Scarlett O'Hara: uma mulher indestrutível

Scarlett O'Hara é uma das personagens da história do cinema que ficou gravada em nossas retinas. Apesar do passar do tempo, ela não poderia ser mais atual. Neste artigo, nos aproximamos de alguns dos aspectos mais interessantes da eterna protagonista de 'E o Vento Levou'.
Scarlett O'Hara: uma mulher indestrutível

Última atualização: 07 Maio, 2021

A estreia de E o Vento Levou (Victor Fleming, 1939) foi um evento histórico e cultural. Numa época em que a televisão estava nos primeiros estágios de desenvolvimento, o cinema conquistava o povo. Se a isso adicionarmos uma produção caríssima, um rosto tão conhecido como o de Clark Gable, as roupas únicas de Scarlett O’Hara e uma promoção nunca vista em sua época, o resultado é extraordinário.

O interesse despertado foi tanto que, em Atlanta, foram organizados um desfile, danças e inúmeros eventos para comemorar a estreia do filme. O estado da Geórgia virou de cabeça para baixo com as festividades, e o dia da sua estreia, em 15 de dezembro de 1939, foi declarado feriado estadual. Assim, E o Vento Levou começou a construir um mito que levaria a um total de 10 Oscars. Em suma, um acontecimento cinematográfico nunca visto e irrepetível.

Embora o filme ainda seja um clássico e seu impacto tenha sido estudado sob várias perspectivas, a verdade é que os valores que transmite estão bastante desatualizados. A imagem que nos dá dos personagens negros – totalmente estereotipados – da escravidão e os valores da época não têm hoje a mesma profundidade. Mas E o Vento Levou não é apenas um filme de 1939, ele se passa no século XIX.

Se há uma personagem que, do meu ponto de vista, merece ser resgatada e é bastante atemporal, esta não é outra senão a excepcional Scarlett O’Hara, interpretada por Vivien Leigh. Scarlett é uma das personagens femininas mais lembradas da história do cinema. Como esquecer o vestido de cortina deslumbrante? Como esquecer seu amor desordenado por Ashley Wilkes e seu relacionamento com Rhett Butler?

Nem heroína nem dama em apuros

A magnitude do filme e a sua duração – nada menos que 4 horas – nos permitem testemunhar a evolução de uma personagem sem precedentes. Scarlett O’Hara se apresenta como uma jovem vaidosa e egoísta, ciente da sua beleza e da sua capacidade de conseguir o que deseja. Ela viveu uma vida rica, mas não está satisfeita com o papel que a sociedade lhe deu.

Tanto na novela homônima quanto no filme, Scarlett rompe com todos os moldes de sua época. Ela não é submissa, não se deixa manipular pelos homens e nem quer viver à sombra deles. Ela não é uma heroína, pois seus valores estão longe do que ditava a moral da época; ela é interessada e muito egoísta, mas também não é uma “senhora em perigo” à procura de um homem para resgatá-la. Diante das adversidades, Scarlett O’Hara é uma mulher forte, determinada e capaz de sustentar a sua família.

É irreverente, nem mesmo o luto pode saciar seus desejos e sua ânsia de diversão como qualquer homem faria. Quando o feminismo ainda não era comentado, quando as mulheres eram relegadas ao lar, Scarlett O’Hara mostrava que podia fazer qualquer coisa, que nada a impediria e que nenhum homem estava acima dela. Ela não é simpática, nem cativante e não quer ser; pelo contrário, é arrogante, irreverente e muito independente. Nem mesmo a guerra pode derrotá-la.

Scarlett O'Hara em cena

As intenções de Scarlett são egoístas. Nós a conhecemos apaixonada – quase obcecada – por Ashley Wilkes, o homem que vai se casar com sua prima Melanie. Melanie é o oposto de Scarlett; ela é ingênua, meiga e angelical, tanto que, às vezes, gostaríamos de acordá-la daquele sonho maravilhoso em que parece viver. Ele não acredita na maldade e não consegue ver que Scarlett, na realidade, não sente nenhuma compaixão por ninguém e pouco se importa em romper um casamento.

Essa relação com Melanie será uma constante ao longo do filme. Paralelamente, outro triângulo amoroso começará a tomar forma a partir da introdução de Rhett Butler. Scarlett gosta do impossível, então ela se apaixona por Ashley, enquanto Butler, um empresário de moralidade duvidosa, ficará fascinado pela jovem indisciplinada. No entanto, a guerra vai entrar em suas vidas, quebrando o conforto de Scarlett e sua família.

Diante do perigo, é ela quem toma as rédeas, quem consegue ressuscitar sua amada Tara – a plantação da família. Sem Scarlett, a maioria dos personagens que a acompanham não teria sobrevivido. Casamento após casamento, ela fica viúva, algo que teria sido devastador para uma mulher de sua época, mas Scarlett é uma incorrigível e sempre consegue progredir. Ela se torna uma empresária em um mundo dominado por homens e, como a fênix, consegue ressurgir de suas cinzas repetidas vezes.

Scarlett O’Hara: uma mulher diferente

Sim, Scarlett O’Hara é diferente, ela é uma mulher que se destaca em sua época – fictícia e real. O cinema nos deu inúmeras mulheres “domesticadas”, obedientes, que seguem o exemplo do que uma mulher “deve ser”. Mulheres devotadas aos filhos e maridos que parecem não ter maiores aspirações na vida. Pelo contrário, a protagonista de E o Vento Levou permanece como a verdadeira rainha da sua história, os homens e o resto das histórias giram em torno dela.

Ela está muito longe de ser uma boa mãe e uma boa esposa, seus casamentos e praticamente todas as suas ações são movidas por seus próprios interesses. Scarlett O’Hara deve se conformar, como pode, com um mundo dominado por homens. Rhett Butler é um oportunista, algo que não é um mistério para Scarlett, mas se ele é um oportunista, ela também pode ser. Podemos fazer uma leitura desse personagem a partir da ambição que move suas ações, mas sua complexidade é infinitamente maior.

Às vezes, vemos que ela pode se tornar compassiva, que é protetora com seus entes queridos e que ousa “vestir as calças” da casa para tomar as decisões importantes. Já Melanie, apesar da sua ingenuidade, é bastante intelectual, mas acima de tudo gentil. Ela sempre será grata a Scarlett por ajudá-la a sobreviver e por ressuscitar um legado familiar que parecia condenado a desaparecer.

E o Vento Levou

A jovem Scarlett a quem fomos apresentados no início parece ter desaparecido, e entre vestidos esfarrapados obtém comida de uma terra que parecia condenada. Ela faz as pessoas ao seu redor sobreviverem e enfrenta qualquer adversidade. Nada pode impedi-la, nem mesmo a escassez. Se ela não puder ter um vestido em condições de visitar Rhett Butler e atingir seu objetivo, fará um traje para a ocasião com cortinas.

Ao longo do filme, a vemos descer do topo ao inferno, mas ela nunca permite que nada, absolutamente nada, acabe afundando-a. Seu orgulho e ambição podem mostrar frieza absoluta, mas no fundo, os golpes acabaram sendo devastadores. Scarlett O’Hara veste uma armadura que sempre a protegerá, que a manterá distante. Apenas a morte de Melanie a fará se conectar com a realidade, com a dor que isso pode ter causado e, por fim, ela saberá o valor da bondade e do amor.

Sem dúvida, Scarlett O’Hara é uma daquelas personagens que perduram no tempo, que são atemporais e que, ainda hoje, são atuais. Ela é uma personagem verdadeiramente interessante, que merece uma análise mais detalhada e aprofundada. Permite-nos ver uma evolução constante da felicidade adolescente à maturidade de uma mulher que sofreu, mas nunca foi esmagada. Podemos adorá-la, até odiá-la, mas o que está fora de dúvida é seu grande impacto. Indomável, orgulhosa, linda, sedutora… mas, acima de tudo, uma lutadora, uma verdadeira sobrevivente impossível de derrotar.

“Mesmo que eu tenha que matar, enganar ou roubar, coloco Deus como testemunha de que nunca mais vou passar fome”.
-Scarlett O’Hara, E o Vento Levou

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