Todo adeus deve ter um ritual

Todo adeus deve ter um ritual

Última atualização: 21 Março, 2017

Sofremos perdas ao longo de toda a nossa vida. De vez em quando nos vemos obrigados a dizer adeus a pessoas, lugares e situações amadas, desde que nascemos e devemos abandonar o ventre da nossa mãe, até que morremos e nos despedimos da vida.

Dizemos adeus à infância e à juventude. Dizemos adeus a pais, irmãos, companheiros e amigos. Despedimo-nos de lugares e de momentos que jamais esqueceremos.

Seria justo dizer que a vida é uma sucessão de finais e começos. O certo é que tudo o que começa tem que acabar para dar lugar ao novo. Mas nem sempre estamos preparados para dizer “adeus”. Nem sempre isso termina bem.

Os rituais do adeus

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Um dos primeiros gestos de humanização do homem pré-histórico foi a construção de ritos funerários. Diferentemente de outras espécies, o ser humano começou a outorgar um significado para a morte e para a separação das pessoas que faziam parte do entorno. Os primeiros humanos começaram a sepultar os seus mortos, precisamente porque entenderam que a morte era um acontecimento transcendental.

Esses homens pré-históricos se perguntaram qual era o sentido da morte e encontraram explicações basicamente mágicas. Assumiram que a vida não terminava ali, e por isso desenharam formas para dizer adeus ao que ia embora e confortar quem ficava.

Depois foram sendo introduzidos novos rituais, quase sempre de iniciação. O começo da puberdade, o começo da vida em casal, o início da colheita, etc. Mas, é claro, celebrar um início é também consagrar um final. Todos esses rituais se mantiveram ao longo do tempo. Evoluíram e se adaptaram às particularidades de cada cultura, mas na essência, persistiram.

A situação do ritual na atualidade

Na sociedade atual, por outro lado, são cada vez menos frequentes os rituais para anunciar a chegada de algo novo ou despedir-se do que vai embora. Poderia-se dizer que o único de todos esses rituais que continua sobrevivendo é o ritual funerário.

Todavia, no mundo contemporâneo o ritual para dizer adeus a quem morre também é cada vez mais propriedade do mercado, e não da família. Existem fórmulas “pré-fabricadas” e as funerárias “se encarregam de tudo”.

E o que dizer das despedidas que doem quase tanto quanto a morte, mas que aparentemente não são tão definitivos? É o caso de um divórcio, a saída do lar paterno, ou o término de uma relação.

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Para que servem os rituais de adeus?

Um ritual serve, principalmente, para marcar o fato de que estamos diante de um acontecimento especial. Um fato que não é ordinário e que merece um ato para recebê-lo, digeri-lo, e preparar-se para a mudança.

Os rituais e cerimônias contribuem para dar significado a um fato. No caso dos rituais de adeus, ao fato de separar-se de alguém que se amou, seja por decisão própria ou devido à morte.

Um ritual de adeus permite reconhecer que algo mudará em nossas vidas. Que não seremos os mesmos depois disso, e que isto deve ser elaborado simbolicamente, para facilitar a aceitação.

Um adeus supõe assumir uma nova perspectiva em relação ao passado e ao futuro, substituir tudo aquilo que era habitual por algo novo que ainda não construíram. Implica também a consciência de ter que aceitar um sofrimento e de tramitá-lo.

As consequências de não fazer rituais

A sociedade atual nem sempre tem lugar para tudo isso. Muitas vezes as pessoas devem viver o drama da separação em absoluta solidão. Os outros repetem que é preciso seguir adiante e ninguém quer ver que essa pessoa se lamente ou expresse a sua dor.

Convida-se a não chorar, a tentar pensar em outra coisa, a realizar atividades para que se distraia. E com o tempo, se por acaso a sua dor não cura, estas pessoas são evitadas. Nestas condições, passa-se facilmente da dor à amargura. Quem está de luto sabe que não pode mudar os fatos, mas não consegue se conformar. Isso acaba se traduzindo em depressão, manias ou dificuldades com os outros.

O ideal seria que cada adeus tivesse o seu próprio ritual. No mundo contemporâneo é provável que cada um deva desenhar os seus próprios rituais privados para despedir-se, porque, no geral, quase ninguém quer pensar na morte ou na separação.

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Os rituais curam

Realizar um ritual de adeus cura. Permite olhar cara a cara a perda e é um primeiro sinal de aceitação. Contribui também para atar os cabos que podem estar soltos no vínculo que agora termina.

Pode-se tomar um objeto simbólico para que seja consumido pelo fogo, em sinal de adeus. Pode-se escrever uma carta, ou um poema, para marcar essa despedida. Podem ser recolhidas as lembranças de quem foi embora e dar um lugar físico especial para conservá-los.

Todos aqueles pequenos rituais que ajudem a dizer adeus permitem superar o luto com maior integridade.