A disciplina do silêncio de acordo com Pitágoras

27 Janeiro, 2021
A disciplina do silêncio, de acordo com Pitágoras, tinha como objetivo mais do que acalmar a mente pelo controle da palavra. O sábio da escola de Crotona acreditava que esta era uma forma de despertar a verdadeira essência do indivíduo, sem artifícios.

A disciplina do silêncio, de acordo com Pitágoras, visava moldar uma mente mais reflexiva por meio do autocontrole da palavra. Por meio desse tipo de prática ascética, o sábio da escola de Crotona ensinou a centenas de homens e mulheres que, somente quando nos abstraímos do mundo sensível, podemos fazer contato com nós mesmos e assim alcançar a sabedoria autêntica.

Mais de 2.500 anos atrás, Pitágoras de Samos introduziu esse princípio no mundo ocidental. O famoso matemático e filósofo grego passou duas décadas de sua vida no Egito aprendendo sob a tutela de vários hierofantes em Tebas e Mênfis. Mais tarde, ele foi para a Babilônia para estudar astrologia e os princípios do karma e da meditação.

Todos esses conhecimentos adquiridos lhe serviram para criar a sua célebre escola de Crotona, que só tinha uma regra quando se tratava de permitir o acesso a qualquer aluno: que anteriormente passasse cinco anos em rigoroso silêncio. Para quem já tinha uma personalidade calma e focada, “apenas” dois anos eram suficientes.

Escritos de outros filósofos desse período indicam que mais de 200 alunos, homens e mulheres, vieram a este centro ansiando por conhecer todos os mistérios e sabedorias fabulosas que poderiam ser adquiridas na Escola de Pitágoras. Ora, se há algo que todos sabemos é que, atualmente, o silêncio não é exatamente comum nos centros educacionais.

De alguma forma, perdemos uma lição valiosa que o próprio Pitágoras nos deixou em sua época: através do silêncio, aprendemos a nos disciplinar.

“Ouça e você será sábio. O início da verdadeira sabedoria faz parte do silêncio”.
-Pitágoras-

Através do silêncio, aprendemos a nos disciplinar

Em que consiste a disciplina do silêncio segundo Pitágoras

O princípio básico que rege a disciplina do silêncio segundo Pitágoras parte de um fato essencial. Para o sábio da escola, o mais difícil de controlar nas pessoas é a língua. Essa parte do nosso organismo foi, em sua opinião, a principal causa de problemas e tragédias pessoais, bem como o canal pelo qual trazemos sofrimento para as nossas próprias vidas.

Em livros como os escritos por Thomas Stanley, o primeiro historiador da filosofia, ele aponta Empédocles, um político do século V a.C., destacando que se a humanidade pudesse seguir as lições de Pitágoras, seríamos uma sociedade mais nobre. Além disso, ele chegou a definir o próprio Pitágoras como uma figura que parecia ter acumulado vinte vidas em seu ser.

A ele devemos a matemática pura, o termo “filosofia” e a criação daquela escola de Crotona, que mais tarde serviria de modelo para a criação de universidades modernas. Nessa instituição, os alunos foram apresentados ao ensino científico e filosófico, além de música e astronomia. No entanto, para acessar esse conhecimento, eles primeiro tiveram que ser “purificados”. Esse rito de passagem é realizado da seguinte maneira.

Nascer do sol

A dura disciplina do silêncio

A disciplina do silêncio segundo Pitágoras exigia que todo aluno passasse 5 anos em rigoroso silêncio (dois se fosse uma pessoa de caráter temperado e sereno). Desse modo, e segundo suas próprias palavras, a alma humana poderia retornar ao seu lar para se desprender de qualquer artifício ou objeto externo.

  • Disciplinar a língua era a única maneira de aquietar a mente, as necessidades do corpo e os sofrimentos que constituíam a alma.
  • Além disso, ao contrário de outros matemáticos gregos posteriores, não temos nenhum livro escrito sobre Pitágoras. Ele não escreveu nada porque não queria ser amarrado à palavra escrita. Ele desejava que seu conhecimento residisse apenas na mente de seus alunos, aqueles que já haviam sido purificados pelo teste do silêncio.
  • Assim, quando um aluno dava um passo para realizar esse rito de passagem, ele era considerado um Acoustici. Quando ele passava no teste, ele já era um Mathematici.
  • O silêncio entre os pitagóricos era essencial. Quando um aluno atingia esse nível, ele alcançava uma “transmigração” do seu pensamento. Desta forma, ele poderia entender melhor a cosmogonia oculta da natureza, números, arte ou qualquer tipo de sabedoria.

Como aplicar essa disciplina hoje?

Estamos cientes de que poucos de nós podem cumprir a disciplina do silêncio de Pitágoras tal como foi formulada em sua época. Fazer um rigoroso voto de silêncio por cinco anos não é algo que todos possam ou queiram fazer. No entanto, estudos como o realizado no Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard (Estados Unidos) indicam algo importante.

Se fôssemos capazes de manter um silêncio rigoroso de meia hora a uma hora por dia, teríamos um cérebro mais saudável, menos estressado, uma mente mais focada e um estado de espírito melhor.

Portanto, não custa nada adaptar esta sugestão com outras recomendações que o próprio Pitágoras de Samos nos deu na época sobre a questão da saúde e do bem-estar:

  • Estar em contato com a luz solar, seguir os ciclos da natureza.
  • Permitir-se, a cada dia, pelo menos uma hora de silêncio.
  • Cuidar da alimentação (na escola de Crotona, evitava-se o consumo de carne).
  • Exercitar-se regularmente.
  • Ter conversas enriquecedoras.
  • Realizar práticas criativas.
Como aplicar a disciplina hoje?

Para concluir, como podemos ver, a disciplina do silêncio segundo Pitágoras é como a sua própria figura, um legado a partir do qual nós podemos aprender, refletir e inspirar. Por isso, vale a pena lembrar lições como as contidas nas frases que ele dirigiu aos seus alunos: o silêncio é a primeira pedra do templo da sabedoria.

  • Gómez, Pin. Víctor (2017) Pitágoras: La infancia de la filosofía. Emse
  • Stanley, Thomas (2010) Pythagoras: His Life and Teachings. Hays Ltd