Um prego não remove outro: o que o retira é o martelo que o pregou

Um prego não remove outro: o que o retira é o martelo que o pregou

17, fevereiro 2017 em Psicologia 2991 Compartilhados
Um prego não remove outro: o que retira é o martelo que o pregou

Por mais que acreditemos nisso, um prego nunca irá remover outro prego. Iniciar uma nova relação afetiva como quem busca um analgésico para a dor de um rompimento recente não é o mais indicado. Esse prego fincado no nosso coração só poderá ser retirado com o próprio martelo que o pregou: colocar outro significa aumentar o buraco ainda mais.

Sobreviver a um rompimento sentimental é algo para o qual ninguém está preparado. Assim como nos explica o doutor Vicente Garrido, muitas vezes costumamos nos desesperar tentando buscar um porquê. É difícil compreender que às vezes os relacionamentos naufragam porque as pessoas têm que ter livre arbítrio, porque o amor acaba ou porque simplesmente a outra pessoa não é madura o suficiente para viver tamanha responsabilidade.

Assumir o adeus definitivo, a distância e o fato de ter que começar uma nova vida com um vazio do outro lado da cama e, pior ainda, no coração, é desesperador. O nosso cérebro entra em estado de “alarme”, interpreta essa dor como algo real, como um impacto muito semelhante ao de uma queimadura. Nós precisamos aliviar essa queimadura com uma boa dose de dopamina, com algo fácil e rápido que anestesie a dor da alma.

Há quem consiga evitar esses processos realizando um adequado processo de aceitação, um procedimento lento e delicado em que a pessoa vai consertando uma a uma as peças quebradas. Outros, por outro lado, se negam a assumir o final e buscam a desesperada reconciliação com o parceiro, e por último há os que iniciam um caminho que nem sempre funciona: o das relações “substitutas”.

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O prego que habita em seu coração

A clássica expressão de que “um prego remove outro prego” aparece pela primeira vez no livro de Marco Túlio Cícero “Disputas Tusculanas” em meados do ano 44 a.C. Este texto ia dirigido a Marco Bruto e, em um determinado momento, ao falar do mal dos amores, ele escreve o seguinte: “Novo amore, veteram amorem, tamquam clavo clavum, eficiendum putant” (“o novo amor traz para fora o velho amor, assim como um prego remove o outro”).

É claro que não há nada como voltar a iniciar um relacionamento estável, feliz e maduro para nos darmos uma nova oportunidade, mas somente se estivermos realmente preparados para isso. Porque a verdade é que ninguém é insubstituível, o que não somos é permutáveis. Ninguém tem por que servir de band-aid para a angústia, de analgésico momentâneo para a melancolia do desamor não superado.

O rompimento, um naufrágio químico

Lucy Brown, neurocientista da Universidade de Medicina Einstein e especialista nas respostas do cérebro em relação ao amor, nos explica que, em média, superar um rompimento emocional pode demorar entre 6 meses e dois anos. Existem muitas diferenças individuais; no entanto, segundo diversos estudos, são os homens os que demoram mais para se recuperar. As mulheres, por sua vez, sofrem um impacto emocional mais forte, mas superam os rompimentos mais cedo.

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O final de uma relação é vivida como um ato traumático porque o nosso cérebro está programado para nos conectar com outras pessoas, e quando construímos esse tendão psíquico baseado no afeto e no amor, poucas coisas podem ser tão gratificantes. Romper este vínculo é um verdadeiro naufrágio químico.

Se durante a primeira fase da relação a paixão se vincula à parte mais primitiva do nosso cérebro, a perda e esse estado onde nos perdemos na amargura da dor também emerge dessa área mais antiga. Durante um tempo, a emoção domina a razão. Mesmo que seja aos poucos, emergimos destas névoas com sabor de lágrimas e solidão.

Tempo de chorar, tempo de amar

Iniciar um novo relacionamento pouco tempo depois de ter terminado um de forma complexa e dolorosa não significa que não possa nos aliviar, nos distrair e nos fazer rir e desfrutar. Mas não passar pelo momento de dor de forma adequada pode fazer com que nos “lancemos” ao vazio com todos os nossos sentidos ao máximo: temos fome de amor, de sermos consolados, buscamos a intensidade, e não a calma que certamente nos faria recordar de quem já não nos ama.

Não queremos meios-termos, e algo assim pode provocar sérios efeitos colaterais: que a outra pessoa, por exemplo, se apaixone quando nós buscamos apenas um substituto, um anestésico emocional. No entanto, é claro que cada pessoa é um mundo e que talvez até mesmo esse ato arriscado possa dar certo; mas o destino de qualquer prego é receber marteladas. Por isso, antes de fazer um buraco maior ainda, é melhor fazer uma reflexão sobre isso.

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Iniciar um relacionamento somente para nutrir as carências, as necessidades e as frustrações é “pegar” o que você precisa da outra pessoa, como o ladrão que invade uma casa à noite para roubar. Não é algo lícito.

  • Nós vivemos em uma época onde as pessoas levam muito a sério isso de “ir levando“. Quando nos perguntamos uns aos outros “como vai?”, costumamos responder sempre “muito bem, estou levando“. É como se fosse a nossa obrigação seguir sempre em pé neste caminho frenético onde quem para acaba se perdendo.
  • No entanto, pararmos de vez em quando é uma necessidade vital. Não vivemos no mundo de Alice no País das Maravilhas, onde a Rainha Vermelha obrigava a todos a correr mais rápido para sobreviver. Nosso cérebro também precisa de calma e daqueles momentos de introspecção para recolher os pedaços, fechar as feridas e se reconstruir.

Há um tempo para chorar e um tempo para voltar a amar, mas não para amar outras pessoas, e sim para voltarmos a amar a nós mesmos. Porque a mente que carrega ressentimentos e sonhos despedaçados alimenta a baixa autoestima no coração, e ninguém, absolutamente ninguém, pode voltar a ser feliz com esse tipo de bagagem.