O conceito de generosidade a partir de uma perspectiva psicológica

dezembro 6, 2019
Neste artigo, analisamos os benefícios psicológicos da generosidade. Cada vez conhecemos mais consequências positivas desta atitude de entrega que não espera retorno.

Nos últimos anos têm surgido estudos com dados que apoiam os benefícios de praticar a generosidade. Alguns autores humanistas-existencialistas, especialmente Erich Fromm e Vikor Frankl, destacam os valores éticos e o amor em suas diferentes variantes.

Nesse sentido, Fromm afirma que os valores éticos e o amor constituem uma fonte de bem-estar psicológico e uma característica de pessoas emocionalmente saudáveis (Oberst, 2005).

A generosidade e a gratidão são dois conceitos importantes que denotam a excelência do caráter pessoal (Emmons & Sheldon, 2002). Além disso, de certa forma, são complementares.

A relação entre estes dois conceitos se inicia com um processo afetivo de “dar” um bem material, conselho ou ajuda a outra pessoa sem esperar reciprocidade; a generosidade é um comportamento pró-social que proporciona bem-estar para a outra pessoa (beneficiada).

Maslow (2001) fala da “natureza generosa” do ser humano como oposta ao egoísmo. Ele afirma que existe uma relação entre o comportamento generoso e a saúde psicológica, já que o comportamento generoso procede da “abundância” e da “riqueza interior”.

Por outro lado, o comportamento egoísta é um fenômeno de pobreza interior, típico de pessoas neuróticas.

“A virtude e a generosidade são recompensadas de uma forma inescrutável”.
-Nelson Mandela-

Mão segurando coração de vidro

O conceito de gratidão a partir de uma perspectiva psicológica

A partir do ponto de vista ético, a gratidão é definida como uma virtude moral que, como tal, denota um bom comportamento (McCullogh, Kilpatrick, Emmons & Larson, 2001).

No entanto, a definição, como comportamento moral, obriga a agradecer por mandatos impessoais os benefícios recebidos (Blumenfeld, 1962).

Reconhecer e apreciar a pessoa que nos ofereceu ajuda não significa que estamos em dívida com ela. Embora muitos tenham sugerido que a gratidão e a dívida são equivalentes, eles são essencialmente diferentes (Watkins, Scheer, Ovnicek & Kolts, 2006). A dívida obriga o endividado a efetuar um pagamento ao credor.

É importante destacar que a ação do credor deve ser necessariamente generosa, e não um comportamento voltado para oferecer um benefício em busca de uma recompensa. O ato generoso não pode ter finalidades egoístas.

“A generosidade é um presente que cada um pode dar a si mesmo. Não há nada melhor para se sentir bem”.
-Franz-Olivier Giesbert-

A generosidade é um indicador de saúde mental?

A generosidade foi estudada especialmente no contexto da busca científica da origem do altruísmo. Além disso, atualmente vários estudos empíricos estimam que ela é um bom indicador de saúde mental.

O sentimento de comunidade também reside na base do bem-estar psicológico, razão pela qual a sua ausência constitui um indicador de um ajuste psicológico deficiente e de transtorno mental.

Quando a criança não consegue desenvolver um certo grau de sentimento de comunidade – como resultado, por exemplo, de uma educação excessivamente autoritária ou permissiva, entre outros fatores – surgem sentimentos de não pertencimento, de insuficiência, de inferioridade, e o famoso complexo de inferioridade (Oberst, 2005).

Estes sentimentos de inferioridade são difíceis de tolerar. Por isso, a tendência habitual é a de compensá-los com o que Adler chama de “afã de superioridade” ou “afã de poder”, aspecto que, segundo a Psicologia Adleriana, estaria na base de qualquer transtorno psicológico.

Mulher triste com a mão na janela

O indivíduo com sentimentos de inferioridade – e, portanto, com um sentimento de comunidade deficiente – desenvolveria o que Adler chama de “disposição neurótica” (Adler,1912/1993).

A disposição neurótica pode ter várias manifestações, que hoje ficariam definidas, com mais precisão, no neuroticismo – como traço de personalidade – e nos transtornos psicossomáticos e transtornos de personalidade.

A partir desta suposta inferioridade, nasce uma distorção da vida emocional: o neurótico não é mais capaz de se relacionar com os demais de maneira natural, espontânea. Pelo contrário: para compensar seu sentimento de inferioridade, tenta alcançar triunfos constantemente.

Quando esta disposição se acentua ou nela convergem problemas psicossociais, podem surgir deformidades de caráter, como a avareza, o rancor, a malícia, a crueldade, etc. Tudo isso para escapar do sentimento insuportável de se sentir inferior ou menosprezado.

“A generosidade aprecia a felicidade alheia como se fosse a responsável por ela”.
-Conde de Lautréamont-

Adler, A. (191211993) El carácter neurótico. Barcelona: Paidós.

Blumenfeld, W. (1962). Los fundamentos de la ética y el principio generalizado de gratitud. Lima: Universidad Nacional Mayor de San Marcos.

Emmons, R. & Sheldon, C. (2002). Gratitude and thescience of positive psychology. En C. Snyder & S. Lopez (Eds.). Handbook of positive psychology (pp. 459-471). London: Oxford
University Press.

Maslow, A. H. (2001) Visiones del futuro. Barcelona: Kairós.

McCullough, M., Kilpatrick, S., Emmons, R. & Larson, D. (2001). Is gratitude a moral affect? Psychological Bulletin, 127, 249-266.

Oberst, Ú. E. (2005). Las conductas prosociales,¿ un indicador de salud mental?. Aloma: revista de psicologia, ciències de l’educació i de l’esport Blanquerna, (16), 143-153.

Rodríguez, T. C. EL CONCEPTO DE GRATITUD DESDE UNA PERSPECTIVA PSICOLÓGICA. Rev. Psicol. Vol. 13 Nº 1-Enero-junio 2011, 105.

Watkins, P., Scheer, J., Ovnicek, M. & Kolts, R. (2006). The debat of gratitude. Dissociating gratitude and indebtedness. Cognition & Emotion, 20(2), 217-241.