Todo adeus deve ter um ritual

· março 21, 2017

Sofremos perdas ao longo de toda a nossa vida. De vez em quando nos vemos obrigados a dizer adeus a pessoas, lugares e situações amadas, desde que nascemos e devemos abandonar o ventre da nossa mãe, até que morremos e nos despedimos da vida.

Dizemos adeus à infância e à juventude. Dizemos adeus a pais, irmãos, companheiros e amigos. Despedimo-nos de lugares e de momentos que jamais esqueceremos.

Seria justo dizer que a vida é uma sucessão de finais e começos. O certo é que tudo o que começa tem que acabar para dar lugar ao novo. Mas nem sempre estamos preparados para dizer “adeus”. Nem sempre isso termina bem.

“Sempre há um tempo para ir embora, ainda que não haja lugar aonde ir.”
-Tennessee Williams-
Ao longo da história as diferentes sociedades idealizaram rituais, cerimônias ou atos especiais para dizer adeus. No entanto, atualmente parece que não há tempo nem disposição para isso, o que dificulta o bom trâmite das despedidas e das perdas.

Os rituais do adeus

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Um dos primeiros gestos de humanização do homem pré-histórico foi a construção de ritos funerários. Diferentemente de outras espécies, o ser humano começou a outorgar um significado para a morte e para a separação das pessoas que faziam parte do entorno. Os primeiros humanos começaram a sepultar os seus mortos, precisamente porque entenderam que a morte era um acontecimento transcendental.

Esses homens pré-históricos se perguntaram qual era o sentido da morte e encontraram explicações basicamente mágicas. Assumiram que a vida não terminava ali, e por isso desenharam formas para dizer adeus ao que ia embora e confortar quem ficava.

Depois foram sendo introduzidos novos rituais, quase sempre de iniciação. O começo da puberdade, o começo da vida em casal, o início da colheita, etc. Mas, é claro, celebrar um início é também consagrar um final. Todos esses rituais se mantiveram ao longo do tempo. Evoluíram e se adaptaram às particularidades de cada cultura, mas na essência, persistiram.

A situação do ritual na atualidade

Na sociedade atual, por outro lado, são cada vez menos frequentes os rituais para anunciar a chegada de algo novo ou despedir-se do que vai embora. Poderia-se dizer que o único de todos esses rituais que continua sobrevivendo é o ritual funerário.

Todavia, no mundo contemporâneo o ritual para dizer adeus a quem morre também é cada vez mais propriedade do mercado, e não da família. Existem fórmulas “pré-fabricadas” e as funerárias “se encarregam de tudo”.

E o que dizer das despedidas que doem quase tanto quanto a morte, mas que aparentemente não são tão definitivos? É o caso de um divórcio, a saída do lar paterno, ou o término de uma relação.

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Para que servem os rituais de adeus?

Um ritual serve, principalmente, para marcar o fato de que estamos diante de um acontecimento especial. Um fato que não é ordinário e que merece um ato para recebê-lo, digeri-lo, e preparar-se para a mudança.

Os rituais e cerimônias contribuem para dar significado a um fato. No caso dos rituais de adeus, ao fato de separar-se de alguém que se amou, seja por decisão própria ou devido à morte.

Um ritual de adeus permite reconhecer que algo mudará em nossas vidas. Que não seremos os mesmos depois disso, e que isto deve ser elaborado simbolicamente, para facilitar a aceitação.

Um adeus supõe assumir uma nova perspectiva em relação ao passado e ao futuro, substituir tudo aquilo que era habitual por algo novo que ainda não construíram. Implica também a consciência de ter que aceitar um sofrimento e de tramitá-lo.

As consequências de não fazer rituais

A sociedade atual nem sempre tem lugar para tudo isso. Muitas vezes as pessoas devem viver o drama da separação em absoluta solidão. Os outros repetem que é preciso seguir adiante e ninguém quer ver que essa pessoa se lamente ou expresse a sua dor.

Convida-se a não chorar, a tentar pensar em outra coisa, a realizar atividades para que se distraia. E com o tempo, se por acaso a sua dor não cura, estas pessoas são evitadas. Nestas condições, passa-se facilmente da dor à amargura. Quem está de luto sabe que não pode mudar os fatos, mas não consegue se conformar. Isso acaba se traduzindo em depressão, manias ou dificuldades com os outros.

O ideal seria que cada adeus tivesse o seu próprio ritual. No mundo contemporâneo é provável que cada um deva desenhar os seus próprios rituais privados para despedir-se, porque, no geral, quase ninguém quer pensar na morte ou na separação.

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Os rituais curam

Realizar um ritual de adeus cura. Permite olhar cara a cara a perda e é um primeiro sinal de aceitação. Contribui também para atar os cabos que podem estar soltos no vínculo que agora termina.

Pode-se tomar um objeto simbólico para que seja consumido pelo fogo, em sinal de adeus. Pode-se escrever uma carta, ou um poema, para marcar essa despedida. Podem ser recolhidas as lembranças de quem foi embora e dar um lugar físico especial para conservá-los.

Todos aqueles pequenos rituais que ajudem a dizer adeus permitem superar o luto com maior integridade.