Roxane Gay: quando a comida serve para curar a alma

Roxane Gay: quando a comida serve para curar a alma

junho 23, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Roxane Gay: quando a comida serve para curar a alma

Dizem que algumas circunstâncias na vida podem modificar uma pessoa para sempre. Porque, quando alguém usa o seu corpo e rouba a sua intimidade, faz você perder uma parte da sua identidade. É isso que aconteceu com Roxane Gay, que começou a odiar tanto a si mesma e o seu corpo, que usou a comida como abrigo diante da dor de um estupro.

A vida de Roxane Gay mudou totalmente quando ela tinha somente 12 anos e foi vítima de um estupro coletivo. O rapaz que era seu namorado a levou a um bosque e, juntamente com um grupo de amigos, a estupraram várias vezes. Morta de medo e sentindo muita culpa por ter confiado na pessoa que amava como uma ingênua, ela começou a se odiar e sentir nojo do seu próprio corpo.

“Na minha história de violência houve um rapaz. Eu o amava. Ele se chamava Christopher. Na realidade, ele não se chamava assim, mas eu não preciso lhes dizer isso. Christopher e vários amigos me estupraram no bosque, em uma cabana de caça abandonada, onde ninguém, a não ser aqueles rapazes, podiam escutar os meus gritos”.
– Roxane Gay –

Mulher angustiada

Roxane Gay e a comida como defesa diante do estupro

Este ódio e o medo de sofrer de novo um estupro a levaram a utilizar a comida como cura para as feridas da sua alma. Ela escolheu comer para se anular diante do mundo. A comida se transformou em sua defesa e na sua rota de fuga diante da dor.

Roxane sabia que as mulheres são estupradas só pelo fato de serem mulheres. Ela sabia que praticamente não existe nada que nós possamos fazer para evitar ser a presa de um animal, ou de animais que acreditam ser os donos de nossos corpos. Ela não podia fazer nada, exceto uma coisa: se tornar algo tão repulsivo, que nenhum homem fosse capaz de gostar dela ou tocá-la novamente.

“Sabia que eu não seria capaz de suportar outro estupro como aquele, de modo que comi porque pensei que, se o meu corpo se tornasse repulsivo, poderia manter os homens longe, seria mais desprezível, e já conhecia muito bem o seu desprezo”.
– Roxane Gay –

Sua ideia, essa ideia que ensinam às mulheres desde meninas, é a de que não devemos ocupar espaço. As mulheres devem ser magras e bonitas para agradar a vista e, especialmente, os homens na nossa sociedade. Não vamos esquecer que a televisão, as revistas e tudo o que consumimos nos envia a mensagem de que estar magro é um valor social, que fará as pessoas nos aceitarem e gostarem mais de nós.

Isto a levou a pesar 261 quilos, que a conduziram a uma cirurgia bariátrica para tentar salvar a sua vida. O seu corpo se transformou em uma prisão, onde ela guardou o ódio que sentia por si mesma. O silêncio diante do estupro foi o começo desta espiral de autodestruição que a mergulhou nas garras de uma compulsão alimentar.

Aprenda a se amar além do que a sociedade diz sobre o seu corpo

Na atualidade, Roxane Gay é uma importante escritora, colunista, professora universitária e feminista americana. Ela aprendeu a valorizar o seu corpo da forma como ele é. Agora ela sabe se amar muito além do que a sociedade, ou os meios de comunicação, dizem sobre o seu corpo.

“Fui capaz de admitir que me amo, apesar do aborrecimento de suspeitar que não deveria me amar”.
– Roxane Gay –

Amor próprio

Em seu livro “Fome, Memórias do meu Corpo”, ela rompe o seu silêncio e incentiva o resto das mulheres a fazer o mesmo. Roxane ensina como deixou de se odiar, porque aprendeu que aquilo que aconteceu não foi culpa dela. Ela aprendeu a se amar da forma como ela é. A comida já não domina a sua vida, é ela mesma quem a conduz, sem deixar que o seu passado marque os seus passos.

Roxane é uma “sobrevivente”, ela não se considera uma vítima. Contando a sua verdade, sua vivência e a relação com o seu corpo, ela não quer provocar pena. Ela quer que o silêncio que nós acatamos quando estupram o nosso corpo se rompa, e ensina a nos amarmos muito além da nossa aparência. Ela ensina que, apesar de muitas coisas acontecerem em nossas vidas, somos nós as que decidimos como vivê-la, não somos culpadas, nem responsáveis diante de um estupro, e o ódio por nós mesmas nunca é a saída.

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