O sistema de regulação de risco nos relacionamentos

· novembro 18, 2018

Os custos psicológicos da rejeição aumentam à medida que os laços do casal criam mais proximidade e interdependência. Por isso, nós temos um sistema de regulação de risco que nos protege do sofrimento causado pela rejeição.

O fato de estarmos emocionalmente ligados a outra pessoa nos torna mais vulneráveis à dor de uma possível rejeição. Mesmo assim, geralmente encontramos motivação suficiente para correr esse risco quando amamos alguém. Sem querer, colocamos nossa confiança no outro.

A dor emocional derivada de uma rejeição pode ser muito grande. Trata-se de um sofrimento que é ainda mais intenso quando existe uma dependência no meio.

Por isso, muitas pessoas querem proteger a todo custo a sua independência num contexto de casal. Por outro lado, as pessoas precisam estabelecer relacionamentos satisfatórios que atendam às suas necessidades de conexão.

Os vínculos no casal: como nos tornamos vulneráveis

No âmbito de qualquer relacionamento, mostramos aspectos de nós mesmos dos quais não gostamos. Momentos em que as nossas dúvidas e inseguranças tomam forma. Nesse sentido, dentro de um relacionamento saudável, os sinais de vulnerabilidade, fragilidade ou imperfeição tendem a fortalecer a confiança.

De certa forma, este modo de nos despirmos demonstra que nos projetamos sobre a realidade sem máscaras intermediárias. No entanto, isso também aumenta o sofrimento que uma possível rejeição possa gerar.

A união nos relacionamentos amorosos

Se confiarmos no apoio do nosso parceiro, ficaremos expostos a não receber tal apoio e à dor que isso implica. É o dilema existencial da interdependência. Os comportamentos que são básicos para estabelecermos conexões satisfatórias aumentam o risco de dor pela rejeição.

Ativando o sistema de regulação de risco

Nós temos um sistema regulador de risco da dor devido à rejeição. Sentir-se valorizado e apoiado pelo outro nos leva à busca de uma melhor conexão em nossos vínculos no casal.

Pelo contrário, pensar que há uma alta probabilidade de rejeição aumentará a necessidade de proteção. Este sistema de regulação atua basicamente em três níveis ou regras de contingência:

  • Regras de “avaliação”: medir o nível de aceitação do nosso parceiro e o seu nível de comprometimento conosco. Isso é feito através de situações de dependência. Quando nos sentimos dependentes do outro, ele pode reagir pensando em nossas necessidades ou não.
  • Regras de “sinalização”: como nos sentimos quando o nosso parceiro nos apoia ou nos rejeita. Isso é feito com base em sentimentos de gratificação ou sentimentos prejudiciais derivados do apoio ou rejeição. Isto é, sentimentos de ganho ou perda que estão associados ao nosso nível de autoestima.
  • Regras de “regulação da dependência”: uma vez avaliadas as questões acima, nos predispomos a ser mais ou menos vulneráveis, e isso afeta os laços do casal.

Dependência, dilemas e relações interpessoais

Os vínculos do casal, como um relacionamento romântico, geram situações de dependência. O comportamento de um membro do casal muitas vezes limita ou expande a capacidade do outro. Ocorrem conflitos de interesse, de compromissos, e são solicitados alguns sacrifícios.

“Sally e Harry estão procurando um filme para assistirem. Sally acredita que um filme de ação faria bem para distraí-la das suas preocupações de trabalho. O filme de arte que Harry quer ver só aumentaria as suas preocupações. Sally está colocando o seu bem-estar psicológico nas mãos de Harry e corre o risco dele não querer fazer esse sacrifício por ela, que não se importe com as suas necessidades”.
-Sandra L. Murray-

Este é um pequeno exemplo de como colocamos todos os dias o nosso bem-estar psicológico nas mãos do nosso parceiro. São esses pequenos detalhes que ativam o nosso sistema de regulação de risco diante da dor causada pela rejeição.

Estas são as “coisas mundanas” que nos fazem avaliar o grau de valorização do nosso parceiro. Elas sinalizam os nossos sentimentos de ganho ou perda com essa pessoa. Além disso, servirão de referência para modular o grau de dependência emocional que manteremos com ela no futuro.

Essas situações de dependência questionam a capacidade de resposta do casal em relação às necessidades do outro. São elas que ativam a ameaça de rejeição no relacionamento romântico. Os relacionamentos de casal dependem do grau de controle que se tem sobre a percepção de que o outro não se importa muito com as suas necessidades.

Quando nos sentimos pouco valorizados pelos nossos parceiros, o limite de ativação do sistema de regulação fica muito baixo; é ativado no mínimo. Neste caso, assim que é ativado, daremos prioridade à autoproteção.

Ao contrário, quando nos sentimos valorizados pelo nosso parceiro, a regulação de risco terá um limite mais alto de ativação. Se estiver ativado por qualquer motivo, promoveremos a conexão e procuraremos novas formas de aproximação com o nosso parceiro, em vez da autoproteção.

Sistema de regulação de risco nos relacionamentos

O sistema de regulação funciona nos dois sentidos

Os dois membros do casal ativam este sistema de regulação. Todo casal, ao longo do seu relacionamento, toma decisões de autoproteção (diminuição da dependência) ou aumento dos vínculos no casal (dependência crescente).

Todos nós precisamos desse sistema que nos faça sentir razoavelmente seguros em um contexto em que somos continuamente vulneráveis. Os nossos relacionamentos sentimentais e a experiência de interdependência influenciam significativamente as qualidades que acreditamos ter.

Dessa forma, perceber a rejeição dói, não apenas porque frustra o nosso desejo de sermos incluídos, mas também pela sua mensagem simbólica. Ela nos mostra que a nossa ligação com o parceiro tem um futuro incerto. Se, baseados em experiências anteriores, dermos prioridade à autoproteção e não à proximidade com o parceiro, estaremos semeando o jardim onde nossos medos serão confirmados.

“De todas as formas de precaução, a cautela no amor é, talvez, a mais fatal para a verdadeira felicidade”.
-Bertrand Russell-

Alguns estudos nos mostram que os relacionamentos de casal são aqueles que têm maior potencial para satisfazer as nossas necessidades como adultos. O curioso é que esses vínculos no casal são os mesmos que despertam mais ansiedade para uma possível rejeição.

As pesquisas da psicóloga social Sandra L. Murray mostram que devemos deixar de lado as preocupações da rejeição e arriscar uma substancial dependência emocional. As suas conclusões podem ser encontradas no artigo Optimizing assurance: The risk regulation system in relationships’, publicado pela American Psychological Association (APA).

Em qualquer caso, lembre-se de que é mais provável que haja um relacionamento satisfatório quando priorizamos a busca da conexão com nosso parceiro, em vez de nos dedicarmos a minimizar a probabilidade de sentir dor devido a uma possível rejeição futura.