William Wilson, um conto de E. A. Poe para refletir

William Wilson, um conto de E. A. Poe para refletir

Fevereiro 28, 2018 em Livros 67 Compartilhados
William Wilson, um conto de E. A. Poe para refletir

Edgar Allan Poe é um dos gênios da literatura mais reconhecidos a nível mundial; e não apenas pelo conjunto de sua obra, mas também por sua vida turbulenta, sua morte e pelas misteriosas visitas de um possível admirador ao seu túmulo. Em suma, além de nos deixar obras tão memoráveis quanto O Corvo, também se tornou uma figura intimamente ligada ao mistério; um personagem, sem dúvida, muito atraente e interessante. Em meio a toda a sua produção literária, eu gostaria de destacar um conto em especial, William Wilson, uma narrativa breve que nos aproximará do subconsciente do autor e de um tema há muito tratado na literatura: o mito do duplo ou Doppelganger.

Edgar Allan Poe nasceu em 19 de janeiro em Boston, Estados Unidos; é considerado o criador do relato investigativo (detetivesco), o renovador do romance gótico e, sem dúvida, um grande mestre do terror. Do terror psicológico, daquele que questiona a mente humana, que nos perturba e incomoda.

Talvez, se a vida de Poe tivesse sido tranquila, estável e não existissem os problemas com álcool e com familiares, não teria sido o gênio literário que hoje conhecemos. A vida de Poe foi, sem dúvida, tempestuosa; e é essa inquietude e tortura mental em que vivia que vemos refletida em suas obras.

William Wilson é uma das histórias mais interessantes de E. A. Poe. É uma história que supõe uma renovação da ideia do duplo tida na literatura; é um antes e um depois. William Wilson é uma história narrada em primeira pessoa, onde o “autor” se apresenta como William Wilson, apesar de nos advertir de que é um nome falso; a história centra-se na vida deste personagem e em um companheiro de mesmo nome e sobrenome que o perseguirá por toda a vida.

Estes dois personagens não possuem nenhum parentesco, mas além de compartilharem o nome, compartilham da mesma aparência física; o William Wilson “duplo” será o único personagem capaz de enfrentar o William Wilson “original”, o único que pode protegê-lo e vencê-lo.

Edgar Allan Poe

Subconsciente, o duplo e a literatura

A psicanálise, apesar do que possa parecer, pode ser muito útil na análise de textos literários, especialmente aqueles com uma maior carga simbólica. Em A interpretação dos sonhos e A Psicopatologia da vida cotidiana de Freud, apresenta-se a ideia de que os sonhos supõem uma liberação/expressão dos traumas relacionada à famosa estrutura psíquica: inconsciente, pré-consciente e consciente. O inconsciente é responsável por fazer aflorar os traumas, e Freud interpretou os sonhos como um veículo para esta viagem através da consciência.

A literatura e a arte têm sido vistas como um mecanismo semelhante ao dos sonhos, onde os autores, através de metáforas e símbolos, deixam aparentes seus possíveis traumas. Freud reúne uma série de fenômenos vistos na literatura: a aparição do duplo, o desmembramento do corpo, o pensamento mágico, etc.

Ao longo da história da literatura, encontramos um grande número de símbolos e metáforas que podemos interpretar graças à psicanálise. Um dos casos mais estudados é, possivelmente, o complexo de Édipo; podemos encontrar inúmeros símbolos fálicos, formas simbólicas de morte da figura do pai (eliminação do rival)… em inúmeros poemas e obras literárias. Um bom exemplo disso seria o poema A mãe de Damaso Alonso, e na arte, Saturno devorando um filho de Goya, uma obra que tem sido interpretada pela psicanálise e que está relacionada ao canibalismo, melancolia, destruição e a problemas sexuais.

Saturno devorando um filho, de Goya

A literatura é uma maneira de entrar no inconsciente, e isso não é algo que surge com Freud, mas está presente ao longo de toda a história. Aristóteles, por exemplo, dizia que assistir a shows de tragédias gregas onde são observadas verdadeiras brutalidades desencadeava a purificação das emoções. Na literatura e na arte podemos observar todos os tipos de conflitos internos dos mais desagradáveis, mas que supõem uma libertação.

O tema do Duplo está associado à idealização da alma, estabelece uma estrutura de duplicidade manifestada através de espelhos, reflexos (água), etc. Consequentemente, ao analisar um trabalho literário ou artístico, é interessante prestar atenção a estes pequenos detalhes, que podem nos oferecer indícios do verdadeiro significado do trabalho.

Na Antiguidade, encontramos o caráter mitológico de Narciso, que se apaixona por seu reflexo na água, um dos primeiros exemplos do tema do duplo; isso também pode ser visto em algumas comédias de Plauto. Originalmente, o duplo era visto como um elemento cômico: confundir os gêmeos e contar algo para o gêmeo errado, situações confusas que causavam risadas, etc. No entanto, especialmente com o advento do romantismo, aparece a ideia do duplo maligno, o “gêmeo do mal” que passará a receber um tratamento dramático, deixando de lado a perspectiva cômica.

William Wilson vai um passo além deste drama. O duplo de William Wilson não é o clássico gêmeo maligno, mas é um personagem “superior” a ele em alguns aspectos, um personagem que será uma espécie de voz de sua consciência. É uma versão melhorada e, consequentemente, uma ameaça ao orgulho do protagonista.

O conto William Wilson

O tema do duplo em William Wilson

A narração em primeira pessoa e a data de nascimento de William Wilson (19 de janeiro, assim como Poe), nos convidam a conhecer o sofrimento em um trabalho com tendências autobiográficas. Algo que realmente não nos surpreende, considerando a vida turbulenta do autor. William Wilson seria uma espécie de consciência para Poe, uma espécie de amostra da luta interior que o autor viveu em todos esses momentos.

O desdobramento da personalidade é evidente desde o início, não só pela aparência do duplo, mas também pelo nome escolhido: William Wilson. A inicial, “W”, por si só implica duplicidade e, além disso, é repetida tanto no nome quanto no sobrenome; algo que, levando em conta o enredo do trabalho, não foi escolhido aleatoriamente.

William Wilson e seu duplo se tornam companheiros inseparáveis; algo o leva a odiá-lo e a atacá-lo já que é uma ameaça, mas ao mesmo tempo, sente um certo apreço por seu duplo, porque se vê refletido nele. As semelhanças vão se tornando cada vez mais claras, chegando o duplo a copiar sua forma de se vestir e andar. Nesse sentido, William Wilson é um personagem ousado, que ultrapassa as barreiras da legalidade do “socialmente correto”, gosta dos excesso e do álcool. Seu duplo, ao contrário, tentará sabotar os planos de Wilson.

O problema do duplo recebe uma abordagem ousada e profunda nessa obra. O duplo se converte em um verdadeiro pesadelo para o protagonista, em um reflexo claro dos conflitos pessoais do autor. A divisão da personalidade levará a uma situação esmagadora, carregada de nervosismo para o protagonista e que, como esperado em uma obra deste estilo, nos leva a um resultado espetacular onde, naturalmente, não faltará a figura do espelho.

Em suma, uma narrativa digna de análise, carregada de elementos simbólicos, que merece mais que uma simples leitura e que nos aproxima dos problemas do próprio Poe. William Wilson é uma narrativa autobiográfica onde o autor questiona seu próprio estilo de vida e trava um diálogo com sua própria consciência.

“No decorrer da leitura, a alma do leitor está à disposição do escritor”.
– Edgar Allan Poe –

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