Terapia de interação pais-filhos para problemas de comportamento na infância

A terapia de interação pais-filhos é uma intervenção terapêutica desenvolvida para tratar problemas de comportamento em crianças. Se quiser saber mais sobre ela, continue lendo!
Terapia de interação pais-filhos para problemas de comportamento na infância

Última atualização: 13 maio, 2022

De acordo com o National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE, 2006), a prevalência de distúrbios comportamentais em crianças de 5 a 10 anos é de 6,9% em meninos e 2,8% em meninas, dos quais 4,5% dos meninos e 2,4% das meninas apresentam traços opositores-desafiadores.

As dificuldades mais comuns que podemos identificar são desobediência, oposição, agressividade, transtorno opositivo desafiador, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e transtorno dissocial. Esses problemas podem levar a uma desadaptação social, familiar ou escolar na criança.

Para o tratamento desses transtornos, múltiplas intervenções têm sido desenvolvidas, dentre as quais se destaca a terapia de interação pais-filhos. Essa abordagem terapêutica foi originalmente criada para tratar problemas de comportamento disruptivo em crianças de 5 a 7 anos e vem sendo respaldada empiricamente por pesquisas.

criança gritando
A terapia de interação pais-filhos se concentra no tratamento de problemas de comportamento em crianças entre 5 e 7 anos.

Terapia de interação pais-filhos: em que consiste?

A terapia de interação pais-filhos (PCIT, na sigla em inglês) é uma terapia breve projetada para tratar problemas de comportamento durante a infância. Foi desenvolvida por Sheila Eyberg a partir da influência da ludoterapia, dos métodos operantes, do trabalho de Hanf sobre intervenções ao vivo com os pais, do treinamento dos pais, do trabalho de Baumrind e da sua perspectiva sobre os estilos parentais.

A PCIT busca gerar uma interação pais-filhos saudável e assertiva, com um estilo de comunicação claro, em que fiquem bem definidos os limites na criação da criança. Esta terapia tem como objetivo geral melhorar a relação pais-filhos por meio do treinamento ativo e ao vivo das interações com a criança.

Nesse tipo de terapia, a intervenção nas relações é essencial. Pais e filhos compõem um sistema em que ambas as partes se influenciam mutuamente por meio da dinâmica relacional que estabelecem. As interações precoces que os pais estabelecem com os filhos desempenham um papel muito importante no aparecimento e reforço de comportamentos disruptivos.

Intervir na relação é essencial para gerar uma mudança nos padrões de comportamento da criança; assim como esses são os gatilhos do comportamento disfuncional, também podem servir como geradores de novos comportamentos.

Para isso, a PCIT se propõe a transformar os pais em agentes da mudança, treinando-os por meio do jogo ao vivo, em uma parentalidade positiva e novas habilidades de modificação de comportamento.

Características

As principais características da PCIT são as seguintes (García e Velasco, 2017):

  • Intervenção com os pais e a criança ao mesmo tempo: para tratar os problemas infantis, a PCIT intervém nas relações entre pais e filhos, instruindo os pais para a aplicação de habilidades terapêuticas na ludoterapia.
  • Treinamento direto da interação pais-filhos: através da observação ou modelagem do comportamento dos pais, busca-se uma mudança no comportamento da criança.
  • Uso de dados para orientar o tratamento: as sessões de treinamento começam com a observação da interação pais-filhos, a fim de planejar o treinamento a partir dos dados coletados durante as observações.
  • Sensibilidade em relação aos aspectos do desenvolvimento: espera-se que os pais tenham conhecimento do estágio de desenvolvimento em que o seu filho se encontra. Afinal, muitos pais esperam dos filhos comportamentos que não estão de acordo com a fase em que estão.
  • Intervenção precoce: esse tipo de intervenção é típico da PCIT, uma vez que se acredita que o comportamento disfuncional se estabelece e se intensifica nas primeiras interações entre pais e filhos.
  • Equipamento e espaço especializado: a PCIT é realizada em duas salas. Uma delas se destina à interação pai/mãe-filho e deve ter pelo menos uma mesa, três cadeiras e brinquedos. Enquanto isso, o terapeuta fica em outra sala, de onde ele observa e modela a interação entre pais e filhos. Assim, é necessária uma infraestrutura que possa conectar as duas salas, para que o terapeuta possa ver e ouvir o que está acontecendo. Para isso, são utilizados um vidro unidirecional e um interfone com microfone.
  • Concentra-se em padrões de interação: a PCIT não se concentra em comportamentos específicos, mas sim em padrões de interação.
  • Filosofia positiva e sem julgamento: o terapeuta aplica com os pais as mesmas habilidades que eles devem aplicar com os filhos

Fases da terapia de interação pais-filhos

A terapia de interação pais-filhos consiste em duas fases: interação dirigida pela criança (Child-Directed Interaction, CDI) e interação dirigida pelos pais (Parent-Directed Interaction, PDI).

Fase 1: Interação dirigida pela criança

Esta fase tem como objetivo estabelecer uma relação amorosa e positiva entre os pais e a criança. Para isso, os pais são treinados para reconhecer as qualidades positivas da criança e para promover o seu desenvolvimento.

As habilidades a serem cultivadas nos pais são conhecidas como PRIDE (Praise, Reflect, Imitate, Describe, Enthusiasm).

  • Elogiar: consiste em fazer um julgamento favorável sobre uma atividade ou resultado da criança. O elogio é usado para reforçar comportamentos específicos que são apropriados.
  • Parafrasear: trata-se de repetir e amplificar o que a criança disse. Por exemplo, se ela disser “carro”, os pais poderiam responder “Sim, um carro vermelho”.
  • Imitar: copiar e ampliar uma atividade que a criança está realizando de forma imediata. Por exemplo, se a criança construir uma torre com Legos, os pais constroem a mesma torre, adicionando um estacionamento.
  • Descrever: fazer comentários sobre o comportamento da criança ou sobre a situação. Por exemplo, “você está colocando o lego vermelho em cima do azul”.
  • Entusiasmo: desfrutar do jogo ou atividade que está sendo compartilhada com a criança.

Durante essa fase, os pais também são orientados a evitar dar ordens, fazer perguntas, criticar ou apontar erros cometidos pela criança. A crítica faz com que o momento do jogo se torne menos agradável para a criança e também pode acabar afetando a sua autoestima.

Outro treinamento que é realizado é o da ignorância ativa, que consiste em que os pais retirem o foco de atenção do comportamento inadequado da criança e se concentrem nos comportamentos positivos. Isso ensina para a criança que comportamentos disruptivos não são uma boa estratégia para chamar a atenção de seus pais.

Pais e filha em terapia
Através da técnica de modelagem do comportamento dos pais, pretende-se conseguir uma mudança no comportamento dos filhos.

Fase 2: Interação dirigida pelos pais

Esta segunda fase se concentra nas estratégias de disciplina. Nesse período, os pais aprendem a se dirigir aos filhos e a aplicar consequências consistentes. Os passos desta fase são os seguintes:

  • Explicar aos pais o uso de exercícios de obediência.
  • Instruir os pais sobre como dar instruções.
  • Definir com os pais quando a criança é obediente.
  • Acordar e analisar as consequências da obediência e da desobediência.
  • Explicar como executar o time-out.
  • Treinar os pais em habilidades de disciplina.

As sessões de terapia na PCIT variam de 8 a 12 sessões, com sessões de acompanhamento após 1, 3, 6 e 12 meses. A extensão do tratamento depende do tipo de problema da criança e da aprendizagem das habilidades dos pais. As etapas do tratamento são as seguintes (García e Velasco, 2014):

  • Avaliação e pré-tratamento do funcionamento familiar e da criança (1 ou 2 sessões).
  • Ensinar habilidades de ludoterapia comportamental (1 sessão).
  • Treinamento de habilidades de ludoterapia (2-4 sessões).
  • Ensinar técnicas de disciplina (1 sessão).
  • Treinamento de técnicas de disciplina (4 ou 6 sessões).
  • Avaliação pós-tratamento do funcionamento familiar e da criança (1 ou 2 sessões).
  • Sessões extras, se necessário, bem como acompanhamento.

A terapia de interação pais-filhos tem se mostrado eficaz; de fato, há um volume considerável de estudos que comprovam a sua eficácia. Nela, a intervenção se concentra na relação entre pais e filhos e não no comportamento específico da criança. Por isso, busca-se capacitar os pais para motivar novos padrões de comportamento em seus filhos, a partir das dinâmicas relacionais entre eles.

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  • García, R. F. y Velasco, L. A. (2017). Terapia de interacción padres-hijos: un tratamiento infantil basado en la evidencia. Editorial síntesis.
  • García, R. F. y Velasco, L. A. (2014). Terapia de interacción padres-hijos (PCIT). Papeles del psicólogo35(3), 169-180.
  • Heymann, P., Heflin, B. H., & Bagner, D. M. (2020). Parent-Child Interaction Therapy: Theory and Research to Practice. In Selected Topics in Child and Adolescent Mental Health. IntechOpen.
  • Lieneman, C. C., Brabson, L. A., Highlander, A., Wallace, N. M., & McNeil, C. B. (2017). Parent–Child Interaction Therapy: Current Perspectives. Psychology research and behavior management.
  • National Institute for Health and Clinical Excelence (2006). Parent training/education programmes in the management of children with conduct disorders. https://www.scie.org.uk/publications/misc/parenttraining/parenttraining.pdf?res=true