A verdade sobre os livros de autoajuda

· julho 7, 2015

Coincidentemente, em um fórum que eu estava participando, surgiu um debate sobre os livros de autoajuda. Fiquei bastante chocada ao ler alguns comentários dos participantes. A seguir, divido com vocês as minhas conclusões.

Ao longo da minha vida como psicóloga, que começou há muitos anos atrás, eu li centenas de livros. No início eram textos de profissionais para profissionais; na verdade alguns eram bem densos e incompreensíveis. Foi depois de mais de uma década que começaram a surgir os livros de autoajuda, que colocavam as experiências dos profissionais ao alcance de todos. Não havia mais a necessidade de um psicólogo para resolver os problemas.

Eu li muitos desses livros. Alguns excelentes, outros corretos e outros péssimos. O debate a que me referi me fez pensar no que é realmente a “autoajuda”. Meu ponto de vista inclui dois fatores:

1- Todos os livros que lemos podem nos ajudar de alguma forma. Nos fazem compreender as situações, as atitudes, os desafios, os relacionamentos e nossos medos. Acabamos nos identificando com os personagens, com as situações, aprendemos novas formas de ver o mundo e a nós mesmos. Aprendemos sobre geografia, geopolítica, história, física quântica ou qualquer outro assunto que nos interesse.

2- Existe apenas uma ajuda eficaz: a nossa. Podemos nos consultar com o melhor especialista do mundo, mas se não tomarmos a decisão de enfrentar e resolver a situação, tanto emocional quanto material, o resultado será um fracasso.

Ajudar a nós mesmos

Somos arquitetos do nosso destino. É a nossa percepção (nossa e não da outra pessoa), que cria a nossa realidade e determina as nossas escolhas em todos os momentos da vida. Um exemplo disso é o seguinte: imagine ir ao cinema com uma centena de outras pessoas e, no final, cada um deve responder um questionário sobre o filme. Quantas versões do filme surgirão? Pois é, nada menos que cem versões. Isso porque o nosso cérebro associa tudo o que vemos no filme com as nossas vivências, que estão arquivadas em nossa memória.

A nossa mente é associativa e amarra as informações aleatoriamente, seguindo uma lógica que só ela entende. Atribui significados e símbolos a partir de fatos que nos emocionaram em algum momento, que nos chocaram, aterrorizaram, apaixonaram, e os entrelaça de tal modo que, para deixarem de funcionar automaticamente, deve ser feito um trabalho de desativação voluntária.

Quando se trata de um livro, a mente faz o mesmo. Todas as informações contidas no livro são associadas às nossas referências e vivências. Então, se uma pessoa acha que um livro de autoajuda é um lixo, mesmo que ela se depare com informações que realmente podem ajudá-la, é provável que ele não tenha nenhum efeito.

Para uma pessoa que acredita que essas informações podem ser úteis (mesmo que sejam medíocres) sempre haverá bons resultados. Ela saberá tirar algum proveito: os ensinamentos chamarão a sua atenção e ela perceberá que deve mudar sua maneira de encarar o mundo, fará os exercícios propostos e isso mudará sua vida de alguma forma.

Outro ponto importante para o sucesso dos livros de autoajuda é a chave para qualquer aprendizagem: a prática. Pratique o que aprendeu, seja persistente, repita os exercícios aprendidos, incorpore à sua vida esses novos comportamentos. Esses comportamentos podem ser externos, como levantar-se uma hora mais cedo para exercer alguma atividade extra, ou internos, como repetir para si mesmo uma frase que consiga mudar a intensidade do estresse ou do medo.

Muitas vezes há livros, workshops e cursos que caem no esquecimento, pois não praticamos o que foi aprendido. A culpa não é deles e sim do estudante, que não soube aproveitar a experiência e o aprendizado.

Lembro-me de um livro muito importante da minha infância “A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia”, de Selma Lagerlof. Não era um livro de autoajuda, mas me ajudou muito. Contava muitas aventuras, havia sempre uma solução para os problemas e os comportamentos tinham consequências. O melhor é que ele mostrava que o que traz felicidade é estar em harmonia consigo mesmo e com todos os seres vivos. Eu tinha uns dez anos e isso me ensinou a cultivar essas atitudes, que eram as mesmas que eu via em minha mãe, sempre disposta a ajudar os outros. Isso me ajudou a decidir que não queria ser uma médica ou um professora, mas uma psicóloga.

É claro que tive muitas outras experiências, mas esse livro eu li e reli muitas vezes; ele desempenhou um papel muito significativo em minha vida.

Alguns anos mais tarde, Miguel Delibes me influenciou a escrever minhas primeiras histórias. “O avô” foi o meu primeiro conto.

Muitas outras obras literárias foram significativas para compreender melhor a vida e o mundo. O conhecimento tão valioso dos livros, de seus autores, psicólogos e psicoterapeutas que, juntamente com os meus professores e orientadores, me fizeram o que sou neste campo extraordinário da psique e emoções humanas.

E sim, os livros de autoajuda também me ajudaram a entender melhor os meus pacientes, a aprender com eles, a questionar-me e alcançar sucesso nos tratamentos aplicados.

Podemos confiar em um livro de autoajuda?

Bem, isso depende. Depende da sua atitude. Ler e entender o conteúdo, colocar as sugestões em prática e entender o quanto você se identifica com os problemas e as soluções propostas são passos muito importantes. Perceba se esse é o momento certo para as mudanças na sua vida ou se prefere suportar as dificuldades ou o medo das mudanças. A escolha é sua.

O sucesso de um livro de autoajuda depende da reação e da resposta das pessoas ao seu conteúdo. Mesmo em um livro de autoajuda considerado ruim, uma pessoa pode encontrar a chave que faltava para resolver seus problemas.

Então sim, eu acredito que esses livros podem ajudar… aqueles que querem ser ajudados.