Romper com a linhagem materna é, às vezes, o preço para ser autêntica

Romper com a linhagem materna é, às vezes, o preço para ser autêntica

novembro 21, 2016 em Psicologia 331 Compartilhados
Romper com a linhagem materna pode ser o preço para ser autêntica

Romper com a essência patriarcal do legado emocional que a linhagem materna nos proporciona é, às vezes, o preço que temos que pagar para alcançar a autenticidade e liberdade que tanto desejamos.

Existe uma premissa indiscutível que guia nossas vidas, e ela afirma que cada filha leva consigo a sua mãe. É um vínculo eterno que nunca poderemos apagar, sempre conteremos algo de nossas mães. Por isso, é indispensável purificar e limpar aquelas dificuldades que foram criadas desde criança e da influência materna em nossa história passada e presente.

É um processo complicado, uma dura experiência que significa perceber que estamos mergulhadas de maneira inconsciente em um legado que perpetua a dependência através de uma reprodução baseada em crenças educativas antigas.

É um sentimento comovente porque o desejo de se desligar vai unido à necessidade de cuidado e à ideia de que a pessoa que lhe proporcionou as maiores experiências afetivas e encare seu empoderamento como uma perda própria. Por necessidade humana (ou melhor, educativa) as mães às vezes procuram moldar e adequar suas filhas mulheres longe da essência da individualidade.

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Esse não é um processo habitual ou uma necessidade consciente. A mãe, na sua herança de mulher, pode sentir que a vida da filha será mais fácil se for menos complexa e intensa. Por isso promove que sua essência feminina se molde às qualidades que a “cultura do patriarcado” imagina como atrativas.

Rótulos sutis como “a rebelde”, “a solitária”, “a boa menina” apenas transmitem uma mensagem: “você não deve crescer para ser amada”. Nesse ponto é preciso estar consciente e tratar essa essência, ainda que isso signifique uma desvinculação que em parte é agressiva e, por fim, dolorosa.

O patriarcado está se enfraquecendo cada vez mais, por que geração após geração a força feminina se faz presente, urgente e necessária. De alguma maneira no inconsciente coletivo está se fortalecendo a necessidade da mulher de ser autêntica.

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O desejo de ser autêntica e a saudade da mãe

Bethany Webster sintetizou esse processo de autenticação de que falamos de uma maneira mais certeira. Em seu texto, podemos entender quais são os pontos de apoio para começar a iniciar esse processo.

“Trata-se de um dilema para as filhas criadas dentro do sistema patriarcal. O desejo de ser você mesma e o desejo de ser cuidada se convertem em necessidades que competem entre si; parece que temos que escolher entre uma das duas. Isso acontece porque seu empoderamento está limitado na medida em que sua mãe internalizou as crenças patriarcais e espera que você as aceite.”

A pressão da sua mãe para que você não cresça depende principalmente de dois fatores:

1) O grau em que ela internalizou as crenças patriarcais limitantes da sua própria mãe.

2) O alcance das suas próprias carências por estar divorciada do seu eu verdadeiro. Essas duas coisas mutilam a capacidade da mãe de iniciar sua filha na sua própria vida.

O custo de se transformar em um ser autêntico muitas vezes implica um certo grau de “ruptura” com a linhagem materna. Quando isso acontece, rompem-se os elos patriarcais da corrente materna, algo essencial para uma vida adulta saudável e poderosa. Em geral isso se manifesta na forma de dor ou de conflito com a mãe.

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A rupturas com a linhagem materna podem ser adotadas de diferentes formas: desde conflitos e desacordos até o distanciamento e o desapego. É uma viagem pessoal e é diferente para cada mulher. Basicamente, a ruptura serve para a transformação e para a cura. Faz parte do impulso evolutivo do despertar feminino para empoderar-se com mais consciência. É o nascimento da “mãe não patriarcal” e o começo da verdadeira liberdade e individualização.

Por um lado, nas relações mãe/filha mais saudáveis a ruptura pode provocar um conflito, mas na realidade serve para fortalecer o vínculo e torná-lo mais autêntico. Por outro lado, nas relações mãe/filha agressivas e menos saudáveis, a ruptura pode desencadear feridas não curáveis na mãe, e fazer com que ela invista contra a sua filha e a repudie. E em muitos casos, infelizmente, a única opção da filha será manter distância indefinidamente para conservar o seu próprio bem-estar emocional.

Dessa forma, ao invés de se enxergar como o resultado do seu desejo de crescimento, a mãe pode sentir seu afastamento/ruptura como uma ameaça, um ataque pessoal e direto contra ela, uma rejeição a quem ela é. Diante dessa situação, pode ser triste constatar que seu desejo de empoderamento ou de crescimento pessoal pode fazer com que sua mãe, cegamente, a veja como uma inimiga. Nessas situações podemos ver o alto preço do patriarcado nas relações mãe/filha.

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“Não posso ser feliz se minha mãe não é feliz”. Isso alguma vez fez sentido?

A crença de que não podemos ser felizes se nossa mãe é infeliz por termos nossas próprias crenças é uma herança do patriarcado. Quando renunciamos ao nosso próprio bem-estar pelo das nossas mães impedimos uma parte imprescindível do processo que tentamos concretizar.

Temos que chorar a ferida em nossa linhagem materna porque o fato de não fazê-lo provoca um alto grau de sufocamento. Por mais que tentemos não agir assim, uma filha não pode curar a sua mãe, porque cada uma tem a responsabilidade sobre si mesma. Por isso é necessário romper e buscar um equilíbrio, o qual apenas é possível se alteramos os padrões patriarcais e não nos entregamos à cumplicidade de uma paz superficial.

É preciso ser muito forte para iniciar esse processo de desvinculação mas, assim como afirma Bethany Webster, deixar que nossas mães sejam seres individuais nos liberta como filhas e como mulheres para sermos seres individuais. Não é nobre carregar a dor dos outros, não é um dever que temos que assumir como mulheres, e não devemos nos sentir culpadas quando não assumimos essa função.

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O papel de cuidadora emocional que se emprega às mulheres é um papel que faz parte do legado dessa opressão. Por isso devemos compreender que isso é fictício se não obedece às nossas necessidades explícitas. Manter essa perspectiva nos ajudará a deixar de lado a culpa para que ela não nos controle.

As expectativas do mundo sobre nós podem chegar a ser muito cruéis. Na verdade, na minha opinião, constituem um verdadeiro veneno que nos obriga a esquecer nossa individualidade. É hora de abrir espaço.

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