O que é a terapia transdiagnóstica e como ela pode nos ajudar?

· agosto 26, 2018

Um tempo atrás um professor da minha universidade disse que um bom profissional de saúde era aquele que sabia como se aplicavam as diferentes técnicas avaliadas empiricamente e era capaz de combiná-las para o tratamento de cada pessoa em particular. Dito de outro modo, ele disse que deveríamos ser como alquimistas: buscar a mistura perfeita para cada paciente. É isso que a terapia transdiagnóstica faz.

Graças a ele, quando me tornei psicólogo tive a ideia muito clara de que era mais eficaz trabalhar com a origem do problema psicológico do que ir apagando os focos de fogo. Dessa forma, quando tratamos apenas o mais superficial, só conseguiremos melhoras a curto prazo e efêmeras, enquanto se conseguirmos trabalhar a causa, é mais provável que o sucesso terapêutico se mantenha e que evitemos recaídas. Essa é a linha que a terapia transdiagnóstica segue.

No que ela consiste?

“A grande descoberta da minha geração é de que os seres humanos podem mudar as suas vidas ao alterar suas atitudes mentais”.
-William James-

Qual é o problema dos tratamentos padronizados?

Cada vez mais somos conscientes de que é muito comum sofrer de algum tipo de transtorno emocional. Na verdade, os transtornos mentais são as doenças com maior prevalência na população. Dessa forma, todos nós conhecemos alguém que sofre ou já sofreu de problemas de ansiedade e depressão. Pode até ser algo que acontece com nós mesmos. Por isso, sabemos como a situação pode interferir em nossas vidas e o grau de mal-estar que ela gera.

Homem em sala de espera de consultório terapêutico

Por essa razão, também nos damos conta, cada vez mais, da necessidade de procurar um bom psicólogo para recuperar o nosso bem-estar. A verdade é que, quando procuramos um terapeuta, cada um segue uma linha de raciocínio. Nem todos seguem essa linha de avaliação e tratamento personalizado da qual meu professor me falou tanto tempo atrás. Alguns se apegam ao rótulo diagnóstico e dão início a um tratamento padrão, que já existe e foi estipulado especificamente para cada transtorno.

Deixe eu me explicar: para cada patologia psicológica existem programas de tratamento específicos já elaborados, padrões. Eles indicam que se você tem algum transtorno, o trabalho que deve ser feito com você é aquele. São técnicas determinadas em uma ordem determinada. O problema disso é que, ainda que as pessoas compartilhem um mesmo diagnóstico, podem precisar trabalhar nele de formas diferentes.

Qual é o objetivo do tratamento na terapia transdiagnóstica?

Isso não quer dizer que devemos simplesmente ignorar o que está estipulado. Claro que devemos levar em consideração a literatura científica, o que ela diz, e qual é a melhor forma de intervir em cada problema psicológico. Ainda assim, temos que ser conscientes de que a pessoa que temos na nossa frente é diferente de todas as outras.

Por isso devemos, com base nessas características individuais, fazer uma mescla  única de técnicas variadas que são cientificamente aprovadas. É disso que meu professor falava.

Onde a terapia transdiagnóstica entra nisso tudo? Como a própria palavra indica, a questão é ir além do próprio rótulo diagnóstico. Em vez de já começar um programa específico previamente estipulado, a ideia é trabalhar aqueles aspectos comuns que são observados em todos os transtornos psicológicos. Ou seja, estamos falando daquelas “causas” que são fundamentais para assegurar o bem-estar a longo prazo.

“Controle o modo como um homem interpreta o mundo e terá avançado muito na tarefa de controlar o seu comportamento”.
-Stanley Milgram-

Em vez de trabalhar os sintomas específicos de cada patologia, devemos nos preocupar com os fatores comuns que fazem com que desenvolvamos os problemas psicológicos. Desse modo, considera-se que os transtornos emocionais compartilham uma mesma vulnerabilidade que, associada a fatores de estresse psicossocial, podem dar lugar a diferentes manifestações. Mais especificamente, esse tipo de terapia coloca a regulação emocional no foco do tratamento.

O papel da regulação emocional na terapia transdiagnóstica

A regulação emocional é o conjunto de estratégias que utilizamos para influenciar ou modificar as experiências emocionais que experimentamos. Ou seja, são as ferramentas que podemos colocar em uso para manter, aumentar ou suprimir um determinado estado emocional. Quais são as estratégias de regulação emocional inadequadas mais comuns nos transtornos emocionais? A ruminação, a supressão e a evitação.

“Suponho que seja tentador tratar tudo como se fosse um prego, se a única ferramenta que você tem é um martelo”.
-Abraham Maslow-

As pessoas com transtornos emocionais usam estratégias de regulação emocional que não são adaptativas. Elas contribuem para a manutenção dos sintomas. Por isso, é necessário trabalhar e modificar essas estratégias para recuperar o bem-estar psicológico. Isso, é claro, sem deixar de lado os aspectos básicos que são trabalhados na terapia cognitivo-comportamental.

Dessa forma, também se trabalha a reavaliação das interpretações negativas das situações e a modificação desses comportamentos desadaptados. A terapia transdiagnóstica, portanto, encarrega-se de tornar explícito para os pacientes os processos cognitivos e emocionais implícitos que influenciam o seu mal-estar. Além disso, também ensina como modificá-los. Por isso, a terapia transdiagnóstica tem seu foco no tratamento das emoções.

Mulher praticando a respiração profunda

Seu objetivo é ajudar os pacientes a aprender como enfrentar e experimentar emoções incômodas, e responder a elas de um modo tranquilo, de uma maneira adaptativa. Busca-se reduzir a intensidade e a frequência da aparição das emoções incômodas.

No entanto, o objetivo não é eliminar esse tipo de emoção, que é essencial para a vida. O objetivo é colocá-las em um contexto funcional, de modo que possam ser adaptativas, úteis, e que nos ajudem a gerenciar o nosso dia a dia da melhor forma possível.

Imagens cortesia de Nik Shuliahin, Annie Spratt e Radu Florin