Transtornos de controle dos impulsos

24 Novembro, 2020
Os transtornos de controle dos impulsos afetam grande parte da população. Neste artigo, listaremos os principais e descreveremos suas características mais importantes.

Todos os seres humanos têm desejos ou sentem desejos. Porém, a maioria deles não atinge intensidade suficiente para exceder os recursos de que dispomos para controlá-los. Por outro lado, embora às vezes não seja o caso, este fenômeno não ocorre com frequência suficiente para ser uma fonte de sofrimento significativo em nossas vidas ou na vida de outras pessoas – uma condição para podermos falar dos transtornos de controle dos impulsos ou de distúrbios devido a déficits de controle dos impulsos.

Antes de continuar, é conveniente definir um termo crucial neste campo: a impulsividade. Segundo Moller, Barrat, Dougherty, Schmitz e Swann (2001), a impulsividade seria uma predisposição para a execução de ações rápidas e não planejadas, para estímulos internos ou externos, sem qualquer consideração pelas consequências negativas que a reação pode ter, tanto para o indivíduo impulsivo quanto para os outros. Essa reação pode ser visível ou evidente, como fazer um telefonema, mas também pode ser escondida do observador, como imaginar uma conversa com outra pessoa.

Quando o caso é leve, as consequências negativas geralmente não são tão importantes a ponto de causar alarme. A questão é que esses casos de longa duração podem acabar gerando muita dor: o transtorno existe, mas, por ser leve, a pessoa ou o ambiente não adotam qualquer medida. Assim, podemos presenciar uma cronificação e, portanto, uma maior resistência a uma intervenção posterior. Em termos de prevalência, é maior nos homens, embora a diferença pareça estar diminuindo e varie de acordo com o transtorno específico.

Portanto, neste artigo, queremos falar sobre os principais transtornos associados ao controle dos impulsos incluídos no DSM IV.

Todos os seres humanos têm desejos ou sentem desejos

Transtorno explosivo intermitente

A raiva e a ira são os principais protagonistas deste transtorno. A energia da emoção nesses casos supera completamente a pessoa. Assim, para gastá-la ou descartá-la, ela pode se tornar agressiva e causar danos significativos.

Estamos falando de uma agressividade física, mas também verbal. Podemos ver isso em alguns abusadores, mas nem todos sofrem desse transtorno. Assim, poderíamos identificar uma continuação das birras infantis na pessoa. É claro que os danos causados não podem nem ser comparados, já que a força de um adulto não pode ser comparada à de uma criança.

Nestes casos, os pacientes tendem a melhorar muito quando, em consulta, oferecemos outras saídas para essa mesma energia. Nesse sentido, medidas preventivas podem ser adotadas, como exercícios, cuidados com a alimentação ou o abandono de substâncias estimulantes, mas também podem ser proporcionadas formas e meios de enfrentamento direto quando elas sentirem que vão perder o controle.

Cleptomania

Nestes casos, o roubo ou furto é a saída preferencial que a pessoa utiliza para tentar acalmar a ansiedade. Trata-se de uma conduta instrumental reforçadora em si mesma, agindo como calmante ou sedativo; o de menos, em muitos casos, é o que foi roubado. Portanto, não tem nada a ver com o fato de a pessoa ter suas necessidades atendidas ou não.

Talvez seja um dos transtornos mais conhecidos do grande público, já que os personagens que a sofrem aparecem com frequência no cinema ou na televisão. Talvez um dos mais icônicos seja Marie Schrader de Breaking Bad. Ela representa perfeitamente a realidade; vemos a negação sistemática do problema ao mesmo tempo que vemos como o sentimento da vergonha produz uma energia que é canalizada através da ameaça.

Por outro lado, as pessoas com cleptomania, em muitos casos, depois de darem o difícil passo de reconhecer o problema, minimizam o seu comportamento. Elas podem argumentar que o que roubaram é simplesmente um detalhe ou um objeto de pouco valor que não vai prejudicar a loja, o supermercado, a família, etc. do qual foi roubado. Ele produziu um grande bem para ela – se livrar da sua ansiedade – e não gerou um grande mal para ninguém. A mente é fantástica quando se trata de moldar a realidade para encontrar nela motivos para continuar fazendo o que nos reforça.

Apostador patológico (jogos de azar)

No caso do apostador patológico, a saída para acalmar a ansiedade é a liberação de adrenalina produzida por essa atividade. O jogo funciona como um vício muito caro em termos de dinheiro. Um apostador pode ganhar em um determinado momento, mas a lei dos grandes números nos diz que, a longo prazo, ele sempre vai acabar perdendo. Caso contrário, não seria um negócio lucrativo.

Assim, esses tipos de jogadores acabam sendo vítimas da sua tendência aos jogos de azar. Estamos falando de um problema que geralmente é detectado quando as consequências já são importantes. No início, é fácil para o ambiente e para a pessoa normalizar a atividade: são apenas pequenas apostas. Aos primeiros sinais de alerta, a pessoa costuma procurar maneiras de esconder o seu comportamento, evitando que alguém se interponha entre ela e o jogo.

Por outro lado, a própria atividade acaba sequestrando boa parte da sua energia física e mental. Ela passa o tempo pensando em onde vai jogar e como vai jogar, tanto para ganhar quanto para que ninguém a pegue. Por outro lado, a pessoa acaba depositando no jogo cada vez mais esperanças de sair do buraco em que está entrando. Assim, ela pode vir a aceitar ideias cada vez mais irreais: ela está perdendo há muito tempo, então aquela jogada em que tudo será recuperado está cada vez mais próxima. Esse tipo de pensamento é uma almofada para o impacto emocional do reconhecimento de tudo o que ela perdeu.

Entre os transtornos de controle dos impulsos, também podemos encontrar a piromania, tricotilomania, síndrome de Diógenes ou o transtorno de controle dos impulsos não especificado. Os três transtornos que descrevemos servem para identificar as linhas comuns desta categoria diagnóstica.

Moeller, F. G., Barratt, E. S., Dougherty, D. M., Schmitz, J. M., & Swann, A. C. (2001). Psychiatric aspects of impulsivity. The American journal of psychiatry, 158(11), 1783–1793. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.158.11.178