Vygotsky, Luria e Leontiev: os artífices de uma educação revolucionária

Vygotsky, Luria e Leontiev: os artífices de uma educação revolucionária

novembro 12, 2017 em Psicologia 10 Compartilhados
educação revolucionária

No início do século XX, após as revoluções socialistas, nasceu uma nova corrente psicológica no contexto da oposição ao capitalismo norte-americano. E um dos primeiros problemas a resolver foi encontrar uma nova educação que fizesse frente às exigências. Os maiores representantes dessa psicologia soviética e artífices dessa educação revolucionária foram Vygotsky, Luria e Leontiev.

Segundo a visão desses psicólogos, a educação era um assunto central: um instrumento imprescindível para que a revolução iniciada fosse passada para as gerações seguintes. Hoje em dia, os estudos soviéticos são considerados estudos de alto rigor científico e precursores de uma educação revolucionária. Neste artigo, vamos abordar o pensamento desses psicólogos, desde suas ideias de comunicação, desenvolvimento e objetivos da educação.

O modelo de comunicação

O primeiro problema que observaram na educação da sua época foi a pobreza da comunicação existente. Eles perceberam que os alunos eram sujeitos passivos na situação de aprendizado, uma consequência de que a comunicação era unidirecional, do professor para o aluno. O modelo de ensino se baseava em um professor que busca transmitir seus conhecimentos aos alunos e estes absorveriam essas noções sem questionamentos.

Sala de aula com muitas cadeiras

A psicologia soviética veio para romper com isso, ela buscava uma educação construtivista. Nesse modelo, os alunos são quem constroem o conhecimento e são sujeitos ativos do aprendizado. Portanto, o modelo de comunicação unidirecional era incompatível. Para garantir que os alunos construíssem suas ideias, era necessário transformar a sala de aula em um espaço de debate. A comunicação deveria ocorrer livremente entre aluno-aluno e aluno-professor, com as duas partes dispostas a falar e a escutar.

A função do professor nessa aula não seria comunicar seus conhecimentos magistrais. Neste modelo, sua meta seria guiar o debate entre os alunos para fomentar neles uma boa construção do aprendizado. Essa é uma tarefa altamente complexa. Porém, foi provado várias vezes que quando o aprendizado é ativo, a qualidade do ensino aumenta de maneira significativa.

A importância do desenvolvimento

Outro problema fundamental que eles observaram foi o esclarecimento da relação entre o aprendizado e o desenvolvimento. As bases desse princípio foram estabelecidas por Vygotsky com a sua teria Zona de Desenvolvimento Iminente (ZDI). Vygotsky considerava um absurdo falar de aprendizado de maneira independente ao desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Ele expôs uma teoria na qual o desenvolvimento preestabelecia o aprendizado e o aprendizado preestabelecia o desenvolvimento, criando assim um ciclo de desenvolvimento-aprendizado-desenvolvimento.

A educação revolucionária de Lev Vygotsky

Mas o que exatamente é a ZDI? Antes de nos aprofundarmos nesse conceito, devemos entender que qualquer pessoa tem dois níveis de capacidade: (a) o nível de competências que atinge por si mesma e (b) a competência que atinge com o apoio de um tutor. Por exemplo, um aluno pode resolver uma série de problemas matemáticos sozinho, mas se tiver a orientação do professor, esse mesmo aluno será capaz de resolver problemas mais complexos.

Portanto, a ZDI seria a diferença que existe entre o que o indivíduo é capaz de fazer com apoio menos o que ele é capaz de fazer sozinho. Este conceito propõe uma área potencial de desenvolvimento que pode ser trabalhada em cada pessoa. Segundo Vygotsky, a missão da instrução é transformar essas competências da ZDI em competências que a pessoa possa colocar em prática no mesmo nível, sem ajuda. Quando isso acontecer, o indivíduo vai desenvolver uma nova ZDI, na qual vai continuar progredindo, criando assim um contínuo desenvolvimento-aprendizado-desenvolvimento.

O objetivo da educação revolucionária

Aqui nos deparamos com uma das questões chaves dessa educação revolucionária: qual é o verdadeiro objetivo da educação? Antes de responder, os psicólogos soviéticos observaram a realidade e perceberam que o objetivo da educação estava longe de ser o desenvolvimento do potencial dos alunos.

Eles concluíram que a missão da educação da sua época era transformar as pessoas em mão-de-obra para os cargos que o mercado solicitava. Ou seja, criar uma divisão do trabalho e direcionar a educação no sentido de que as pessoas que passassem por ela fossem capazes de preencher as vagas dessa divisão do trabalho. Hoje em dia, com algumas nuances e exceções, podemos observar no nosso sistema educacional a mesma meta.

Professora ensinando aluno

Essa nova corrente psicológica buscava romper com essa dinâmica. Eles acreditavam que todos os indivíduos deveriam ter a chance de desenvolver seu máximo potencial intelectual. Isso sem se esquecer de que precisavam de trabalhadores para manter o funcionamento da sociedade. Por isso, eles acreditavam que o ideal era que os estudantes participassem diretamente na vida econômico-social, saindo periodicamente da escola para se dedicar ao trabalho necessário à manutenção da sociedade.

Atualmente, podemos observar que não existem muitas diferenças entre o sistema contra o qual esses psicólogos lutavam e o atual. Hoje vemos que na maioria das salas de aula a comunicação continua sendo unidirecional e estamos muito longe de tentar explorar a ZDI de cada aluno. A educação revolucionária proposta por Vygotsky, Luria e Leontiev caiu no esquecimento. Mas por quê? Isso se deve ao fato de que o objetivo da educação ainda não é o desenvolvimento do potencial humano. Nosso sistema educacional busca produzir trabalhadores, assim como uma indústria produz qualquer outro tipo de produto.

Se quisermos realmente evoluir como sociedade, a educação é um fator essencial. E enquanto tivermos um modelo educacional que não se preocupa com o desenvolvimento de cada pessoa, seremos incapazes de progredir. Mas o que podemos fazer para resolver esse grande problema? Essa é a pergunta que precisamos responder por meio do estudo científico da educação e da sociedade.

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