Do outro lado, uma história do além

· novembro 1, 2018

‘Uma história do além’; assim intitulei meu primeiro artigo sobre a compaixão humana. É uma emoção que parece acontecer com cada vez menos frequência, por isso, quando presencio um ato de bondade, tenho a impressão de estar presenciando uma história que vai além da realidade.

Já está na hora de voltar para casa. A redação está vazia. O celular toca mais uma vez. Eu o atendo, mas só escuto uma voz estranha. O sinal é cortado. Me pergunto quem ligaria de forma tão insistente. Está na hora de voltar para casa.

A chuva cai cada vez mais forte. Diminuo de 110km/h para 80km/h. Não sei exatamente o que pode acontecer comigo. A rodovia está vazia. São onze e meia da noite e as pessoas já estão em casa se preparando para o dia seguinte.

Hoje é um dia de tempestade. A chuva vem molhando as ruas desde as seis da manhã e, segundo as previsões meteorológicas, parece que não vai cessar antes de dois ou três dias. O celular toca mais uma vez. Nunca atendo enquanto dirijo.

Um relâmpago no horizonte dá a entender que a chuva do dia foi só um aperitivo; a tempestade se aproxima e é melhor chegar em casa logo se eu não quiser ser vítima de sua fúria.

Estaciono na rua, desço do carro e entro em casa. Um raio ilumina o céu e um trovão faz o papel de antessala do maior dilúvio que já vi em toda a minha vida. Penduro a jaqueta no cabideiro, troco de roupa e fico confortável. O celular toca mais uma vez.

“Pois não?”, perguntei.
“Pensei que não estava conseguindo me ouvir bem”, respondeu uma voz masculina madura.
“Quem é?”, perguntei.
“É o Alberto, seu avô.”
Fiquei alguns segundos em silêncio.
“Eu vou perguntar de novo, quem é?”
“Eu já te disse, seu avô”.
“Meu avô está morto!”, respondi furioso.
“Há 39 anos, não chegamos a nos conhecer…”

Chuva na janela

À meia noite, uma história do além

Um trovão me tirou daquele incômodo momento e descobri que a ligação tinha caído. Ou talvez eu tenha desligado. Não sei. Nunca gostei de brincadeiras de mau gosto no telefone.

No entanto, meu avô realmente havia morrido há 39 anos e eu nunca o conheci, embora qualquer pessoa que soubesse algo sobre a minha família pudesse saber disso.

Olhei para o relógio e era meia-noite. Que tarde. Sentei-me no sofá para ler um artigo que estava pendente e, em seguida, ia dormir. Comecei a ler o artigo e o celular voltou a tocar.

Atendi. “É normal duvidar, não estamos acostumados a conversar com nossos familiares falecidos. Mas não se preocupe, é só uma experiência, uma história do além das quais você tanto gosta. Com o passar do tempo, você vai poder valorizá-la com mais objetividade”, afirmou aquela voz que dizia vir do outro lado.

Eu não sabia o que dizer. Se fosse uma brincadeira, eu queria desligar, mas e se fosse verdade? “Em que ano você nasceu?”, perguntei sem pensar. “Em 1920”, respondeu, “Dia 8 de maio de 1920”.

A chuva batia com força nos vidros das janelas. A tempestade aumentava sua intensidade e a luz começava a piscar. A data de nascimento estava correta. Mas isso não provava muita coisa. “Permita-me dizer que fico muito feliz que tenha uma foto minha em sua sala e que me leve no pescoço”, adicionou a voz.

Me levantei e fui correndo até a estante. Tinha me mudado para esta casa há apenas dois meses e ninguém tinha vindo me visitar. Como podia saber que o homem da foto que estava ao lado do telefone de casa era o meu avô? E como ele sabia que eu usava uma corrente que meu avô havia usado por toda a sua vida?

“Acalme-se, não se assuste, sente”, a voz tentou me acalmar. “Escute, se isso for uma brincadeira, se alguém tiver colocado câmeras na minha casa, vou chamar a polícia!”, respondi com muita raiva. Me sentei e tentei manter a calma. Parecia que a minha própria história estava vindo do além. Eu sabia que não ia me esquecer deste dia de tempestade facilmente.

Esquemas quebrados

“Eu sei que não é muito comum que isso aconteça, te ensinaram que quem fala com os mortos é louco e agora você acha que alguém está pregando uma peça em você ou que você está perdendo a cabeça. Pense que nem tudo na vida é como parece. Aprendemos desde pequenos a ter um ponto de vista e isso nos limita na hora de aceitar outras realidades”, relatava a voz, “não acredite em tudo que você vê, nem eu tudo o que te dizem, duvide de tudo, baseie-se em sua própria experiência”.

“A morte não existe, as pessoas só morrem quando são esquecidas; se você puder se lembrar de mim, sempre estarei com você.”
-Isabel Allende-

Minha incredulidade era máxima. Os assuntos do além, as manifestações que podiam acontecer do outro lado da vida sempre tinham chamado a minha atenção, mas agora que parecia que eu as estava vivendo, tinha muitas dúvidas. Me negava a acreditar.

Por alguma estranha razão, sentia um grande amor pelo avô que nunca conheci. Eu o levava muito dentro de mim. Talvez por não poder ter passado tempo com ele, sentia este carinho tão grande e especial.

“Vejamos, digamos que é verdade, que você é o meu avô… como você conseguiu me ligar no celular?”, perguntei, “Graças à tempestade, um canal foi aberto, nem sempre é fácil se comunicar com o seu plano, mas algumas ocasiões facilitam este acontecimento. Nossos mundos estão muito próximos, mas ao mesmo tempo muito distantes. Ocupamos o mesmo lugar, mas por se tratar de outra dimensão, não podemos nos ver”, respondeu.

Silhueta de homem na janela

Uma nova flor

“Entendo, e quando a tempestade passar, não vamos poder conversar?”, perguntei. “Eu não sei, possivelmente será mais difícil. De toda forma, não estarei muito mais tempo por aqui, devo abandonar este plano e voltar para o seu. A sua história do além não tem muito tempo”.

“O que você quer dizer?”, perguntei com estranhamento, “Nós vamos nos ver neste plano?”. “Talvez sim, mas não nos reconheceremos”, respondeu. “Explique-se”, pedi a ele, intrigado. “Estou nessa dimensão há mais tempo do que deveria. Quando abandonamos o corpo, repassamos aquilo que aprendemos, tanto bom quanto ruim. E se pudermos resolver alguns assuntos pendentes, fazemos isso. Você precisava desta evidência para continuar com seu desenvolvimento, sempre se perguntou se havia vida do outro lado, mas até agora não tive a oportunidade de entrar em contato com você”.

“Por que?”, perguntei, “Por que não conseguiu?”. “Você não estava preparado”, respondeu, Apesar de sua inclinação em querer acreditar nos sinais que podiam chegar desde o outro lado, não acreditou em mim. Agora que já entrei em contato com você, devo ir”.

“Espere!”, gritei, “Posso saber onde você vai nascer?”. “Eu não sei, posso nascer tanto no corpo de uma mulher quanto no corpo de um homem. E também não me lembrarei de nada desta vida, talvez tenha alguma lembrança isolada que interpretarei como algo estranho em minha mente, mas nada além disso.”, respondeu.

“Vovô…”
“Diga”
“Obrigado, sempre te carreguei em meu coração e sempre o farei.”
“Eu sei, eu também, agora devo ir. Eu te amo”.
“E eu também…”, disse.

O sinal caiu e o celular ficou no meu colo. Deitei no sofá. Sem dizer uma palavra, fiquei observando o teto, incrédulo. A minha mente vagava entre a crença e o autoengano.

O belo dorminhoco

Já tem quatro anos de idade e só quer brincar e dormir. Ele se chama Alberto, como seu bisavô. No mesmo ano em que conversei com meu avô, conheci a minha atual esposa e em pouco tempo tivemos um filho. Aquele dia da tempestade causou uma grande mudança em minha vida.

Os acontecimentos se desenvolveram mais rápido do que eu imaginava, mas estávamos felizes. Aberto era brincalhão e gostava de abrir todos os armários. Às vezes, me deixava louco com a sua energia e eu caía exausto no sofá.

Naquele dia, entrei no quarto e encontrei todas as gavetas vazias. Tudo estava bagunçado no chão. Alberto estava sentado no tapete brincando com algumas jóias. Corri até ele e o levantei. “Olha a bagunça que você está fazendo! Agora você vai ter que arrumar tudo!”, gritei com ele.

Observei que ele estava usando a corrente de meu avô. Eu a havia guardado no primeiro e único dia em que conversei com ele. Pensei que tinha cumprido sua missão e decidi guardá-la. Muitas vezes penso que tal corrente foi importante na minha história do além com meu avô.

Mão de criança em vidro

Estendi a mão para tirá-la de seu pescoço, mas o pequeno Alberto ofereceu resistência. “Meu filho, temos que guardar esta corrente, ela era de seu avô e pode acabar quebrando”. Ele me olhou com a testa franzida e disse, “Não, não é sua, é minha”.

Eu não estava com vontade de travar uma batalha eterna com ele. Sua mãe era teimosa e eu também, é claro que ele também tinha que ser teimoso. Só me limitei a dizer “Um dia lhe darei esta corrente de presente, mas não hoje, você é muito pequeno e não gostaria que você a perdesse”.

“Não, você não vai me dar a corrente de presente porque ela já é minha”, respondeu de novo me olhando com indignação. “Ah, é? E quem te deu de presente?”, perguntei. “A senhora da sala”, respondeu. “Que senhora da sala? Mamãe não está em casa e na sala só temos…” – de repente, fiquei pálido: era a foto da sua bisavó.