Invasão do espaço pessoal: quando invadem nossa intimidade

· janeiro 19, 2018

O espaço pessoal é um território privado, íntimo e exclusivo que não diz respeito a ninguém além de nós. Não deveria jamais haver invasão do espaço pessoal, seja nosso ou do outro. Isso não diz respeito apenas a nossas questões físicas, mas também a outras questões menos palpáveis que podem sofrer invasões. Falamos de coisas como ruídos excessivos, as emoções que os outros nos transmitem, ou a sobrecarga de informação e as constantes interrupções que sofremos em nossos momentos de solidão ou intimidade.

Frequentemente dizemos que há pessoas por aí afora que são delicadas como elefantes: um elefante incomoda muita gente. Seja ocupando espaços alheios, pisoteando direitos ou invadindo privacidades. Isso costuma acontecer bastante em nossos ambientes de trabalho, o que afeta sem dúvida nossa produtividade ao gerar um alto nível de estresse e mal-estar.

As pessoas precisam de um espaço pessoal seguro para se sentirem protegidas, para a redução do estresse e para não se sentirem sufocadas.

Agora, há alguns aspectos que não podem ser deixados de lado. O espaço pessoal não faz referência somente aos centímetros que toleramos que os outros se posicionem perto de nós fisicamente, a aquela proximidade em que a voz, o cheiro e o calor corporal do outro se tornam incômodos ou até insuportáveis. É também uma bolha que pode estourar diante de qualquer tipo de estimulação psicossensorial, ocorrendo aí também a invasão do espaço pessoal.

Ou seja, aspectos como a mobília, a decoração, a falta de iluminação, ou o cheiro de um determinado ambiente também podem ser um foco de produção de estresse. Outros exemplos seriam não poder ter um intervalo de tempo para si mesmo, ou ser vigiado e controlado. Todas essas situações são claros momentos de invasão do espaço pessoal.

Labirinto com rosa vermelha no meio

A invasão do espaço pessoal e o estresse

Ana e Paulo acabaram de ser pais e se sentem esgotados. O estresse que experimentam não tem nada a ver com seu bebê, mas sim com seu entorno, sua família, amigos e colegas de trabalho. Já no hospital, viram o seu espaço pessoal continuamente invadido por essas pessoas, sempre se mantendo perto e animadas. Com toda a boa intenção do mundo faziam turnos para ver o recém-nascido, pegá-lo nos braços e dar mil conselhos aos pais de primeira viagem.

Nesse pequeno exemplo é possível ver como nosso entorno cruza muitas vezes o espaço que delimita a nossa bolha pessoal, que necessitamos preservar apenas para nós mesmos. Não estamos falando só de entrar em um elevador lotado de gente para experimentar um incômodo, mas também das frequentes agressões mais graves que são resultado das ações até mesmo das nossas pessoas mais queridas e próximas. Surge daí a necessidade de colocar limites.

Desse modo, as queixas que chegam aos consultórios dos psicólogos são, com frequência, reflexo justamente dessa realidade. Há pessoas que passaram metade de suas vidas sentindo-se incapazes de proteger seu espaço pessoal. Essa incapacidade para gerir as próprias fronteiras pessoais gera um altíssimo custo emocional, pois debilita por completo as bases mais profundas de nossa arquitetura psicológica.

Levemos em consideração, por exemplo, que o fato de definir, limitar e proteger nosso espaço pessoal é uma chave muito importante para a sobrevivência. É, além disso, um exercício de autoconhecimento para entender que todos temos nossas barreiras proibidas, linhas que ninguém deve ultrapassar porque é ali que está a nossa autoestima, ali onde está nosso equilíbrio e nossa valiosa identidade.

Mulher protegendo seu espaço pessoal

Cuide de você e proteja seu espaço pessoal

Ralph Adolph e Daniel P. Kennedy, neurologistas da Universidade de Caltech nos Estados Unidos, descobriram que há uma estrutura em nosso cérebro que se encarrega de decidir onde estão os limites de nossos espaços pessoais. Trata-se da amígdala, essa pequena região associada a tantas funções, dentre elas o medo e nosso instinto de sobrevivência.

Essa descoberta é, sem dúvida, muito interessante, e nos revela algo muito importante: é nosso cérebro quem mede os limites pessoais de cada um. É como um botão, um alarme pessoal que nos indica que algo ou alguém nos incomoda, que está ocorrendo uma invasão do espaço pessoal e de nossa intimidade, que coloca em perigo nossa integridade até que nos sintamos ameaçados. Cabe dizer, além disso, que os limites são diferentes para cada pessoa. Há quem experimente a sensação de agonia e estresse com muito pouco, enquanto outros, em troca, têm uma tolerância muito maior.

Por sua vez, a proxêmica, ciência que estuda os efeitos de nossas inter-relações no uso do espaço, nos lembra de que uma de nossas maiores fontes de ansiedade é perceber como a cada dia nos sentimos mais sobrecarregados em todos os sentidos. Não só temos menos espaço físico para seja o que for, agora recebemos também muitos estímulos de todos os lados, tantas pressões e interações que fica difícil colocar filtros para tudo. Deixamos que tudo chegue a nós, mas isso nos cerca e nos aprisiona… 

Mulher com a cabeça em cilindro transparente

Devemos ser capazes de gerir nossos limites pessoais. Falamos aqui de aprender a situar distâncias físicas e também psicológicas a todas as dinâmicas externas e relações que podem potencialmente atacar nossa intimidade e que se tornam, desse modo, poderosas fontes de estresse para nossas vidas. Às vezes são nossos colegas de trabalhos, outras vezes um ambiente barulhento além do que damos conta, muito cheio, apertado, quente ou qualquer coisa que o torne opressor.

Em outras ocasiões, é nossa clara incapacidade de dizer não, de saber e deixar claro o que podemos tolerar e o que não podemos. Ser explícitos na hora de mostrar onde estão nossos limites pessoais nos ajudará a ter relações muito melhores entre nós, porque só assim criaremos a nossa volta ambientes sociais mais respeitosos, produtivos e, antes de tudo, saudáveis.