Violência intragênero, outro tipo de violência invisível

· fevereiro 15, 2019

A violência intragênero é a violência exercida dentro de um casal do mesmo sexo. Este tipo de agressão constitui, assim como acontece na violência machista, a busca pelo controle e pela dominação por parte de um dos integrantes do casal sobre o outro.

É assim que a Aldarte, uma das maiores associações de atenção ao público LGBT, define este tipo de violência. Eles tentam dar visibilidade a ela, dar às vítimas uma voz para que esta realidade tão silenciada seja divulgada.

Atualmente, não há muitos estudos sobre este tipo de violência. A relação afetiva e sexual em um casal homossexual continua coberta por uma série de mitos, omitindo o fato de que situações violentas possam ocorrer.

Questões comuns entre a violência machista e a violência intragênero

A violência intragênero e a violência machista contam com aspectos parecidos que acontecem em ambas as relações. O agressor ou agressora busca o controle e a submissão de seu parceiro através de uma posição dominante.

O ciclo da violência, junto com o aumento do abuso com o tempo, são processos bastante comuns. Inclusive, muitos tipos de violência, como a física, a psicológica e a sexual, são próprias de ambas as relações.

O crescimento do abuso se caracteriza pelo aumento progressivo da violência. No começo, são alguns atos que se confundem com gestos carinhosos e de amor. Isso vai aumentando, de maneira progressiva, para uma agressividade e um controle cada vez maiores, que acabam isolando a vítima.

Acabar com a violência de gênero

O ciclo de violência é conhecido por três fases bem específicas:

  • Fase de acumulação de tensão: pequenos momentos e atos que provocam um aumento da hostilidade por parte do agressor com a vítima. Um grito, um olhar frio em público, uma ameaça de agressão, um empurrão, etc. A vítima pensa que são somente fatos isolados e pontuais e que ela vai conseguir controlar a situação.
  • Fase de explosão: quando essa tensão chega ao limite, o agressor descarrega sobre a vítima toda a ira e frustração que ficaram acumuladas durante tanto tempo. É aqui que ocorre a maior violência e o agredido costuma precisar de assistência médica.
  • Fase de reconciliação ou “lua de mel”: momento de arrependimento por parte de quem exerceu a violência. Essa pessoa faz, então, muitas promessas e carinhos, jurando que algo parecido nunca mais vai acontecer e pedindo uma segunda oportunidade, alegando que a agressão aconteceu em um contexto de exaltação/alienação. No entanto, o ciclo continua.

Os tipos específicos de violência

Existem certas formas de violência dentro de um casal de pessoas do mesmo sexo que são muito diferentes da violência que podemos encontrar nos casais heterossexuais.

  • Violência relacionada com o HIV: cabe ressaltar que ela não é exclusiva da violência intragênero, mas dada a importância dentro deste grupo, ela merece ser mencionada. Esta violência se caracteriza pela descoberta do estado soropositivo da outra pessoa e a manipulação do mesmo através da doença, impedindo o seu acesso a medicamentos, etc.
  • Violência sobre a identidade sexual: o emprego dos estereótipos que definem a comunidade LGBT e a agressão ao seu parceiro por ele se encaixar dentro dos mesmos. Da mesma forma, impedir o contato dele ou limitar a sua participação na comunidade.
  • Outing: as pessoas homossexuais (apesar de isso ocorrer cada vez menos) costumam ocultar a sua orientação sexual devido ao medo do estigma e da rejeição. O parceiro agressor pode fazer uso desse fato, ameaçando revelá-lo aos seus familiares, chefes, etc. Desta forma, a vítima mergulha em um isolamento social.

As circunstâncias da violência intragênero

A violência intragênero é uma realidade silenciada. Não conhecemos muitos casos, não porque eles não aconteçam, mas porque eles não são denunciados. Em algumas ocasiões, isso supõe uma dupla vitimização: a vítima sofre os maus-tratos, mas também lida com o estigma pelo fato de ser homossexual.

O medo de ser alvo de piadas, ou o fato de ter que demonstrar publicamente a sua orientação sexual, são possíveis traumas pelos quais a pessoa não quer passar.

Existem outras razões pelas quais este tipo de violência não apresenta uma grande relevância, nem a necessidade da adoção de medidas contra a sua ocorrência, tanto para proteger as suas vítimas quanto para oferecer uma solução:

  • Escassez de estudos informativos. Não se fala dela, nem sequer nos meios de comunicação, onde um ou outro caso isolado é mencionado.
  • Falta de consciência das vítimas para que se identifiquem como tais. Falta de identificação de elementos que as transformam em vítimas. Isso as impede de tomar decisões que possam solucionar os seus problemas.
  • Discriminação social das relações LGBT. A sociedade subestima ou não dá a devida importância aos problemas que são apresentados neste grupo. Costuma-se menosprezar esse fenômeno e não levá-lo muito a sério.
  • Mitos sobre as relações entre as pessoas pertencentes à comunidade LGBT.
Dar um fim à violência

Com quais dados nós contamos?

No ano de 2009, a associação Aldarte realizou um estudo sobre a violência intragênero e publicou, em 2010, um relatório com os resultados.

A maioria das pessoas que sofrem este tipo de violência em um relacionamento amoroso costumam ser as mulheres, com 75,5% contra 23% representados pelos homens. Também é verdade que estas informações não podem ser extrapoladas, pois este mesmo estudo afirmou que uma parte dos participantes da pesquisa não representavam somente as vítimas, mas pessoas que conhecem alguém que está nessa mesma situação. Apesar de tudo, os dados são bastante relevantes.

A idade na qual ocorre a violência oscila entre 21 e 40 anos. Assim, as vítimas são predominantemente jovens e, possivelmente, os agressores também.

Outro relatório divulgado na Espanha realizado pelo Ministério da Saúde, da Política Social e da Igualdade em conjunto com o Collectiu Lambda (grupo de denúncia sobre a realidade LGBT) analisou 57 casos de violência intragênero. As mulheres continuam sendo aquelas que mais sofrem com este tipo de violência em suas relações amorosas, e a idade delas continua sendo predominantemente jovem.

Nos dois estudos, a violência que costuma ser empregada é, geralmente, a psicológica: as humilhações e as ameaças verbais. Recordemos que, neste ponto, a violência física acaba sendo a última arma. Quando a submissão psicológica não é alcançada, passa-se a tentar conseguir o domínio do indivíduo através do plano físico.

Como enfrentar isso?

O centro de atenção Aldarte luta para tentar incluir a violência intragênero na Lei Integral contra a Violência Feminina da Espanha. Nela, somente se faz referência à violência que uma mulher pode sofrer nas mãos do seu parceiro, que sempre é um homem. Desta forma, a lei está se afastando das vítimas de violência intragênero, as quais não podem receber este tipo de ajuda porque não se trata de um casal formado por uma mulher e um homem.

A violência no casal não é algo exclusivo das pessoas hetero ou homossexuais. Ela se define pela intenção do poder e do controle característicos das tentativas de submeter o outro indivíduo. Não devemos classificar a violência machista e a violência intragênero com graus diferentes de gravidade, já que isso poderia levar ao entendimento de que uma delas acaba sendo mais importante do que a outra, conduzindo a um tratamento desigual das vítimas.

  • Lagar Méndez, J.M. (2017). Violencia intragénero: proyecto de invetsigación sobre la prevalencia y los factores asociados a la ejecución del maltrato. TFG. Universidad de Salamanca. Recuperado de: https://gredos.usal.es/jspui/bitstream/10366/133455/1/TFG_LagMenJM_Violencia.pdf
  • Comparecencia ante la subcomisión para ele studio del funcionamiento de la ley integral de medidas contra la violencia de género. Congreso de los diputados. Recuperado de: http://www.aldarte.org/comun/imagenes/documentos/COMPARECENCIA.pdf