Ticiano, a biografia do grande pintor de Veneza

junho 22, 2019
Ticiano foi um pintor do Alto Renascimento aclamado em toda a Europa. Suas pinturas monumentais e os detalhes em seus quadros lhe concederam fama e fortuna. Na época de sua morte, Ticiano tinha uma ampla escola de pintura.

De acordo com críticos e historiadores de arte, entre os quais se destacam Arnold Hauser e Ernst Gombrich, o impacto da obra de Ticiano foi enorme. De fato, ele foi reconhecido como um grande pintor desde muito jovem.

Em seus retratos, Ticiano se aprofundou no caráter humano, conseguindo registrá-lo em suas telas. Suas composições religiosas abarcam toda a gama de emoções, desde o encanto de suas jovens madonnas até as trágicas profundidades da crucificação e do enterro.

Em seus quadros mitológicos, capturou a alegria e o abandono do mundo pagão da Antiguidade. Em seus quadros de nudez, Vênus (Vênus e Adônis) e Dânae (Dânae) estabeleceu um padrão para a beleza física e o erotismo que nunca foi superado.

Ticiano foi famoso por seu domínio das cores. Sua obra criativa teve uma profunda influência em inúmeras gerações futuras de artistas. Grandes mestres, como Rubens e Nicolas Poussin, o elogiaram imitando-o.

“Ticiano é o sol em meio a pequenas estrelas, não apenas entre os italianos, mas também entre todos os pintores do mundo”.
-Giovanni Lorenzo sobre Ticiano, 1950-

Obra de Ticiano

Ticiano, infância e viagem à Veneza

A data exata de seu nascimento é uma incógnita. Ticiano Vecellio, ou Vecelli, nasceu em algum momento entre 1488 e 1490, em Pieve di Cadore, uma cidade próxima à Belluno, na Itália.

Ele viveu os primeiros anos de sua vida nesse local. Seus pais foram Gregorio e Lucia Vecellio, que tiveram cinco filhos, sendo Ticiano o mais velhos de seus irmãos.

Seu pai foi um destacado soldado e conselheiro da cidade. Trabalhava como superintendente do castelo de Pieve di Cadore e também administrava minas locais para seus donos.

Muitos familiares, incluindo o avô de Ticiano, eram notários. Por essa razão, não é de se estranhar que a família do pintor estivesse bem estabelecida na região.

Aos 10 anos de idade, em companhia de seu irmão Francesco, ele foi enviado para viver com seu tio em Veneza. Vivendo nessa cidade, Ticiano nasceria como artista. Em um primeiro momento, os dois irmãos entraram como aprendizes na oficina de um famoso mosaicista, Sebastiano Zuccato.

Poucos anos depois, Ticiano entrou na oficina do respeitado pintor veneziano Giovanni Bellini. Nesse local, floresceu a primeira geração de pintores da Escola veneziana: Giovanni Palma di Serinalta, Lorenzo Lotto, Sebastiano Luciani e Giorgio da Castelfranco, conhecido como Giorgione.

Primeiras obras do mestre

Dizem que o afresco de Hércules que se encontra no palácio Morosini foi uma de suas primeiras obras. Outras foram Maria e o Filho (a chamada Maria Cigana), que se encontra em Viena; e Retrato de Isabel de Portugal, agora localizada na Academia de Veneza.

Em 1508, os afrescos do Fondaco dei Tedeschi, pintados em colaboração com outro discípulo de Bellini, Giorgione di Castelfranco, marcaram o início de sua carreira. A bem-sucedida colaboração explica por que é difícil distinguir entre os dois artistas nos primeiros anos do século XVI.

Desses afrescos, somente os contornos arruinados sobrevivem. Nesse trabalho, a cena principal atribuída a Ticiano foi a Alegoria da Prudência.

Os dois jovens mestres também foram reconhecidos como os dois líderes da nova escola de “arte moderna”. Esse tipo de arte se associava a uma pintura realizada de forma mais flexível, ou seja, liberta da simetria e de outras convenções hieráticas que ainda podiam ser encontradas nas obras de Giovanni Bellini.

Depois da morte prematura de Giorgione em 1510, Ticiano continuou pintando, seguindo sua tradição durante algum tempo. No entanto, seu estilo logo desenvolveu suas próprias marcas comerciais, que incluiriam pinceladas ousadas e expressivas.

A primeira comissão independente de Ticiano foram os afrescos de três milagres de Santo Antônio de Pádua, em 1511. De acordo com vários críticos de arte, a melhor composição é o Milagre do Recém-Nascido.

Formação e fama de Ticiano

O idoso Giovanni Bellini morreu em 1516, deixando Ticiano sem rival na Escola Veneziana. Durante sessenta anos, ele foi o mestre indiscutível da pintura veneziana. Ticiano sucedeu seu mestre Giovanni Bellini e, para isso, começou a receber uma pensão do Senado.

“Evitei deliberadamente os estilos de Rafael e Michelangelo porque era ambicioso com uma distinção mais alta que a de um imitador inteligente”.
-Ticiano-

Durante esse período (1516-1530), que corresponde à sua fase de domínio e maturidade, o estilo do artista mudou e foi aperfeiçoado. Passou de seu estilo “giorgionesco” no início para desenvolver temas mais amplos e mais complexos.

Em 1518, produziu para o altar maior da igreja de Frari sua famosa obra-prima, Assunção da Virgem, ainda in situ. Essa extraordinária obra, executada em grande escala e raramente vista na Itália, deixou todos maravilhados.

O nome de Ticiano brilhava cada vez mais, se associava à arte e, assim, a fama não demorou a chegar. Em 1521, o artista estava em seu momento de maior popularidade. Embora já fosse reconhecido há muito tempo, a partir desse momento os compradores se voltaram ainda mais aos seus trabalhos.

Pertence a esse período uma de suas obras mais extraordinárias, A Morte de São Pedro Mártir (1530), que infelizmente foi destruída em 1867. Só restaram cópias e gravuras dessa imagem.

Essa obra combina violência extrema e uma paisagem, em sua maioria, composta por uma grande árvore que entra na cena e parece acentuar o drama de uma maneira que tende ao barroco.

O artista continuou simultaneamente com sua série de pequenas Madonnas, que retratou em meio a belas paisagens que serviam de imagens de gênero e pastorais poéticos.

Esse foi também o período das grandes cenas mitológicas, entre as quais se destacam os famosos Bacanais que podemos encontrar no Museu do Prado. Talvez essas sejam as produções mais brilhantes da cultura pagã do Renascimento.

Um dos quadros de Ticiano

A incomum vida confortável do pintor

O encontro de Ticiano com o Sacro Imperador Romano, Carlos V, em Bolonha em 1530 seria um acontecimento determinante em sua vida. Nessa ocasião, Ticiano pintou um retrato do Imperador em tamanho real (hoje perdido), um exemplo precoce do que ainda era um gênero extremamente inovador naquela época.

Rapidamente, ele se transformou no principal pintor da corte imperial. Dessa maneira, obteve inúmeros privilégios, honras e, inclusive, títulos. Desde esse momento, foi o pintor mais solicitado nas cortes de toda a Europa.

O artista soube ganhar a admiração e a estima dos poderosos não apenas pela beleza de sua pintura, mas também por sua própria atitude e pela sutileza conceitual com a qual construía seus quadros.

Prova de sua fama é o enorme número de retratos assinados por Ticiano, guardados nas coleções de personagens poderosos. Nenhum outro pintor da época pintou tantos retratos como Ticiano, embora acredite-se que tenham sido os estudantes do mestre que pintaram esses quadros.

“Não são as cores brilhantes, mas sim um bom desenho que faz com que as figuras sejam belas”.
-Ticiano-

Ticiano recebia uma pensão de D’Avalos, marquês de Vasto, e uma grande anuidade de Carlos V, do Tesouro de Milão.

Outra fonte de renda era um contrato realizado em 1542 para disponibilizar grãos a Cadore. Esta era sua cidade natal que visitava quase todos os anos, onde foi considerado generoso e influente.

Ticiano possuía uma cidade favorita na vizinha colina de Manza, na qual fez suas principais observações sobre a forma e o efeito da paisagem. O chamado moinho de Ticiano, constantemente discernível em seus estudos, está em Collontola, próximo a Belluno.

Vida pessoal

Em 1525, ele se casou com uma mulher chamada Cecilia, filha de um barbeiro. A união deu origem ao seu primeiro filho, Pomponio, e mais dois em seguida, incluindo o favorito de Ticiano, Orazio, que se tornou seu assistente.

Por volta de 1526, ele ficou à vontade e, rapidamente, se tornou extremamente íntimo de Pietro Aretino. Pietro foi uma figura influente e audaciosa que aparece de forma estranha nas crônicas da época. Ticiano enviou um retrato dele a Gonzaga, duque de Mantua.

Depois da morte de Cecilia em 1530, Ticiano se casou de novo e se tornou pai de uma menina, Lavínia, mas sua segunda esposa também faleceu. Ele se mudou junto com os filhos e conseguiu que sua irmã Orsa viesse de Cadore e ficasse encarregada de cuidar da casa do pintor.

Ticiano tinha aproximadamente 90 anos quando a praga que se espalhou por Veneza o levou à morte em 27 de agosto de 1576.

Ele foi um homem que viveu muito para a sua época, e foi a única vítima da praga em Veneza que recebeu um enterro eclesiástico. Ticiano foi enterrado na igreja de Frari (Santa Maria Gloriosa dei Frari).

Seu túmulo estava perto de sua famosa pintura Madonna di Ca ‘Pesaro (Maria de Pesaro). Nenhum monumento marcou sua tumba até que, muito tempo depois, os governantes austríacos de Veneza encomendaram à Canova o grande monumento que hoje a decora.

Suas pinturas religiosas foram verdadeiros paradigmas de uma pintura devocional com capacidade, como nenhuma outra, para “mexer com os sentimentos” dos fiéis. Ao mesmo tempo, sua produção mitológica o transformou no pintor erótico de maior poder para perturbar certos ânimos.

  • Checa, F., & Serraller, F. C. (1994). Tiziano y la monarquía hispánica: usos y funciones de la pintura veneciana en España (siglos XVI y XVII). Madrid: Nerea.
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