Um estranho no ninho, liberdade e loucura - A Mente é Maravilhosa

‘Um estranho no ninho’, liberdade e loucura

junho 4, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Um estranho no ninho

Recordando o falecido Miloš Forman, diretor de grandes títulos como Hair ou Amadeus, recuperamos um de seus filmes mais conhecidos: Um estranho no ninho (1975), filme que nos presenteou com o que, provavelmente, foi o melhor papel da carreira de Jack Nicholson.

Dirigido por Forman e inspirado no romance homônimo de Ken Kesey, Um estranho no ninho é um daqueles filmes que entrou para os clássicos da história do cinema, nos presenteando com cenas inesquecíveis das quais vemos algumas amostras em outras obras. Um filme no qual se destaca, acima de todos os pontos fortes que o compõem, a sublime atuação de Nicholson.

Um estranho no ninho, filme ganhador de 5 Oscars, nos apresenta Randle McMurphy, um homem que enfrenta uma sentença na cadeia e, tentando escapar, decide se passar por louco. Como consequência, ele é internado em um hospital psiquiátrico no qual é avaliado e onde vai conviver com outros pacientes.

Nesse lugar trabalha a enfermeira Ratched, que será a principal antagonista. Uma mulher intransigente que trata os pacientes com superioridade e soberbia. McMurphy será um sopro de ar fresco para os outros pacientes, será o despertar de seus desejos de liberdade e isso fará com que ocorram vários conflitos com a enfermeira Ratched.

Um estranho no ninho é uma denúncia aos manicômios e às instituições mentais, uma denúncia a como os “loucos” foram tratados ao longo da história, um grito de guerra no local dos eternos esquecidos. Mas, além disso, é um despertar à liberdade de todos os indivíduos.

Cena do filme 'Um estranho no ninho'

Os loucos em Um estranho no ninho

Quem são os loucos? A resposta a essa pergunta pode parecer simples. Mas se recorrermos à história, veremos que a ideia do “normal” mudou ao longo do tempo. As normas sociais, os progressos na medicina, na ciência e em outras áreas influenciaram profundamente a concepção de loucura. Ou seja, o que em dado momento é considerado uma doença mental, em outro pode não ser.

Os loucos nem sempre foram os mesmos e também não foram sempre excluídos da mesma forma. Por vezes houve tentativas de “cura” ao submetê-los a tratamentos como a lobotomia, outras vezes foram perseguidos até a morte. Tudo o que sai do “normal”, do convencional em dado momento, sofre perseguição. Era assim na Idade Média com a bruxaria ou com algumas doenças como a lepra. História da loucura na Idade Clássica é uma obra de Foucault que trata muito bem dessa ideia da exclusão e perseguição da loucura.

Foucault alertava em sua obra que, com o tempo, houve a tentativa de converter o louco, de “adestrá-lo” para que fosse normal. Como se conseguia isso? Por meio da autoridade e de alguns tratamentos cujo único efeito era anular o paciente, transformá-lo, consequentemente, em uma pessoa submissa. Isso é exatamente o que observamos em Um estranho no ninho, quando McMurphy, que não estava louco, mas era um delinquente, chega ao manicômio e vê um grupo de pessoas que agem sem vontade.

Cena do filme 'Um estranho no ninho'

A enfermeira brinca com o medo dos doentes. Observamos essa situação especialmente no caso de Billy, um jovem inseguro e gago que tentou se suicidar várias vezes. Ratched é amiga da mãe de Billy e, quando ele faz algo que não deve, ela o pressiona e ressalta que vai contar tudo para a mãe dele. Os loucos dessa instituição obedecem sem questionar, eles têm medo, medo dos eletrochoques e de passar por uma lobotomia se não obedecerem a enfermeira.

McMurphy, ao não ser submisso, é o personagem que se nega a obedecer, que busca a liberdade. É interessante como esse personagem começa a despertar essa mesma rebeldia nos outros pacientes, como ele consegue fazer com que aquelas pessoas, que tinham sido completamente anuladas e manipuladas, despertassem desse estado e conseguissem enfrentar a enfermeira Ratched.

Ela, ao ver sua autoridade em risco, fará tudo o que for possível para que McMurphy não saia impune. Ratched é a antagonista principal do filme, uma pessoa considerada sã, com uma boa posição que, no entanto, impõe sua vontade aos seus pacientes, os pressiona, atormenta e manipula ao seu desejo para que se comportem como “pessoas normais”, submissas e sem capacidade crítica.

Cena do filme 'Um estranho no ninho'

Buscando a liberdade

A partir desse momento, o artigo contém spoilers! Por isso, a recomendação é não continuar a leitura antes de ver o filme. Em meio a toda essa “loucura”, essa insensatez, não podemos nos esquecer de que esses pacientes são pessoas. Eles também sentem, desejam e sofrem. A enfermeira Ratched exerceu tão bem seu papel que é capaz de ter todo um exército de “loucos” sob controle, como se fosse um rebanho de ovelhas.

É interessante também observar o título original do filme: One flew over the Cuckoo’s nest. O título em inglês possui uma dupla interpretação. Por um lado, em um registro coloquial, cuckoo’s nest é uma forma de chamar os manicômios em tom depreciativo; por outro, alude a uma rima infantil que é mencionada no romance: “havia três gansos em uma revoada: um voou para o leste, um voou para o oeste e um voou sobre o ninho do cuco”, dando a entender que cada indivíduo tem seu próprio caminho na vida.

Pensando no último significado, nos damos conta de que essa ideia do destino em forma de tríade também está presente no filme. A liberdade é o motor que move McMurphy, que o leva a desafiar as regras da instituição. Mas ele também se solidariza com os outros e tenta guiá-los em direção à liberdade.

McMurphy dá passos no sentido dessa libertação dos outros: primeiro, propondo assistir um jogo de beisebol; depois, sequestrando um banco, tirando-os da monotonia; e finalmente, com a festa e a presença das mulheres. McMurphy sente pena de Billy, pois ele é jovem e pouco viveu; algo também o une ao chefe indígena, um personagem enigmático e solitário.

Cena do filme 'Um estranho no ninho'

Retomando a ideia da tríade, vemos que são três os personagens que, de uma maneira ou de outra, alcançam a liberdade: Billy, McMurphy e o chefe indígena. Eles são os três gansos da rima. O primeiro, como já adiantamos, é um jovem cheio de inseguranças e problemas com a mãe. Ratched sabe disso e enterrou profundamente a ânsia de liberdade de Billy. McMurphy volta a despertá-la, dando ao jovem a oportunidade de se divertir com uma mulher. Ao ser descoberto, Billy se confronta com duas posições: o medo das consequências e a felicidade por si mesmo. Billy não consegue suportar toda a pressão que Ratched exerce sobre ele e se suicida. Após a morte, alcança, de certa maneira, a liberdade.

McMurphy é condenado por ter desobedecido e passa por uma lobotomia, ficando em estado praticamente vegetativo, sem vontade e sem liberdade. É por isso que o chefe indígena, que se fez passar por surdo-mudo durante anos, se compadece dele e o mata como liberação, como favor por tê-lo libertado também, por tê-lo feito abrir os olhos. O chefe indígena, por fim, é o personagem que conquista uma liberdade não metafórica, escapando do manicômio.

McMurphy conseguiu tirar os pacientes dessa caverna platônica na qual Ratched os havia colocado. A cena final do chefe indígena correndo para a liberdade é realmente reveladora e encorajadora. Não importa se para conseguir a liberdade alguns tiveram que morrer, não importa o destino que vai esperar o chefe indígena, porque eles venceram.

“Devo estar louco para estar em um manicômio como esse”.
-Um estranho no ninho-

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