e descobrir sua adaptação em relação ao contexto cultural-ambiental. Ao realizar isso em um contexto lúdico, a pessoa está livre de pressões e pode experimentar minimizando as consequências negativas.

Piaget, um dos grandes psicólogos do desenvolvimento, também falou sobre as brincadeiras. Sua visão é que a brincadeira não é uma conduta diferente das atividades não lúdicas. Para ele, a brincadeira seria uma ação adaptativa com a qual a criança aprende características da realidade e, de certa forma, as controla. Isso está extremamente relacionado com os conceitos de assimilação e acomodação que Piaget desenvolveu.

A importância da brincadeira

Apesar de existir uma série de pontos de vista sobre a função da brincadeira, está claro que é uma atividade importante dentro do âmbito do desenvolvimento infantil. Além disso, um aspecto relevante é que as diferentes perspectivas não são incompatíveis entre elas. A relação entre a brincadeira e o desenvolvimento infantil pode ser múltipla e enriquecedora.

A brincadeira e o desenvolvimento infantil

Agora que conhecemos as diferentes possibilidades sobre a brincadeira, podemos imaginar a relevância dessa atividade. Se a brincadeira não existir na vida da criança, pode afetar o desenvolvimento físico, psicológico e social dela. Por isso, é essencial que as atividades lúdicas (sem pressão e com uma enorme motivação intrínseca) estejam presentes no dia a dia das nossas crianças.

Uma educação baseada na brincadeira vai proporcionar as oportunidades necessárias para crescer em todos os sentidos. Nesse sentido, não vamos cometer o erro de trocar a brincadeira por atividades intelectuais ou cognitivas que consideramos potencialmente mais enriquecedoras. A verdade é que, sem a brincadeira, o desenvolvimento cognitivo e intelectual será prejudicado. Não vamos nos esquecer de que antes de nascer já estamos crescendo, nos desenvolvendo e que, para que depois do nascimento continue sendo assim, a brincadeira é imprescindível, como inclinação natural e prazerosa que é.

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