Salário e saúde mental: o custo psicológico da precariedade

Não conseguir arcar com as despesas no final do mês não tem apenas um custo financeiro, mas também um impacto mental devastador. A insegurança no trabalho está deixando milhares de vítimas em seu rastro.
Salário e saúde mental: o custo psicológico da precariedade

Última atualização: 13 Outubro, 2021

Existem muitos motivos pelos quais uma pessoa fica deprimida e, no pior dos casos, opta pelo suicídio. Porém, um deles é conhecido, evidente e se arrasta silenciosamente pelos alicerces da nossa sociedade: estamos falando de precariedade. Salário e saúde mental estão diretamente relacionados e são tão devastadores que muitos dos distúrbios psicológicos atuais têm essa origem.

Muitas vezes, quando falamos em saúde mental, o foco está exclusivamente na própria pessoa. Colocamos sobre seus ombros a responsabilidade de cuidar do seu bem-estar psicológico. Não hesitamos em pedir que “leve as coisas de forma diferente” e que “se anime e o melhor virá”. Esquecemos que o ser humano faz parte de um contexto ao qual não é alheio.

Somos afetados pelos nossos relacionamentos, experiências que não estão sob o nosso controle e situações sociais às quais é difícil nos adaptarmos. Assim, às vezes, a precariedade no emprego pode ser mais perigosa para a saúde mental do que o próprio desemprego. Saber que, independentemente do número de horas que passarmos trabalhando por dia, não conseguiremos pagar as contas no final do mês, aumenta a ansiedade a níveis exorbitantes.

À própria precariedade somam-se a temporalidade e a incerteza constante por não sabermos se manteremos ou não aquele emprego amanhã. Como podemos imaginar, o panorama atual – somado a tantos outros fatores – desenha um horizonte pouco propício para a tão almejada autorrealização que nos prometeram quando crianças.

“A liberdade sem oportunidades é um presente demoníaco, e recusar-se a dar essas oportunidades é um crime.”
-Noam Chomsky-

Mulher triste e apática

Como salário e saúde mental estão relacionados?

Entre 1990 e 2015, a Emory University (Estados Unidos) realizou um estudo revelador sobre a relação entre salário e saúde mental. Nesse trabalho, foi possível perceber que, ao longo desses 25 anos, cada vez que um novo reajuste do salário mínimo era estabelecido a taxa de suicídio caía entre 3,4% e 5,9%.

Esses dados foram especialmente significativos entre o setor da população mais jovem. Porque essa é outra evidência: são os mais jovens que sofrem o impacto do desemprego e, principalmente, do emprego precário. A falta de perspectivas, visto que todo esforço feito não tem recompensa e, sobretudo, perder a esperança antes que a situação mude ou melhore, leva a pessoa a um beco sem saída.

A roda do hamster: exaustão sem sentido ou fim

Muitos se percebem como um pequeno hamster correndo em uma roda sem que nada mude. Os baixos salários não permitem pagar as despesas ou satisfazer as suas necessidades básicas. No entanto, o esforço necessário para esses trabalhos é alto e não reconhecido. Manter esse estilo de vida leva, em muitos casos, a problemas de saúde, tanto físicos quanto mentais:

  • Estresse crônico
  • Problemas de insônia.
  • Problemas musculoesqueléticos.
  • Alterações na alimentação.
  • Dores de cabeça
  • Aumento da irritabilidade
  • Sedentarismo.
  • Falta de tempo para lazer e descanso.
  • Parar de gostar das tarefas que antes eram significativas.
  • A socialização é reduzida.
  • Grandes problemas e discussões entre casais e famílias.
  • Negatividade e falta de esperança.
  • Maior risco de desenvolver vícios comportamentais (jogos, sexo online…) ou em substâncias.
  • Transtornos do humor: depressão e ansiedade.

No inquérito sobre as condições de segurança e saúde no trabalho da população assalariada deste ano, também se pôde constatar outro dado revelador que nos convida à reflexão: 74% das pessoas cujo salário não cobre suas necessidades básicas correm um risco muito alto de sofrer de problemas de saúde mental.

A pessoa precariamente empregada se apega desesperadamente a um emprego temporário após o outro para sobreviver. Ela se sente presa em uma roda sem fim, dominada pela frustração, desesperança e também por um claro ressentimento da própria sociedade que a decepcionou.

Salário e saúde mental, um problema de justiça social

Não falamos o suficiente sobre a relação entre salário e saúde mental. Esse problema de justiça social está tirando a saúde – e também a vida – de milhares de pessoas a cada ano. O impacto de ter um salário baixo impede a satisfação das necessidades mais básicas das quais falou Abraham Maslow em sua famosa pirâmide.

Você não pode se sentir seguro, não tem recursos, em muitos casos não tem casa e o bem-estar físico e psicológico vai e vem de acordo com as estações. Essa instabilidade se torna crônica; não dá para pagar dívidas nem fazer planos de médio e longo prazo.

A pessoa está limitada a “viver o dia a dia”, muitas vezes atormentada por sentimentos de vergonha e desesperança que alimentam o desamparo e a negatividade.

A falta de trabalho e mais ainda, a precariedade, fazem com que mais cedo ou mais tarde apareça a ideia de inutilidade e a falta de sentido na vida. Nesse ponto, você chega à beira de um abismo que é tão perigoso quanto alarmante.

Homem chateado

Qual é a solução para o problema?

Não pode haver saúde (nem física nem mental) sem salários decentes. O salário é importante, o dinheiro oferece bem-estar e garante uma melhor qualidade de vida à população. É necessário não apenas aumentar as oportunidades de trabalho, mas também promover uma remuneração adequada que permita cobrir necessidades básicas como o pagamento de uma moradia.

Caso prevaleça esta situação conjuntural, veremos um aumento dos problemas psicológicos entre os mais jovens, sem perspectiva de futuro e de autorrealização. São pessoas que, a certa altura, não hesitarão em assumir que a sociedade simplesmente se esqueceu delas… E talvez seja verdade.

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