Terror em tempos de peste negra

· junho 12, 2019
De todos os males que assolaram a Europa medieval, o mais conhecido é a peste negra. Foi um drama humano sem precedentes que aterrorizou aqueles que a vivenciaram.

Em uma cidade portuária com aproximadamente 100 mil habitantes e grande importância, chegou, em um dia ruim, uma carga intoxicada. Em menos de um mês, 300 pessoas perderam a vida diariamente em uma fatal epidemia. No fim da peste negra, cerca de 10% da população da cidade havia morrido.

A origem da pandemia é desconhecida, assim como os métodos para acabar com ela. Faleceram homens e mulheres, crianças e idosos, camponeses e artesãos, clérigos e soldados, todos igualmente; o evento mais democrático de suas vidas foi o final. Não havia uma escapatória possível.

Não se tratava de uma história de zumbis, por exemplo. A cidade era Valencia, sob o reinado da Coroa de Aragão, no ano de 1348, e a epidemia recebeu o nome de Peste Negra. 

Somente em um exercício de empatia, nos colocando na pele destes homens medievais, podemos compreender sua atitude, sua mentalidade ou as decisões que tomaram. Conhecer a magnitude e as características da catástrofe pode nos ajudar a nos colocar em seu lugar.

Obra sobre a peste negra

Europa doente

Valencia ou Aragão não foram exceções; em meados do século XIV, a peste assolou a Europa em uma das maiores catástrofes demográficas da história.

Ela era bem conhecida pelos habitantes do Velho Mundo, que já conviviam com a peste há vários séculos e continuariam sofrendo com ela por mais alguns.

No entanto, não havia se manifestado com tanta força desde os tempos do imperador Justiniano, no século VI. A peste conseguiu gerar um pavor maior que a rainha dos males antigos: a lepra.

Existe um consenso entre os historiadores com respeito ao ponto de entrada na Europa: Caffa, na Crimeia. O exército mongol rodeava a cidade e trazia consigo algo mais mortífero que suas espadas. Dizia-se que os próprios mongóis jogavam cadáveres infectados perto de seus inimigos.

Na realidade, não é necessário apelar para uma espécie de primitiva guerra biológica, pois nenhuma muralha pode impedir a passagem de ratos e pulgas.

Os comerciantes genoveses, em alerta, fugiram apavorados de volta à Itália. Era muito tarde, pois o Mediterrâneo passou de muralha marítima à ponte. Em um ano, todo o Ocidente estava sentenciado.

Os caminhos da Peste Negra

Naquele tempo, pensava-se que a propagação acontecia pelo ar. O cheiro forte que os cadáveres emanavam, a tradição médica grega e as superstições astrológicas apontavam para esse sentido.

O mais provável é que a doença fosse transmitida pela velocidade dos ratos e das pulgas que estes carregavam. Até duas semanas do contágio, os sintomas não se manifestavam; nos cinco dias seguintes, a morte era certa.

Estabeleceu-se em cada porto da cidade infectada um novo foco de propagação. A fuga das cidades levou a praga aos campos, onde os efeitos demográficos foram, se podemos dizer isso, catastróficos.

As principais rotas de comércio ou peregrinação se transformaram em rios de morte. Após a passagem da Peste Negra, sobravam templos dedicados a São Roque em busca de um intercessão divina que nunca aconteceu.

A cara da doença

Hoje em dia, acreditamos que tenha se tratado da peste bubônica, mas outras opções, como o ebola ou o antraz pulmonar, não foram descartadas.

Os sintomas eram esmagadores. Desde manchas negras – que são o motivo do nome da doença – a delírios ou inflamações; todas eram advertências de uma morte próxima. Além do contágio por via aérea ou animal, o sangue também era altamente perigoso. A atenção aos doentes tornava-se impossível, sendo estes tristemente abandonados.

A fome, a grande quantidade de órfãos e a perda de colheitas foram consequências lógicas da crise demográfica. É difícil separar as mortes diretas das indiretas causadas por este fenômeno.

“No curso dessa peste faleceram…”
-Giovanni Villani, frase inacabada antes de morrer fruto da Peste-

Quadro representando a peste negra

O que fazer se a peste negra bate à porta?

As perdas humanas chegaram a 50% ou 60% na França, Inglaterra, Itália e Espanha, com incidências inclusive superiores em determinadas regiões.

Entre as vítimas estão algumas pessoas ilustres, como Alfonso XI de Castilla, que faleceu quando sitiava Gibraltar. Os combatentes chegaram a concordar em fazer uma trégua durante a Guerra dos Cem Anos.

As reações diante da catástrofe foram, obviamente, caóticas. Como era comum na época, os judeus logo receberam o papel de bode expiatório. Acusados de envenenar a população, foram alvo de ataques de multidões desesperadas.

Diante da desestruturação social, o conservadorismo fazia pouco sentido. Durante a epidemia de peste, a prostituição e outros vícios aumentaram muito, talvez em um desesperado carpe diem. Também cresceu a piedade apocalíptica, a busca pelo perdão dos pecados diante da morte iminente.

Uma curiosa consequência econômica foi a liberação de grandes quantidades de terras. Muitos dos camponeses que não morreram puderam utilizá-las. Em uma sociedade à beira da subsistência, a morte do próximo trouxe um presente envenenado. O certo é que, após a peste, viria o Renascimento.

  • Benedictow, Ole (2011) La Peste Negra (1346-1353). La historia completa, Akal.
  • Martin, Sean (2011) The Black Death.