Desamparo aprendido: a pedra que nos leva ao fundo do poço

· abril 5, 2019
O desamparo aprendido atua como um veneno em nosso estado emocional, desencadeando uma série de eventos internos que podem acabar nos destruindo completamente.

O desamparo aprendido é um conceito relativamente novo na psicologia. No entanto, devido à sua importância em epidemias tão relevantes quanto a depressão, é cada vez mais citado. Mas, o que é o desamparo aprendido? Na verdade, é um aprendizado. De quê? De que não há meios para se defender. A pessoa que é governada pelo desamparo aprendido em um campo, ou de maneira global, entende que não tem ferramentas suficientes para ser competente nesse campo.

Sim, deixei uma pequena armadilha na exposição. Eu pulei de “se defender” para “ser competente”, e ambos não são mesma coisa. De fato, podemos entender a capacidade percebida de nos defender como uma das muitas competências que podemos ter. Por que  comecei com a defesa? Porque é o contexto em que o desamparo aprendido tem sido mais estudado.

Vamos ver como foram esses começos. Overmier e Seligman foram os primeiros a vislumbrar parte desse conceito. Seus estudos foram focados em estudar a relação entre condicionamento clássico e o condicionamento aversivo instrumental. Com seus experimentos, eles perceberam que os cães não conseguiam aprender uma resposta simples de evitação após uma condição específica. Esta condição não era outra senão terem sido submetidos a descargas das quais não podiam escapar.

Assim, na primeira fase do experimento, eles aprenderam que não tinham controle sobre as descargas, e direcionaram seu foco de atenção para outros elementos. Por que eles continuariam tentando escapar se já haviam aprendido que não podiam? Jorge Bucay, em uma de suas histórias mais famosas, a do elefante acorrentado, também capta essa ideia: como o aprendizado passado condiciona nossos comportamentos presentes e futuros.

O elefante acorrentado

O desamparo aprendido nas pessoas

O desamparo aprendido tem a vantagem de ser relativamente simples de introduzir nas pessoas, dentro da estrutura de experimentos que são eticamente aceitáveis. Isso nos permitiu estudá-lo em um contexto controlado. Por exemplo, sabemos que, se dermos a dois grupos várias listas de letras para formar palavras com sentido, terão um desempenho muito diferente se, antes, um dos grupos tiver enfrentado a mesma tarefa e, por sua dificuldade, não tenha sido capaz de resolver nenhuma lista.

Neste caso, não há descargas, não há um estímulo aversivo, mas ainda vemos como uma experiência anterior pode nos anular diante de um desafio futuro que, sem a aprendizagem prévia, poderíamos enfrentar. Voltando ao nosso exemplo, as pessoas que levam meia hora para encontrar uma palavra em listas diferentes acabam aprendendo que estão enfrentando um desafio que não podem superar. Dessa forma, começarão a economizar recursos para investir em tarefas posteriores.

Nesta posição de investimento mínimo de recursos, não serão capazes de resolver sequer aquelas palavras que são simples de encontrar. De fato, estão fora da tarefa há algum tempo, sem se mover, em uma posição de desamparo. Assim como os cachorros que não escaparam das descargas.

Por outro lado, vemos como podemos tirar o grupo que desanimou dessa posição de desamparo. Como? Por exemplo, dizendo-lhes que a dificuldade do exercício diminuiu. Também podemos dizer que vimos como outros grupos demoraram para encontrar palavras. Assim, fora dessa posição de desamparo, as pessoas tentarão novamente assumir o controle.

O desamparo no contexto da depressão

Mulher deprimida

Tirando algumas exceções, em muitos casos de depressão acontece algo semelhante. A pessoa para de procurar trabalho depois de meses com portas fechadas. A pessoa para de sair com seus amigos depois de acumular várias experiências negativas no contexto social. A pessoa para de… porque viu, porque aprendeu, porque não podia mudar a situação. Entendeu que o resultado de trabalhar e se esforçar é o mesmo que ficar parado, sem fazer nada.

Esse aprendizado prejudicou seu autoconceito. Entendendo que o que acontece consigo é estável, começou a pensar que sua ineficácia tem a ver com uma característica (interna): não é inteligente, não é atraente, não é valioso. Então, além de parar de implementar medidas para mudar a situação, começou a se sentir muito mal. Ou seja, sua autoestima também começou a ser danificada.

A partir daquele momento, também começou a perder reforços naturais: não se sente mais motivado para fazer nada. Sente que o peso que está carregando é muito grande e que as luzes se apagam. A pessoa sente que só tem uma saída, se refugiar nela. O problema é que, ao fazê-lo, mantém um diálogo interno que só a enterra cada vez mais no fundo do poço.

Como vemos, o desamparo aprendido não é em si o que nos faz cair, o que termina com o nosso humor. Por outro lado, é o veneno que ataca nossos órgãos, nossos pilares mentais, fazendo com que desmoronem e, como consequência, que afundemos. Precisamente por causa da complexidade dos fatores envolvidos e da maneira particular de agir em cada pessoa, é melhor contar com a ajuda de um especialista diante de uma suspeita de depressão.

  • Seligman, M. (1991). La indefensión aprendida. Debate.