Tenho pena de mim mesmo: o que posso fazer?

Sentir pena de si mesmo de forma recorrente é um claro reflexo de uma baixa autoestima que pode acabar levando a uma depressão. Estamos falando de um automatismo que costuma desencadear um estado emocional em que prevalecem a tristeza e a apatia.
Tenho pena de mim mesmo: o que posso fazer?

Última atualização: 05 Setembro, 2021

“Tenho pena de mim mesmo, tenho a sensação de que cheguei a um ponto em que toda a minha vida é um fracasso e em que não valho nada.” Muitas pessoas passam por essa espiral perigosa de grave exaustão psicológica. Em seu lado mais perigoso, a autopiedade acaba com o nosso valor, obscurece o nosso humor e favorece a autossabotagem.

Embora seja verdade que às vezes é saudável sentir pena de nós mesmos, aqueles que aplicam essa visão mais autodestrutiva vão construindo, aos poucos, a prisão de um transtorno do humor. A depressão, assim como os transtornos de ansiedade, têm como substrato essa desvalorização em relação ao próprio ser.

A raiz dessa autopercepção está na baixa autoestima, somada a outras variáveis, como desesperança e até o desamparo aprendido. Analisamos mais detalhes a seguir.

A autocompaixão surge especialmente em meio a situações altamente estressantes nas quais nos sentimos oprimidos.

Menino triste na rua

Por que sinto pena de mim mesmo?

Insegurança, desesperança, sentimento de que somos uma fraude, de que não alcançamos nada do que nos propomos… Muitos de nós podemos nos ver na mesma situação e não sabermos como sair deste universo mental. Além disso, essa percepção não é exclusiva das personalidades fracas, muito pelo contrário: às vezes estamos tão cansados de ser fortes que acabamos com pena de nós mesmos.

Há um fato importante que apontamos no início: a autopiedade tem um lado positivo e outro não tão positivo. Pesquisas, como as realizadas na Universidade da Califórnia, indicam que esse estado psicológico pode causar um “nó mental” quando caímos em uma espiral em que fatores como a sensação de solidão, o desamparo e o estresse elevado acabam nos bloqueando completamente.

Vamos entender mais causas que orquestram essa situação e o que podemos fazer diante dela.

Baixa autoestima e sentimentos de frustração

Há momentos em que sempre tentamos fazer o nosso melhor, e mesmo assim nada dá certo. Embora as dificuldades passem, há momentos em que temos a sensação de que o azar está conosco. Além disso, dizemos a nós mesmos que tudo o que fazemos acaba da pior maneira possível.

Baixa autoestima, frustração e desamparo psicológico estão integrados a essa abordagem. Nessas situações, o esgotamento mental pode ser imenso.

O que podemos fazer?

É hora de mudar o discurso da negatividade, de “Eu sou um inútil e tenho pena de mim mesmo” para “Devo começar a ver as coisas de forma diferente”. Para isso, o mais adequado é parar de viver no passado, no que já está perdido, nos erros cometidos. Tudo isso faz parte do ontem, e você é parte do presente, do aqui e agora.

  • Defina novas metas de curto prazo e imagine um novo você. Pense em todos aqueles traços psicológicos que você gostaria de adquirir e trabalhe neles: segurança, autoestima elevada, dinamismo, proatividade…
  • Aprenda técnicas de resolução de problemas. Este é o momento de ganhar autoeficácia e sentir que você consegue enfrentar os pequenos desafios diários.

Sinto pena de mim mesmo (quando o nível que você define é muito alto)

“Tenho pena de mim mesmo porque, no fim, sou mais fraco do que pensava. Porque me sinto vencido, porque a solidão e a indiferença dos outros me magoa…”. É isso mesmo, outra variável marcante que orquestra a autocompaixão negativa é aquela que começa com a alta exigência e intolerância à vulnerabilidade.

Sentimos compaixão por nós mesmos quando, de repente, tudo que fizemos pelos outros não é valorizado e surge o peso da decepção e até da solidão. Este sentimento também surge frequentemente naquelas personalidades que não se permitem se conectar com suas emoções, limites e fraquezas.

Quando finalmente se dão conta da sua vulnerabilidade, surge aquele sentimento de autopiedade.

O que podemos fazer?

Devemos aprender a lidar com emoções incômodas: decepção, falibilidade, vulnerabilidade… Ninguém pode carregar o peso do mundo nas costas e ser a chave que resolve todos os seus problemas e os das outras pessoas. A vida às vezes é injusta, as pessoas falham conosco e nós também temos limites e cometemos erros.

Aceitar todas essas dimensões e abraçar nosso ‘eu’ vulnerável nos permitirá passar por essas experiências com mais equilíbrio.

“A autopiedade é um dos narcóticos não farmacêuticos mais destrutivos: vicia e separa a vítima da realidade”.
-John W. Gardner-

Mulher cansada sem energia

Eventos estressantes concatenados e neuroticismo

A Universidade Martin Luther de Halle-Wittenberg (Alemanha) conduziu um estudo que revelou algo interessante. Pessoas que dizem “Sinto pena de mim mesmo” mostram uma resposta psicológica desequilibrada a eventos altamente estressantes. Ou seja, elas os enfrentam de forma inadequada.

A perda do emprego, crises como as atuais, problemas familiares e financeiros podem corroer completamente a sua visão de “eu”. Da mesma forma, outro fator aparece de acordo com este trabalho: o neuroticismo. Existem personalidades com maior tendência a experimentar emoções de valência negativa, bem como pensamentos irracionais.

O que podemos fazer?

Pessoas com tendência ao neuroticismo sofrem em maior grau de estados de ansiedade, preocupação constante, alterações de humor, irritabilidade, ideias autodestrutivas… Nessas situações, o apoio profissional é essencial.

Sentir pena de si mesmo é o início de uma espiral descendente que pode nos colocar em situações extremas. A terapia cognitivo-comportamental destinada a trabalhar essas idéias irracionais para transformá-las em abordagens mais saudáveis é o melhor ponto de partida.

Para concluir, algo que devemos ter em mente é que todos nós podemos ter essa percepção em algum momento de nossas vidas. Aquele em que nada vai bem para nós e nos tornamos dignos da nossa autorregulação, da nossa compaixão e da nossa pena. É normal abraçar o nosso eu mais falível, mas apenas por um tempo. Depois, é preciso levantá-lo e fortalecê-lo com coragem, amor infinito e confiança eterna.

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  • Stöber J. Self-pity: exploring the links to personality, control beliefs, and anger. J Pers. 2003 Apr;71(2):183-220. doi: 10.1111/1467-6494.7102004. PMID: 12693515.
  • Petric, Domina. (2019). Self-Pity and The Knot Theory of Mind. 10.13140/RG.2.2.10011.11047.