Os transtornos alimentares e a sua relação com a personalidade

outubro 17, 2019
Alguns traços de personalidade estão associados a certas doenças mentais, e este é o caso dos transtornos alimentares. Neste artigo, falamos sobre essa associação e as suas consequências.

A Associação Americana de Psiquiatria (APA) define os transtornos alimentares em seu manual DSM-5 como a “alteração persistente na alimentação ou no comportamento relacionado à alimentação, que leva a uma alteração no consumo ou na absorção dos alimentos e que causa uma deterioração significativa da saúde física ou do funcionamento psicossocial”.

Esses transtornos, também conhecidos como TA, aumentaram sua prevalência nos últimos trinta anos. Afetam especialmente a população jovem e do sexo feminino, embora os casos em homens estejam aumentando cada vez mais.

Classificação dos transtornos alimentares

Classificação dos transtornos alimentares

Os subtipos que compõem esses transtornos sofreram modificações nos últimos anos. Com a última edição do DSM, os TA englobam:

  • Anorexia nervosa.
  • Bulimia nervosa
  • Transtorno de compulsão alimentar.
  • Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo.
  • Ruminação.

Podemos considerar os dois primeiros subtipos como os mais prejudiciais dos TA; portanto, neste artigo focaremos apenas neles.

Cabe ressaltar que, atualmente, existem outras problemáticas relacionadas à ingestão de alimentos que estão aumentando em prevalência na sociedade. Destacamos, entre outras, o sobrepeso (relacionado a maus hábitos alimentares e ao sedentarismo), a vigorexia, a megarexia, a permarexia e a ebriorexia.

Características dos transtornos alimentares

A revisão da literatura científica sobre os transtornos alimentares incide na multifatorialidade do transtorno.

“Atualmente, a maioria dos pesquisadores concorda que os transtornos alimentares podem ser uma dificuldade própria do desenvolvimento da adolescência como resultado da falta de capacidade de lidar com as demandas do processo de crescimento, o que se torna particularmente complicado tendo em vista a necessidade de definir a identidade e o senso da própria capacidade”.
Macías, Unikel, Cruz e Caballero (2003)

Por outro lado, não devemos esquecer a pressão que os padrões de beleza exercem sobre as pessoas. Esse fato é muito importante, pois influencia profundamente as crenças desadaptativas sobre o corpo e a imagem corporal que estão na base desses distúrbios.

Traços de personalidade associados aos transtornos alimentares

A relação entre esses dois fatores indica que certos traços podem ser fundamentais na origem, no aparecimento e, sobretudo, na evolução dos transtornos alimentares. Em termos gerais, estudos indicam que a personalidade neurótica está associada aos transtornos alimentares.

No entanto, existem traços que se associam especificamente a cada subtipo de transtorno alimentar. Em relação à anorexia nervosa, por exemplo, são observados comportamentos obsessivos e uma grande necessidade de controle.

Além disso, destaca-se também a inflexibilidade do pensamento, principalmente no que diz respeito às crenças desajustadas da pessoa. Por último, também constata-se que pessoas com anorexia nervosa geralmente apresentam traços dependentes e de introversão.

Por outro lado, a bulimia nervosa está relacionada a uma baixa tolerância à frustração e a um baixo controle de impulsos.

Além disso, as pessoas que sofrem dessa doença costumam ter uma baixa autoestima e mais ansiedade e “sensibilidade interpessoal” (Macías et. al., 2003) do que as pessoas com anorexia nervosa. Da mesma forma, devido à alta impulsividade, podem apresentar comportamentos imprevisíveis.

Características dos transtornos alimentares

Transtornos de personalidade e TA

Não podemos falar das características de personalidade sem mencionar os transtornos da mesma natureza. Existe uma elevada relação entre os transtornos de personalidade e os transtornos alimentares. De fato, estudos indicam uma prevalência entre 53% e 93%.

Assim, foi encontrada uma relação entre a anorexia nervosa e o transtorno de personalidade esquiva, o transtorno dependente e o transtorno obsessivo-compulsivo.

Em relação à bulimia nervosa, a literatura existente a relaciona aos transtornos afetivos, transtornos de ansiedade e transtornos por abuso de substâncias.

Dada a complexidade de tratamento imposta pelos transtornos alimentares, a personalidade do paciente desempenha um papel determinante. A necessidade de controle, a impulsividade e a falta de flexibilidade mental representam um problema ao trabalhar com a pessoa.

Por esse motivo, é recomendável trabalhar essas características na terapia, pois elas influenciam a manutenção de crenças e distorções cognitivas (nas quais influi a inflexibilidade mental), expurgos e compulsões (impulsividade) e dietas restritivas (por exemplo, necessidade de controle).

  • Behar, R., Barahona, M., Iglesias, B., & Casanova, D. (2008). Trastornos de la conducta alimentaria y trastorno obsesivo-compulsivo: Un estudio de prevalencia. Revista chilena de neuro-psiquiatría46(1), 25-34.
  • Macías, L. G., Unikel, C., Cruz, C., & Caballero, A. (2003). Personalidad y trastornos de la conducta alimentaria. Salud mental26(3), 1-8.
  • Vázquez Arévalo, R., López Aguilar, X., Ocampo Tellez-Girón, M. T., & Mancilla-Diaz, J. M. (2015). El diagnóstico de los trastornos alimentarios del DSM-IV-TR al DSM-5. Revista mexicana de trastornos alimentarios6(2), 108-120.
  • https://es.wikipedia.org/wiki/Trastornos_de_la_conducta_alimentaria
  • http://www.acab.org/es/que-son-los-trastornos-de-la-conducta-alimentaria
  • https://www.alboranpsicologia.es/psicologo/anorexia-y-bulimia/