Sociedade consumista: sair para fazer compras é um lazer

Sair para fazer compras só é lazer em uma sociedade consumista

Janeiro 12, 2018 em Psicologia 94 Compartilhados
Sociedade consumista

Fazer compras tornou-se uma espécie de programa de lazer, diversão ou entretenimento para muitas pessoas. Uma realidade como esta só foi possível de ser construída após no contexto de uma sociedade consumista. Não foi sempre assim. Antes, fazer compras era uma questão de necessidade e abastecimento, fazendo parte da rotina apenas para o funcionamento normal da vida. Hoje em dia, no entanto, entrar de loja em loja é um ritual de relaxamento para muitos, que dissipa outros problemas, reconstitui o humor ou até mesmo um tipo de terapia.

Não foram os gostos ou as preferências pessoais das pessoas que deram origem a esse prazer em fazer compras. Foi exatamente o contrário: as novas formas de economia e de mercado originaram novos gostos e preferências na forma de aproveitar o tempo livre. A publicidade também tem muita influência nesse hábito, que torna os produtos supérfluos em questões de necessidade.

“Quem compra o supérfluo, logo terá que vender o necessário.”
-Benjamín Franklin-

Antes os supermercados estavam organizados de modo que o cliente encontraria facilmente o que buscava e pronto. Agora transformaram-se em monumentos de arquitetura, com todo um conjunto de comodidades e possibilidades para divertir-se. Basicamente funcionam como enormes centros de entretenimento e viraram pontos de referência social.

Fazer compras: positivo ou negativo?

É um fato que vivemos em uma sociedade consumista e que todos participamos em algum nível para que essa dinâmica se mantenha. Outro fato é que por mais austeros que sejamos, comprar algo nos traz algum tipo de satisfação. Além da necessidade que temos eventualmente de comprar alguma coisa, comprar também nos proporciona uma sensação de poder e abundância que é difícil de ser alcançada com outras atividades.

Pessoas com sacolas de compras

Há pesquisas que provam que o cérebro se sente beneficiado no contexto de fazer compras. Esse fenômeno foi observado em uma pesquisa da Universidade de Brunel. Ver algo que você gosta, observar, pegá-lo e comprar ativa algumas zonas cerebrais que liberam dopamina. O estado de ânimo melhora e nos sentimos mais felizes com esse neurotransmissor. Essa relação já foi comprovada.

Por outro lado, o cérebro também reage desse mesmo modo mediante outros estímulos. O estado de ânimo também melhora quando fazemos algum esporte ou alguma atividade gratificante como dançar. O mesmo acontece se alguém te faz um elogio que você avalia como sincero, ou se você fica imerso em uma leitura. O mercado, no entanto, tratou de estereotipar a satisfação, para torná-la sinônimo de shoppings centers – que é o que interessa ao mercado de uma sociedade consumista.

Não há nada de terrível em fazer compras de modo consciente e responsável. Precisamos de algumas coisas para viver em conforto, então é positivo buscá-las. As dificuldades surgem se o passeio ao shopping tem como objetivo ser uma fuga de uma sensação de mal-estar que poderia ser gerida de outro modo. Nesses casos, as compras ajudam sim a melhorar o estado de ânimo por meio da ativação da dopamina, como falamos. Mas contribuem apenas para encobrir o problema, e, pior ainda, criar outro.

Pense que o mal-estar poderia passar enquanto está vendo vitrines, entrando e saindo dos provadores ou imaginando quando estreará a roupa enquanto está pagando por ela. Mas… como você se sentirá depois que esses breves momentos passarem, melhor ou pior que antes?

Na sociedade consumista, fazer compras ajuda a fugir da tristeza

Tornou-se frequente no nosso contexto consumista escutar as pessoas dizendo que vão fazer comprar porque estão deprimidas e precisam melhorar um pouco seu ânimo. Que fazer compras é a sua terapia para esquecer os problemas. Os shoppings se tornaram um lugar para esquecer da vida e apaziguar corações oprimidos. Adquirir produtos nos ajuda a esquecer que somos limitados, finitos e problemáticos.

Mulher compradora compulsiva

Com todas essas questões não é raro que alguém concentre todo seu tempo livre em visitar shoppings ou lojas. Nem é estranho que experimentem uma onda de frustração quando não podem realizar esse seu pequeno passatempo, ou que trabalhem mais para poder ter o dinheiro necessário para manter esse estilo de vida muito elevado.

O complemento perfeito para esse esquema são os cartões de crédito. Há apenas uma década atrás, os cartões de crédito eram utilizados por pessoas que possuíam negócios ou com muitos ganhos. Agora qualquer banco oferece um cartão a qualquer momento, o que facilita ao máximo esse fluxo de compras irreal. O cartão elimina barreiras na hora de comprar porque enquanto você compra, não vê o que está gastando. Saímos da loja endividados, mas ignorantes e felizes.

Sem se dar conta, a vida é empobrecida e perde em muitos sentidos. Boa parte dos ganhos termina perdido pagando as dívidas dos meses anteriores no cartão. Além disso, fica difícil aproveitar outros prazeres.

Deixamos de encontrar satisfação em atividades gratuitas, que não impliquem nenhuma transação. Sem saber como, entregamos o controle para os profissionais do marketing. No fim das contas, é você quem paga: o que comprou, o que deixou de viver e as consequências dos conflitos que não foram resolvidos e que tentamos colocar para baixo do tapete por meio de gastanças de dinheiro e recursos em um monte de coisa que não precisamos.

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