Você sabe o que caracteriza o transtorno obsessivo-compulsivo?

Você sabe o que caracteriza o transtorno obsessivo-compulsivo?

setembro 9, 2017 em Psicologia 428 Compartilhados
Você sabe o que caracteriza o transtorno obsessivo-compulsivo?

Talvez ultimamente você tenha ouvido falar sobre a busca pelos componentes biológicos dos diferentes problemas de saúde mental. Desde o estudo dos genes responsáveis por todos os transtornos mentais existentes até as áreas cerebrais ou os neurotransmissores envolvidos. No entanto, dada a complexidade do ser humano, a biologia não consegue explicar tudo, e é por isso que se tenta encontrar, a partir da perspectiva da psicologia clínica, diferentes marcadores psicológicos que, no caso do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), teriam muita influência no seu desenvolvimento.

Por isso, o presente artigo se baseia na pesquisa realizada pela Associação Espanhola de Psicopatologia e Psicologia Clínica sobre o transtorno obsessivo-compulsivo e seus marcadores psicológicos. Mais especificamente, Gertrudis Forné, M. Ángeles Ruiz-Fernández e Amparo Belloch descobriram que a sensação de inacabado e experiências “not just right” poderiam evidenciar sintomas obsessivo-compulsivos.

Baseando-nos no resultado das pesquisas publicadas no artigo intitulado: “Sensação de inacabado e experiências ‘not just right’ como motivadoras dos sintomas obsessivo-compulsivo”, vamos tratar desse transtorno. Porque como em todos os transtornos mentais, não apenas a biologia se mostra determinante. Isso faz com que a medicina, sozinha, não seja suficiente para o seu tratamento adequado.

Como é o transtorno obsessivo-compulsivo?

Para explicar os marcadores psicológicos do transtorno obsessivo-compulsivo convém, em primeiro lugar conhecer do que se trata. Assim, esse transtorno anteriormente se enquadrava nas diferentes classificações diagnósticas dentro dos transtornos de ansiedade. Mas a evolução dos conhecimentos sobre essa condição fez com que na última atualização do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, conhecido como DSM-5, lhe fosse atribuída a classificação de entidade própria.

Transtorno obsessivo-compulsivo

As pessoas que sofrem desse transtorno manifestam obsessões significativas que incluem imagens, pensamentos ou impulsos recorrentes que provocam ansiedade. Uma ansiedade que tentam atenuar através de comportamentos ou atos mentais repetitivos. Um exemplo disso seria uma pessoa com a obsessão de que acha que pode ficar doente porque há muitos germes no ambiente e que lava as mãos constantemente quando encosta em alguma coisa, podendo chegar a deixar as próprias mãos em carne viva por esfregar e lavar com tanta frequência.

Normalmente, esses rituais compulsivos causam mal-estar no indivíduo que os realiza e o fazem perder muito tempo. Além disso, embora em algum momento da sua vida a pessoa tenha reconhecido que essas obsessões e/ou compulsões sejam excessivas e até irracionais, ela não se vê capaz de parar de realizá-las.

Os marcadores psicológicos e sua importância no transtorno obsessivo-compulsivo

Sob a perspectiva cognitivo-comportamental na psicologia, que é a que dispõe de maior apoio empírico no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo, costuma-se ressaltar a importância das crenças disfuncionais e a prevenção do sofrimento como a explicação fundamental da gênese do transtorno. Mas essa explicação ficava limitada em relação à heterogeneidade das crenças disfuncionais que os pacientes tinham sobre seus sintomas e a necessidade das compulsões.

Devido a essa limitação, diferentes pesquisadores do mundo todo começaram a considerar outros fatores psicológicos como características diagnósticas específicas do transtorno obsessivo-compulsivo. Eles concluíram que a sensação de inacabado é exclusivamente presente no transtorno obsessivo-compulsivo, em comparação com outros transtornos de ansiedade.

A sensação de inacabado se refere a um sentimento persistente de que a tarefa que se está realizando está incompleta. De maneira que se prolonga no tempo devido à minuciosidade com que se realiza e ocupa a maior parte dos pensamentos da pessoa ao buscar aquilo que ainda falta e que não se consegue encontrar.

Além disso, os pesquisadores também sugeriram que as experiências “not just right” seriam um ponto central desse transtorno. Essas experiências são aquelas que fazem pensar que o que está sendo realizado não está suficientemente bom para deixar como está. Por isso, vai levar a pessoa a repetir constantemente cada um dos passos para garantir que não se esqueceu de nada e, assim, tentar atingir uma perfeição impossível.

Como podemos observar, os diferentes pesquisadores conceituaram esses comportamentos como repetição compulsiva e obsessão mental, dando um passo além na explicação da heterogeneidade desse transtorno.

Transtorno obsessivo-compulsivo

Resultado das pesquisas dos marcadores psicológicos do TOC 

Em relação a essas descobertas, Gertrudis Forné, M. Ángeles Ruiz-Fernández e Amparo Belloch decidiram realizar um estudo na Espanha sobre esses conceitos para tentar reproduzir os resultados. Para isso, utilizaram os seguintes instrumentos: Not Just Right Experiences Questionnaire-Revised (NJREQ-R) e o Inventário Obsessivo-Compulsivo de Vancouver (VOCI).

Os resultados obtidos nos dizem que tanto as experiências de inacabado como os sentimentos “not just right” estão presentes na população em geral, mas em maior medida na população com transtorno obsessivo-compulsivo. Isso indicaria que essas experiências poderiam ser consideradas como um fator/marcador da vulnerabilidade para desenvolver sintomas desse transtorno.

“A sensação de inacabado e as experiências ‘not just right’ são mais ‘internas’, subjetivas e difusas que a intrusividade e o mal-estar geral. Além disso, tais experiências acontecem quando o paciente ‘faz alguma coisa’, enquanto os conteúdos obsessivos aparecem em muitos casos independentemente do paciente realizar ou não determinada ação.”
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Também foram constatadas associações entre as experiências “not just right” e a sensação de inacabado com tendência ao perfeccionismo e à intolerância à incerteza. Esse ponto poderia ajudar a esboçar uma futura intervenção mais aprimorada e relacionada a esse tipo de pensamento para esse transtorno.

“Além disso, as experiências ‘not just right’, a sensação de inacabado e os sintomas ‘just right’ preveem todas as dimensões de sintomas obsessivo-compulsivos, acima do peso explicativo que podem proporcionar o perfeccionismo, a intolerância à incerteza, as crenças disfuncionais, a tendência à preocupação patológica e os sintomas ansiosos e depressivos. Uma exceção notável são os sintomas de ordem, no qual a ansiedade foi o fator mais significativo.”
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Todos esses resultados nos levam a concluir que ainda há muito para se descobrir sobre o transtorno obsessivo-compulsivo. Esses resultados também nos demonstram a importância dos fatores psicológicos na gênese, no decorrer e no tratamento das diferentes doenças mentais.

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