Terapia junguiana: restabelecer o equilíbrio emocional a partir do inconsciente

· junho 10, 2018

A terapia junguiana ou análise de Jung busca iluminar as áreas obscuras da nossa psique para favorecer a autorrealização. É a arte de uma psicologia profunda, na qual graças a uma relação dialética e íntima entre analista e paciente, é possível unir as partes conscientes com as inconscientes para dar forma a um Eu mais genuíno e a um autêntico equilíbrio emocional.

Se existe algo que a maioria de nós sabe é que a figura de Carl Jung e seu legado atrai, inspira e apaixona. O pai da psicologia analítica era muito mais do que aquela imagem do psiquiatra e analista suíço que levou a outro nível muitos dos conceitos herdados de Sigmund Freud. Jung foi um alquimista da ciência, da antropologia, da astrologia, da arte, da religião e do mundo dos sonhos…

Longe de ver cada uma dessas áreas do conhecimento de forma isolada, ele as colocou a serviço da psicologia para dotá-la de um significado mais profundo, uniforme e dinâmico. Dessa maneira, a explicação do inconsciente melhorava, assim como o de todo esse universo, às vezes conturbado, onde estão a origem dos nossos conflitos, das nossas necessidades, das nossas pulsões e dos aspectos que dificultam desfrutar de uma boa saúde mental.

Vale dizer, no entanto, que não são muitos os terapeutas junguianos. Esse tipo de terapia não é tão comum quanto outras tantas que se baseiam em abordagens mais frequentes e com um maior respaldo empírico documentado, como a cognitivo-comportamental, ou até mesmo a humanista. Nesse sentido, a obra de Jung, assim como a terapia junguiana, apesar da originalidade das suas contribuições, foi considerada um tanto assistemática e complexa.

“O psicoterapeuta deve ver cada paciente e cada caso como algo inédito, como algo único, maravilhoso e excepcional. Apenas assim estará mais perto da verdade”.
-Carl Jung-

No entanto, universidades como a de Berkeley ensinam a psicologia junguiana desde os anos 1970. Além disso, na última década estamos vendo um ressurgir desse tipo de terapia, principalmente na América do Sul, assim como em alguns países da Europa. No Brasil, por exemplo, existe a “Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica”, que difunde o legado de Jung e forma futuros psicoterapeutas junguianos.

Estamos, portanto, diante de um tipo de terapia que começa a se estabelecer com mais força no campo da atenção psicológica e que, sem dúvidas, vale a pena conhecer com mais detalhes.

Carl Jung

Qual é a finalidade da terapia junguiana?

A terapia junguiana é uma forma especializada de psicoterapia que tem como objetivo facilitar a integridade psíquica da pessoa, chegando a um acordo com o inconsciente. Assim, uma coisa que devemos entender em primeiro lugar é que, dentro dessa abordagem psicoterapêutica, entende-se que todos nós possuímos um “substrato psíquico” com dinâmicas inconscientes às vezes muito complexas que impactam as nossas atitudes, a nossa forma de pensar e de nos relacionarmos…

O objetivo do terapeuta junguiano é conseguir nos fazer tomar consciência desses fatores inconscientes para favorecer uma reconciliação com o nosso inconsciente. Dessa maneira, podemos promover o que Jung chamou na sua época de processo de individuação. Ou seja, com esse tipo de psicanálise, conseguiríamos uma harmonia entre necessidades e conquistas, entre passado e presente, alcançando uma maturidade genuína, na qual nosso ‘eu’ pode se definir de forma autêntica, sentindo-se livre e capacitado para continuar crescendo.

Em que momento ou em quais situações a terapia junguiana seria útil?

A terapia de Jung pode nos ajudar a entender e enfrentar processos tão complexos quanto a depressão, a ansiedade ou, até mesmo, possíveis vícios.

Essa abordagem psicoterapêutica se baseia em um processo por meio do qual o paciente deverá passar, com a ajuda do seu terapeuta, por três fases muito específicas: a autoconsciência, a transformação e a atualização. Dessa maneira, vamos conseguir ver aquilo que está na parte mais obscura e inacessível da nossa psique para transformá-la e proceder à mudança.

Dessa maneira, podemos considerar que essa abordagem será útil nos seguintes momentos e situações da nossa vida:

  • Épocas em que sentimos um certo desânimo, apatia, sensação de incertezas demais…
  • Momentos em que nos sentimos irritados, frustrados com alguma coisa sem saber muito bem qual é a razão.
  • Fases nas quais passamos por problemas na nossa relação afetiva.
  • Fases nas quais iniciamos novas etapas nas nossas vidas e nas quais de alguma maneira temos medo de cometer os mesmos erros do passado.
  • Quando nos sentimos “perdidos” sem saber qual direção seguir ou quais decisões tomar.
  • Quando percebemos que estamos “presos” nas mesmas formas de comportamento, aquelas que nos causam infelicidade.
  • A terapia junguiana é útil para artistas ou profissionais que baseiam seu trabalho na criatividade e que sentem que já não têm mais ideias.
  • Pessoas que precisam entender determinados sonhos.
Homem escolhendo entre dois caminhos

Objetivos terapêuticos da análise junguiana

Assim como afirmamos anteriormente, a análise junguiana é uma forma especial de psicoterapia que tenta conduzir o paciente a uma “reconciliação” pessoal com o inconsciente. O que isso significa? Significa basicamente que a estratégia terapêutica consistirá em nos transformarmos em exploradores da nossa psique em companhia de um profissional especialista nessa área, processo no qual vamos entender por que certas dinâmicas e “presenças” inconscientes afetam o nosso comportamento.

Para conseguir isso, a terapia junguiana terá como objetivo analisar uma série de dimensões muito específicas. Essas dimensões são as seguintes:

1. Trabalhar nosso “material” inconsciente

Enquanto para a psicanálise freudiana o inconsciente não é mais do que um espaço onde está contida grande parte das nossas pulsões e dos nossos desejos sexuais reprimidos, Carl Jung tira o foco de todas essas explicações deterministas para nos mostrar que nas profundezas da nossa mente existe toda uma arquitetura de conteúdos, símbolos, arquétipos e significados que devemos trazer à tona.

Dessa maneira, e para abordar todo esse material inconsciente, a terapia junguiana se vale de duas etapas bem definidas.

  • Compreender a nossa arquitetura inconsciente. Através de uma série de estratégias muito específicas como podem ser a análise dos sonhos, a arte, o diálogo ou a imaginação, o terapeuta deve identificar e entender cada símbolo e arquétipo que há no nosso inconsciente. No entanto, o paciente vai assumir uma parte ativa nisso porque boa parte desses símbolos podem ter um significado muito específico para essa pessoa em questão. São como forças energéticas disfarçando um problema.
  • Entender como nosso material inconsciente impacta na nossa vida consciente. O segundo objetivo terapêutico será compreender como tudo aquilo que reside no nosso interior de forma não consciente altera a nossa capacidade de nos sentirmos bem, de nos sentirmos realizados.

2. Interpretação dos sonhos

Os junguianos têm uma visão muito específica sobre o que, na verdade, são os nossos sonhos e esse véu onde está todo o material inconsciente. O mundo onírico tem uma relação direta com o ego. É como um teatro no qual podem ser revelados aspectos importantes para sua autorrealização, suas necessidades, seus medos, suas limitações…

Assim, enquanto Freud nos dizia que os sonhos não são nada mais do que um campo onde satisfazer pensamentos reprimidos, os junguianos pensam que os sonhos agem às vezes como vozes críticas, como caminhos que são abertos para nós para traçarmos novas alternativas no nosso mundo consciente e termos uma vida mais rica.

Portanto, longe de ver o mundo consciente e inconsciente como duas entidades separadas, como fazem os freudianos, a terapia junguiana o vê como um todo. Apenas quando integramos essas duas partes da nossa psique em um todo é que nos sentimos livres.

Cérebro boiando na água

3. Identificar nossos complexos

Todos nós temos complexos. Mas cuidado! Não é saudável quando os complexos “mandam” na gente. É nesse momento que a vida perde espontaneidade, oportunidades, potencial de desenvolvimento e crescimento…

Jung nos explicou no seu legado que os complexos estão relacionados com os arquétipos herdados e com as nossas vivências pessoais. Dessa maneira, e segundo a abordagem da psicologia analítica, podemos diferenciar os seguintes tipos:

  • Complexo de Creso: necessidade de ter dinheiro e poder para se sentir superior.
  • Complexo de Caim: relacionado com os ciúmes.
  • Complexo de Aquiles: necessidade de esconder a fragilidade.
  • Complexo de Brunilda: ver o companheiro ou a companheira como herói.
  • Complexo de Eróstrato: busca por atenção constante.
  • Complexo de Antígona: necessidade de cuidar e proteger…

4. Estilo de personalidade

Uma das ferramentas de avaliação mais utilizadas na terapia junguiana é, sem dúvidas, o indicador Myers-Briggs desenvolvido por Isabel Briggs Myers e Katharine Cook Briggs. Essa escala foi criada com base no livro de Jung “Tipos psicológicos” (1921) e tem como objetivo as seguintes dimensões:

  • Entender em qual ponto estamos no contínuo compreendido entre a introversão e a extroversão.
  • Saber como processamos nossos meios e a informação que estão contidas neles.
  • Saber como tomamos nossas decisões. Se o fazemos com base nas nossas emoções, nos nossos julgamentos, etc.
  • Descobrir quais são as nossas preferências, as nossas necessidades emocionais e preferências profissionais.

Quais técnicas a terapia junguiana utiliza?

Há um dado que é interessante considerar sobre a psicologia analítica. Jung sempre se negou a sistematizar suas teorias e a definir com clareza a prática clínica e sua metodologia. Por isso, os herdeiros da terapia junguiana se viram obrigados a recorrer aos seus artigos, livros e ensaios. Através deles encontraram esse “norte” psicoterapêutico sobre o qual traçar uma linha de consenso que hoje em dia continua sendo mantida.

Portanto, o que temos na verdade é um conjunto de técnicas desenvolvidas através de uma relação dialética entre o especialista e o paciente, na qual deve existir proximidade, confiança e uma aliança terapêutica significativa. Ao mesmo tempo, Jung deixou muito claro nos seus textos que devia ser feito o seguinte:

“É essencial que no procedimento dialético o terapeuta respeite em todos os momentos a personalidade do paciente. Ele deve ser tratado com dignidade, desapegando-se, além disso, de ideias preconcebidas para acompanhar a pessoa nesse percurso às vezes complexo de descobrimentos e desenvolvimentos no qual favorecer a mudança terapêutica. Não deve restar nenhum ‘alérgeno psíquico’ do médico ou terapeuta na mente do paciente no seu processo de ‘individuação”.

O respeito pelo paciente e conquistar e manter sua confiança é essencial para a terapia junguiana. Somente assim cria-se uma boa aliança para aplicar essas técnicas:

Terapia de conversa

A terapia de Jung se baseia acima de tudo na conversa. Apenas quando o paciente se sente seguro e confortável é possível conseguir uma boa colaboração no momento de realizar outras técnicas como a análise de sonhos ou outras estratégias criativas, nas quais ambos, paciente e terapeuta, podem navegar e compreender o mundo inconsciente e proceder à transformação.

Terapia junguiana

Análise dos sonhos

Algo que poderíamos pensar antes de mais nada é que no momento de interpretar e entender um sonho basta comprar algum dos livros de Jung voltados a esse propósito. Mas não é assim. Um aspecto que os terapeutas junguianos sabem bem é que o conjunto de símbolos e arquétipos que surgem no tecido onírico de um paciente se relaciona com a personalidade e as circunstâncias pessoais dessa pessoa.

É um processo, portanto, muito delicado, meticuloso e tão profundo quanto revelador.

Associação de palavras

O teste de associações livres é uma estratégia habitual na terapia junguiana. A metodologia é a seguinte. Pede-se ao paciente para dizer a primeira palavra que vem à sua mente após o terapeuta dizer alguma coisa. A rapidez ou a demora na resposta pode revelar certas resistências ou complexos inconscientes.

Atividades criativas

Cada terapeuta junguiano vai acreditar ou achar bom determinado tipo de atividade criativa em detrimento de outros tipos, dependendo também da personalidade do paciente. No entanto, atividades tão simples quanto pintar mandalas, desenhar, dançar ou manter um diário de sonhos são estratégias fantásticas. Ações que favorecem a expressão, a imaginação e a reflexão para trazer ao mundo consciente aspectos dessa arquitetura inconsciente.

A terapia junguiana é eficaz?

Após chegar a esse ponto, é muito provável que muitos de nós estejamos nos sentindo atraídos por esse tipo de abordagem terapêutica. No entanto, após esse interesse é comum se fazer a seguinte pergunta: mas a terapia junguiana é realmente eficaz? Nós temos consciência de que muitos de nós estamos acostumados a ouvir elogios sobre a eficácia da psicoterapia cognitivo-comportamental para vários transtornos.

A resposta para a pergunta formulada é “sim”, a terapia junguiana é útil para os seguintes propósitos: atenuar a angústia psicológica, conseguir uma maior satisfação na nossa vida, melhorar nosso desempenho profissional e nossas relações familiares ou conjugais, para favorecer o autoconhecimento e para superar as crises existenciais.

Pelo menos é o que diz um estudo publicado em 2013. Ele explica também que com 90 sessões podemos chegar ao sucesso terapêutico. Portanto, se realmente percebemos que esse tipo de abordagem psicológica se ajusta às nossas necessidades, se achamos que podemos nos sentir confortáveis trabalhando com um terapeuta junguiano, não devemos ter medo de dar esse passo.

É uma viagem de descobertas que vai valer a pena.

Pessoa sozinha em campo

Referências bibliográficas:

  • Hall H, Norby L. (1968). Fundamentos de la psicología de Jung. Buenos Aires: Psique
  • Hocheimer W (2004). La psicoterapia de Jung Barcelona: Herder
  • Fordham, M (1999). Technique in Jungian Analysis (The Library of Analytical Psychology) Boston: Karnac
  • Jung, C. G. (1981). Arquetipos e inconsciente colectivo. Barcelona, Paidos.
  • Jung, C.G (1993). Estructura y dinámica de la psique. Editorial Paidós, Buenos Aires.