Shame

· outubro 20, 2015

O filme “Shame” nos apresenta Brandon, um jovem nova iorquino que desfruta da vida perfeita que todo solteiro deseja: boa posição econômica, independência, sucesso com as mulheres, etc. Seu principal problema é o sexo. Brandon está obcecado por pornografia e masturbação, o que o impede de aproveitar as suas relações verdadeiramente.

Um dia, ele recebe a inesperada visita da sua irmã, que decide ficar no seu apartamento durante vários dias. A aparição dela dificultará a prática do seu vício, um hábito que também lhe causará problemas no trabalho.

Este drama psicológico é o segundo trabalho de britânico Steve McQueen, que não tem parentesco com o mítico ator homônimo, depois do filme “Hunger”, sua aclamada estreia. Estamos diante de uma obra difícil, audaciosa e valente, já que poucas vezes se abordou o tema do vício sexual de um ponto de vista claustrofóbico e penetrante.

O filme funciona como uma confissão. McQueen apresenta um tema tabu, mas o coloca de tal forma que, em geral, o espectador se sente identificado com Brandon, aprisionado pelos acontecimentos que o rodeiam. Por isso é tão desconfortável, no bom sentido da palavra, porque faz a função de espelho no qual o público se reflete.

Talvez este seja o valor de obras como estas; os filmes que superam a fronteira do temporal não pertencem a uma moda, nem a uma corrente estética. Temas universais, como o sexo e o vício, são os que deixam marcas no nosso subconsciente… 

Por que fugimos tanto dos aspectos mais cotidianos quando são colocados diante dos nossos olhos? A razão é a apenas uma: medo. Rejeitamos o que vemos porque temos medo do que não é aceito como comum na sociedade atual. Temos pânico do que não é bem visto, mesmo que seja natural.

Outro elemento inerente ao filme é a banalidade. A banalidade:  um adjetivo pejorativo, mais que uma qualidade a ostentar. Contudo, a banalidade, quando fiel a sua natureza, passa pela nossa existência, perambulando silenciosa mas constantemente.

Nossos usos e costumes estão cheios de raízes erráticas. Com isto quero dizer que a maioria de nossos atos parte de uma infinidade de elementos que, vistos em perspectiva, são vazios e triviais. Precisamos de tudo que temos? Somos conscientes do excesso que nos rodeia?

Seria preciso começar a analisar as nossas crenças e o que pensamos que é importante para nós. Olhando por uma ótica materialista, damos por certo que possuir algo, ter certos bens, é imperativo para levar um estilo de vida de acordo com as nossas expectativas.

É preciso deixar claro uma coisa: três quartos do que desejamos ter e do que temos, sobra. O excesso é demais em todos os âmbitos. O excesso é um engano que nós impomos a nós mesmos para cumprir nossos sonhos, ainda que o certo fosse chamá-los de falsos sonhos.

É importante separar os sonhos da realidade. Todos sonhamos, e é necessário fazê-lo, mas na verdade é preciso abordá-los a partir da veracidade. E verdadeiras também devem ser as aspirações que almejamos alcançar. Veraz é aquilo que é palpável, real, e portanto devemos afastar a nossa realidade do falso e do banal.

As pessoas que parecer ter tudo (aqueles que observamos todos os dias nos seus carros de luxo, nos seus jardins enormes, etc.) talvez sejam felizes como aparentam ser… ou talvez não.