Surpresa: a emoção que protege a mente e o corpo

Infelizmente, ao contrário das crianças, não há muitas coisas ou eventos que possam nos surpreender. Dizemos infelizmente porque a surpresa parece ter mais efeitos positivos do que podíamos imaginar...
Surpresa: a emoção que protege a mente e o corpo

Última atualização: 05 junho, 2022

A surpresa é a capacidade de se maravilhar com a beleza do mundo, com as ações gentis ou com as experiências positivas inesperadas. É uma emoção fortemente ligada ao sentimento de estar vivo. De fato, vários estudos descobriram que a surpresa nos protege de problemas de saúde em todos os níveis, quando experimentada com frequência.

O autor de um estudo intitulado Aproximação à surpresa, uma emoção moral, espiritual e ética, Dr. Dacher Keltner, afirma que a surpresa é inspirada por algo maior do que o eu individual, protegendo assim as nossas mentes.

Por outro lado, Jennifer Stellar publicou o estudo Afeto positivo e marcadores de inflamação: emoções positivas leves predizem níveis mais baixos de citocinas inflamatórias. Nele, expõe que a surpresa promove a presença de citocinas saudáveis em nosso corpo, protegendo assim o organismo.

Tudo isso sugere que as coisas que podemos fazer para vivenciar essa emoção, tais como caminhar na natureza ou nos perdermos na música, têm uma influência direta sobre a saúde e a expectativa de vida.

Mulher dormindo ouvindo música

A surpresa tem benefícios psicológicos

Na década de 1970, o antropólogo Paul Ekman teorizou que as pessoas experimentam seis emoções básicas: raiva, medo, surpresa, nojo, alegria e tristeza. Desde então, os cientistas debatem o número exato de emoções humanas.

Alguns pesquisadores sustentam que existem apenas quatro emoções, enquanto outros identificam até 27. Os cientistas também discutem se elas são universais ou se há um papel desempenhado pela experiência na sua assimilação. Até mesmo a definição de emoção é objeto de controvérsia. No entanto, independentemente de qualquer debate, parece inegável que as emoções surgem a partir da atividade em diferentes regiões do cérebro.

Três estruturas cerebrais parecem estar mais intimamente relacionadas às emoções: a amígdala, a ínsula ou córtex insular e uma estrutura no mesencéfalo chamada de substância cinzenta periaquedutal.

Jennifer Stellar, professora assistente do departamento de psicologia da Universidade de Toronto Mississauga, é especialista no estudo das emoções “pró-sociais”. Algumas delas seriam, por exemplo, a compaixão, a gratidão e a surpresa. Sua pesquisa sugere que esses sentimentos contribuem para o bem-estar da pessoa.

Stellar afirma que a compaixão, juntamente com a gratidão e a surpresa, têm benefícios psicológicos porque nos permitem olhar além das necessidades pessoais para focar em outra pessoa ou coisa.

A surpresa e a sua relação com as citocinas

A pesquisa contemporânea está apenas dando os seus primeiros passos para a compreensão do papel das emoções positivas na saúde física. No Laboratório de Interação Social de Berkeley, Jennifer Stellar e seus colegas descobriram que as emoções positivas estão ligadas a níveis mais baixos de citocinas pró-inflamatórias.

Níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias têm sido implicados no surgimento e progressão de inúmeras doenças crônicas, tais como diabetes, doenças cardiovasculares e depressão. Assim foi visto em um estudo publicado na revista Emotion. 

Essa equipe de Berkeley descobriu que “a surpresa, medida de duas maneiras diferentes, era o mais forte indicador de níveis mais baixos de citocinas pró-inflamatórias”.

Um experimento sobre o efeito das emoções positivas

Por meio de dois experimentos diferentes, 200 pessoas relataram as suas emoções ao longo do dia, juntamente com uma avaliação de como se sentiram. Também foram colhidas amostras de suas bochechas para a avaliação das citocinas, mais especificamente da interleucina 6, que é um marcador de inflamação.

Os resultados, publicados na revista Emotion, mostraram que experimentar emoções positivas significa ter níveis baixos do marcador inflamatório (Stellar et al., 2015). O que surpreende é a forte associação com baixos níveis de citocinas.

“Para manter vivo na criança o seu senso inato de surpresa, ela precisa da companhia de pelo menos um adulto com quem possa compartilhá-la, redescobrindo com ele a alegria, a expectativa e o mistério do mundo em que vivemos”.

-Rachel L. Carlson-

Na depressão, por exemplo, acredita-se que as citocinas pró-inflamatórias sejam muito importantes, pois geralmente tendem a bloquear os principais hormônios e neurotransmissores, tais como a dopamina e a serotonina, que afetam a memória, o sono, o apetite e o humor.

As pessoas que estão deprimidas têm níveis mais altos de algumas citocinas inflamatórias. No entanto, o estudo ainda não pode nos dizer o que causa o quê. Assim, é possível que ter menos citocinas circulando no corpo faça as pessoas sentirem mais emoções positivas, ou que a relação seja bidirecional.

No entanto, este é um dos primeiros estudos a vincular uma emoção positiva, como a surpresa ou o sentimento de beleza, a um maior aumento nas defesas do corpo contra doenças mentais e físicas.

A surpresa e a percepção do tempo

Melanie Rudd, professora assistente da Universidade de Houston, leu sobre experiências em que a surpresa fez o tempo se estender. Ela decidiu investigar o assunto e conseguiu confirmá-lo em um estudo. Experimentar a surpresa, em comparação com outros estados, diminuiu a impaciência e fez com que as pessoas percebessem que tinham mais tempo disponível.

A autora estabelece uma relação causal entre a falta de tempo para vivenciar a surpresa e os efeitos indesejados, tais como problemas para dormir ou estresse. A equipe de Rudd também concluiu que a surpresa aumentava a vontade de oferecer tempo para o voluntariado e aumentava a satisfação com a vida.

A surpresa e as relações sociais

Os professores de psicologia Dacher Keltner e Jonathan Haidt delinearam as principais qualidades da surpresa em um artigo. Eles sugeriram que a surpresa geralmente inclui sentimentos de imensidão e acomodação. Ou seja, a surpresa é inspirada por algo maior do que o eu ou a experiência de uma pessoa, e esse encontro ajuda a ampliar a sua compreensão do mundo.

Além disso, essa emoção também tem sido associada a uma melhora na interação social. Keltner explica que “estar na presença de grandes coisas evoca um eu mais modesto e menos narcisista, o que permite uma maior bondade para com os outros”.

amigas felizes

Várias opções para se surpreender

As experiências que causam surpresa podem ocorrer de várias maneiras nas nossas vidas diárias, seja através de uma caminhada pela natureza, ouvindo uma história de vida, perdendo-se na música ou observando o comportamento de um bebê.

De acordo com a pesquisa, as pessoas têm uma média de três momentos de surpresa por semana. Assim, se aumentarmos a nossa média pessoal, é possível que não apenas melhoremos a nossa saúde, a percepção do tempo e as habilidades sociais, mas que também sejamos mais felizes.

Ao promover o sentido da nossa vida, podemos responder positivamente ao desafio de Dacher Keltner: “cultivar a surpresa faz parte do ato de desbloquear o verdadeiro sentido do propósito da vida.”

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  • Rudd, M., Vohs, KD, Aaker, J. (2012) El asombro amplía la percepción del tiempo de las personas, altera la toma de decisiones y mejora el bienestar. Ciencia psicológica, 23(10), 1130–1136.
  • Stellar, JE, John-Henderson, N., Anderson, CL, Gordon, AM, McNeil, GD y Keltner, D. (2015). Afecto positivo y marcadores de inflamación: emociones positivas discretas predicen niveles más bajos de citoquinas inflamatorias. emoción _ Publicación anticipada en línea. dx.doi.org/10.1037/emo0000033
  • Alma, corazón y vida. Asombrarse tiene efectos positivos y potencia las emociones saludables. El Confidencial, https://www.elconfidencial.com/alma-corazon-vida/2020-09-22/asombro-efectos-positivo-emociones-saludables_2757263/. 22/09/2020.
  • Keltner D, Haidt J. Approaching awe, a moral, spiritual, and aesthetic emotion. Cogn Emot. 2003 Mar;17(2):297-314. doi: 10.1080/02699930302297. PMID: 29715721.