Por que o senso comum é o senso “menos” comum?

novembro 6, 2019
Às vezes, o senso comum não é tão universal quanto pensamos; muitos até fazem um mau uso dele. Além disso, nem todas as pessoas têm essa capacidade de discernimento e senso de lógica que nos orienta sobre o que é mais correto em cada situação.

Descartes afirmou que o senso comum é a qualidade mais bem dividida do mundo; não há pessoa que não tenha esse dom judicioso.

O famoso matemático e filósofo entendia que essa dimensão, além das características de cada um, nos permite ter claro o que é correto, aceitável e o que se aproxima da irracionalidade.

No entanto, como Voltaire destacou em sua época, o senso comum é, na realidade, o menos comum dos sensos. O que isso significa? Basicamente, que essa unanimidade nem sempre é dada ou percebida quando se trata de entender o que é lógico ou o que é esperado em cada situação.

De alguma forma, cada um integra em seu ser seu próprio senso comum, o qual, às vezes, não corresponde com o dos outros.

Por outro lado, o mais curioso de tudo isso é que seria melhor para todos nós se pudéssemos aplicar essa simplicidade em termos de valores e princípios de ação, partindo de uma essência criteriosa e quase universal.

No entanto, às vezes, mesmo sabendo o que seria mais aceitável em cada situação, não o aplicamos; seja por negligência, por desafio, ou porque nossa mente está ocupada em outros universos complexos.

O senso comum nos diz, por exemplo, que deveríamos levar uma vida mais saudável; no entanto, nem sempre colocamos nossa saúde antes da gratificação imediata.

O senso comum geralmente nos sussurra que tal papel deveria ser jogado fora, que deveríamos reciclar mais, que não deveríamos ler mensagens no celular enquanto dirigimos ou que deveríamos compartilhar um tempo de qualidade com as pessoas que amamos. Então, se temos consciência disso, por que não fazemos o que precisa ser feito?

“O senso comum nada mais é do que um conjunto de preconceitos depositados em nossa mente antes de completarmos 18 anos”.
-Albert Einstein-

A que nos referimos quando falamos de senso comum?

A que nos referimos quando falamos de senso comum?

A psicologia diz que o senso comum é a capacidade de discernimento que toda pessoa tem (ou deveria ter). Graças a essa capacidade, é possível tomar decisões coerentes baseadas na lógica e na razão.

No entanto, o próprio Albert Einstein apontou certa vez que grande parte disso, que chamamos de senso comum, nada mais é do que um conjunto de preconceitos que outros nos transmitem.

Seja como for, esse conceito sempre busca um propósito: o bem comum. Com essa competência, tenta-se garantir que todos nós disponhamos de um senso prático que facilita a convivência, evita conflitos hostis e atua para o bem-estar de todos.

No entanto, de onde vem o senso comum? Em boa parte dos casos, ele vem não apenas do que os outros nos ensinam ou ditam, como diria Einstein. Na realidade, também vem da nossa própria experiência; do que vimos, sentimos e vivemos.

Portanto, fica claro que cada um percorreu seus próprios caminhos e experimentou eventos que nem sempre se assemelham aos dos outros. Como consequência, seu senso comum, o que é lógico para você, pode não ser para mim.

Três maneiras de entender o senso comum

Ao longo da nossa história, o conceito de senso comum foi pensado sob diversos ângulos diferentes. Entender cada um deles certamente nos ajudará a ter um pouco mais de perspectiva.

  • Aristóteles. Para o filósofo grego, o senso comum centrava-se apenas em nossas experiências sensoriais. Dessa maneira, todos nós experimentamos o mesmo quando nos deparamos com um estímulo (ver um copo quebrando, sentir o calor do fogo, ouvir o som do vento…). O senso comum, para ele, partia dos objetos sensíveis, do que podia ser percebido através dos sentidos.
  • René Descartes. Para o matemático e filósofo francês, não importa que cada pessoa venha de uma cultura diferente. Todos nós possuímos um senso comum universal com o qual julgamos e distinguimos o verdadeiro do falso, o bom do ruim.
  • A filosofia pragmatista. Este enfoque que surgiu no século 19 nos proporciona uma visão mais útil. De acordo com esse marco teórico, o senso comum parte das crenças e experiências que temos no nosso dia a dia; isto é, parte basicamente do contexto que nos rodeia. E este, como é de se esperar, pode variar de acordo com o clima e as condições que enfrentamos.
O que a psicologia nos diz sobre o senso comum?

O que a psicologia diz sobre o senso comum?

Adrian Furnham, professor de psicologia na University College London, escreveu um livro muito interessante intitulado All in the Mind: The Essence of Psychology (1996).

As premissas de Furnham são contundentes e nos alertam sobre o seguinte: não devemos tomar nada como garantido: às vezes, o que é considerado senso comum é um verdadeiro absurdo.

O que ele tenta transmitir em sua obra é a necessidade de sempre adotar uma visão crítica e realista da realidade. Se tivermos que tomar decisões, é melhor analisar o contexto, as particularidades do caso e o que nos convém ou parece mais correto.

Deixar-nos levar pelo que é considerado mero ‘senso comum’ pode nos fazer cometer erros.

Furnham lembra, por exemplo, aqueles eventos que até pouco tempo eram considerados verdades universais, como as mulheres não serem inteligentes o suficiente para votar ou que o melhor para as pessoas com deficiência era a reclusão em instituições.

Portanto, o senso comum nem sempre está bem calibrado, pode estar desatualizado ou não atender às nossas necessidades pessoais.

Devemos utilizá-lo com um certo julgamento crítico e entendimento de que o senso comum de outras pessoas pode oferecer conclusões diferentes das nossas, simplesmente por abordarem ou avaliarem a situação a partir de outro ponto de vista.

  • Furnham, A. (1996).  All in the mind: The essence of psychology.  New York: Taylor & Francis.
  • Maroney, Terry A. (2009). “Emotional Common Sense as Constitutional Law”. Vanderbilt Law Review. 62: 851.